Uma vida de Sucesso
Uma grande história de sucesso profissional e pessoal foi vivida por Soraya Bitencout, uma homossexual brasileira que quebrou preconceitos desde os anos 70 ao ingressar em uma universidade pública para se formar em engenharia – profissão genuinamente masculina para a época – e depois cuidar dos negócios da família no Rio de Janeiro.
Desde muito cedo, Soraya já apresentava traços bem diferenciados que as meninas da época, sua diversão preferida era desmontar e montar utensílios domésticos e também criar invenções a partir de sucatas, como seu primeiro invento: um projetor de slides, feito a partir de uma saboneteira e uma lanterna. Até se tornar uma das melhores profissionais de desenvolvimento da Microsoft – hoje a maior potência na área de tecnologia em software.
De família pobre, porém batalhadora, a mãe de Soraya consegue uma bolsa de estudos em um dos cursos pré-vestibulares mais conceituados do Rio de Janeiro. Soraya ingressou na melhor faculdade de engelharia do Estado. Trabalhou e provou que engenharia e máquinas eram também para garotas e, aos 21 anos, já estava em um bom posto na Sousa Cruz. Depois trabalhou na Embratel para o lançamento do primeiro satélite brasileiro, que marcou a história do Brasil na área de telecomunicações.
Vinda de um casamento fracassado, Soraya encantou-se por algumas garotas e passou a ter plena convicção de que seus desejos afetivos e sexuais eram por mulheres. Encarou o preconceito de uma separação e foi morar com uma “amiga”, Lucila. Soraya então decidiu ir viver nos Estados Unidos em busca de melhores oportunidades de vida, sobretudo em sua carreira profissional, e então convenceu Lucila a imigrar com ela. Naquele país, começaram fazendo faxinas e lavando pratos até que, em uma pequena empresa de tecnologia, Soraya foi bem sucedida.
São episódios da trejetória de ascensão pessoal e profissional de Soraya, que em seguida, abriu uma loja de serviços de informática em Boston e, após o assédio de grandes empresas, entrou para a Microsoft. Para saber o que aconteceu depois e conhecer mais detalhes sobre a trajetória de Soraya Bitencourt, só lendo o livro.
Detalhes:
Editora: GLS
ISBN: 8586755346
Ano: 2003
Edição: 1
Número de páginas: 208
O Terceiro Travesseiro
O Terceiro Travesseiro, principal obra de Nelson Luiz de Carvalho, é um romance do cotidiano de muitos jovens que, como Renato e Marcus, se descobrem homossexuais e sofrem problemas com a família, amigos e nem sempre são aceitos como os protagonistas dessa história.
Renato e Marcus eram grande amigos e sempre saíam juntos para festas, danceterias e viagens. Renato namorava Beatriz, uma das garotas mais lindas e desejadas do peçado e formavam um belíssimo casal.
Renato e Marcus eram grande amigos e sempre saíam juntos para festas, danceterias e viagens. Renato namorava Beatriz, uma das garotas mais lindas e desejadas do pedaço, e formavam um belíssimo casal.
Marcus então começou a ver seu amigo de forma diferente, sentia alguns desejos por ele e chegava a se masturbar imaginando possuir o seu, até que um dia resolve se abrir com oamigo durante um passeio a dois, numa cachoeira.
Renato corresponde aos desejos de Marcus, e juntos passam a ter uma amizade colorida, o que logo Beatriz e os familiares ficam sabendo. Até que Marcus resolve assumir sua homossexualidade para a família, assim como Renato, que coloca seu namoro à beira da falência.

A FILOSOFIA NA ALCOVA
Louvor à crueldade
Em A filosofia na alcova, Sade faz do crime e do sexoos paradigmas de uma nova sociedade
Por João Marinho
França, 1789. Estoura a Revolução. No dia 14 de julho, o povo toma a Bastilha, prisão política do Antigo Regime, como demonstração da perda do poder de Luís XVI.
Alguns dias antes, o prisioneiro Donatien-Alphonse-François, mais conhecido como Marquês de Sade, gritava, da janela de sua cela, que os guardas queriam massacrar os detentos. Ele foi, então, transferido para o hospital para loucos e epilépticos de Charenton Saint Maurice, até ser liberto, em 1790, por uma decisão da Assembléia Constituinte.
A Revolução Francesa marcou a vida de Sade. Apesar de ter origem aristocrática, o marquês abraçou o ideal revolucionário e chegou a ser secretário da Section de Piques e comissário para a administração de hospitais.
Bissexual, gostava de uma certa dose de violência em suas relações e costumava realizar orgias e recorrer a serviços de prostitutas. O comportamento sexual exótico, seus escandalosos escritos e os inimigos que colecionou entre republicanos e membros do Antigo Regime fizeram com que o marquês passasse boa parte da vida aprisionado.
Sua obra era incômoda porque, mais do que escrever obscenidades (algo até comum em sua época), Sade cometia o “pecado” de unir pornografia, filosofia e brutalidade em um único texto. Seus escritos apresentavam a concepção de um mundo dominado pelo crime e onde o prazer sexual agia como regulador de uma sociedade sem leis.
Essas são as premissas básicas para se entender o livro A filosofia na alcova, publicado pela primeira vez em 1795, cuja última tradução brasileira foi feita por Luiz Augusto Contador Borges.
Assim como outras obras sadianas, a história do livro passa-se em um ambiente aristocrático, a propriedade da Senhora de Saint-Ange. Trata-se de uma mulher rica que, casada com um homem bem mais velho, tem a liberdade de relacionar-se sexualmente com outros homens e mulheres – e que se interessa por uma jovem de 15 anos, Eugénie.
Autorizada pelo pai, Eugénie vai à casa de Saint-Ange, onde é “doutrinada” por esta e por um homem chamado Dolmancé, que costuma manter relações com outros homens. O “doutrinamento” consiste em eliminar da moça todo e qualquer resquício de moralidade.
Para isso, apoiados pelo Cavaleiro de Mirvel, irmão e amante de Saint-Ange, e pelo jardineiro Augustin, ambos fazem uso de toda sorte de relações e posições sexuais – inclusive homossexuais – e de um discurso filosófico que alimentará a raiva que a jovem sente pela mãe, justificará o assassinato, atacará a virtude, pregará o ateísmo radical e apresentará a crueldade como força motriz do universo.
As relações homossexuais, aliás, ocupam um lugar especial em Sade. A própria sodomia (sexo anal), tanto hétero quanto homossexual, emerge como uma das principais práticas e, em A filosofia na alcova, há uma defesa contundente dessa forma de obter prazer.
A estrutura do livro segue a apresentação de um script de peça teatral, o que se justifica pelo fato de que Sade, sabidamente, era fã de teatro. Com exceção do capítulo “Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos”, sobre o qual comentaremos adiante, os demais são identificados ordenadamente como diálogos (Primeiro Diálogo, Segundo Diálogo, etc.). A linguagem é dura, com recorrência freqüente a expressões chulas.
Em especial, Saint-Ange, Dolmancé e o Cavaleiro de Mirvel são libertinos, personagens típicos da obra sadiana. São características de um libertino: a riqueza, o individualismo radical, o exagerado apetite sexual e o gozo em fazer sofrer suas vítimas, que preferencialmente são as personagens que, em outros romances, fariam o papel de heroínas virtuosas. A blasfêmia permeia o “estilo de ser” do libertino, que, além da sodomia, coleciona uma série de outras práticas sexuais “heterodoxas”: escatologia, pedofilia, estupro, etc.
Em A filosofia na alcova, a religiosa Senhora de Mistival, mãe de Eugénie, faz o papel de vítima. Ela mesma é estuprada mais de uma vez (em uma delas, por um empregado com sífilis e possuidor de um pênis enorme) e, após ser açoitada e humilhada, tem o ânus e a vagina costurados a sangue frio. A vítima, ao contrário do libertino, não tem o direito de gozar, mas o dever de ser objeto do gozo de seu algoz, que dela faz o que quer, mesmo que disso resulte a morte.
Representada na oposição vítima X libertino, a relação virtude X vício é essencial em Sade. Para o autor, a virtude é, em si, vazia e sem sentido e só existe mediante o vício. Como escreve Contador Borges, Sade exige “que o espetáculo da virtude dependa intimamente de sua negação [...] A virtude é ‘atormentada’ pelo vício’”.
Em A filosofia na alcova, isso fica claro nos diálogos que Dolmancé, o filósofo da história, trava com Eugénie. Diz o rapaz, no Terceiro Diálogo: “[...] a virtude é só uma quimera cujo culto consiste em imolações perpétuas [...] Serão naturais tais movimentos? Aconselhará a natureza o que a ultraja? Eugénie, não te deixes enganar por essas mulheres que se dizem virtuosas. Se quiseres, elas não servem às mesmas paixões que nós, mas possuem outras quase sempre bem mais desprezíveis”.
A virtude, assim, mais do que existir por meio do tormento pelo vício, serve como máscara para encobri-lo. Eis um dos pontos-chave da crítica sadiana à virtude, e, vale dizer, à virtude cristã: sua falsidade, que renega as inclinações naturais do ser humano, que delas não pode e não deve se abster.
A questão da natureza emerge, portanto, como um dos argumentos centrais, sobretudo porque Sade prega, conforme já destacado, o ateísmo. Se não há Deus, resta ao homem guiar-se pela natureza, e esta é, por definição, egoísta e cruel.
Recorre-se, então, a uma comparação com o reino animal e com outras culturas e relativizam-se os próprios conceitos de virtude e vício. Prega-se unicamente o “apego” àquela natureza, o que resulta numa sociedade mais justa e feliz, ainda que em meio ao crime. É, enfim, a união completa entre pornografia, filosofia e brutalidade.
Essa sociedade ideal é desenvolvida no já mencionado capítulo “Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos”, inserido de forma “anômala” no livro, com o qual Sade dá sua contribuição ideológica à Revolução. Quem diria que de uma alcova sairiam idéias tão cruéis, brilhantes, libertinas e, por que não, libertadoras?
A filosofia na alcova
Autor: Marquês de Sade (tradução de Luiz Augusto Contador Borges)
Editora: Iluminuras - http://www.iluminuras.com.br
Ano: 1999
Leia aqui a resenha sobre a peça do grupo Os Satyros, inspirada neste livro. Na peça, Saint-Ange ganhou o nome de Juliette, uma das personagens clássicas de outros livros de Sade.

Teatro paranóico
Livro de Bernardo Carvalho cria a “lógica do ilógico” e redefine a ficção
“O inferno é descobrir que você nunca foi o que pensava que era. É morrer e descobrir que o que você achava que era não é nada”
(Ana C., personagem de Teatro)
Na atual Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), o Transtorno Delirante Persistente é caracterizado pela ocorrência “de uma idéia delirante única ou de um conjunto de idéias delirantes aparentadas, em geral persistentes e que por vezes permanecem durante o resto da vida”. Também conhecido como paranóia, diferencia-se de outras psicoses pela união dos delírios em um contexto organizado, lógico e até verossímil.
A definição é essencial para entendermos o romance Teatro, do carioca Bernardo Carvalho. Dividido em duas únicas partes, o livro traz duas histórias com elementos típicos de um thriller policial: homicídios, investigações, cartas misteriosas, incursões pelo submundo da pornografia e grandes reviravoltas.
Na primeira parte, intitulada “Os sãos”, o narrador é um policial aposentado nascido no “centro do império”, cujos pais são imigrantes ilegais que atravessaram a fronteira – um rio – a pé, em busca de uma vida melhor no “país das maravilhas”.
A história, diz o livro, é narrada na língua dos pais e somente após o policial ter voltado ao país de origem da família, fugindo da verdade sobre uma série de homicídios cometidos por um terrorista. O livro não deixa explícito, mas conclui-se que os países em questão são, respectivamente, Estados Unidos e México.
Para matar, o terrorista faz uso de envelopes anônimos contendo um pó amarelo que causa paralisia em suas vítimas, sempre profissionais bem-sucedidos. A cada atentado corresponde uma carta que mostra parte do raciocínio (paranóico?) do assassino, que apresenta um mundo de certa forma destituído de realidade e dominado por grandes corporações capitalistas.
O narrador, que participara das investigações, aposenta-se antes do sétimo e penúltimo atentado. Um artigo de jornal, apresentado a ele por um antigo amor de infância, Ana C. – uma senhora religiosa que já fora atriz de filmes pornográficos heterossexuais e cuja carreira ele acompanhava –, faz com que decida exilar-se no país vizinho, simulando sua morte.
Em Teatro, a narrativa de Bernardo Carvalho conduz uma história que não é linear e única, mas uma história que contém histórias, dispostas em camadas. Além disso, os personagens são ambíguos e a narrativa volta-se para si mesma, chamando a atenção para a sua própria ficcionalidade.
À medida que dá seu depoimento sobre os atentados, o ex-policial conta outras histórias: a das cartas de um homem que, crendo que o irmão é o culpado, o denuncia à polícia; a da imigração ilegal de seus pais; a do relacionamento com Ana C.; a de sua vida no seu exílio; e a de um professor que pregava o mal necessário como elemento aglutinador da sociedade e que será determinante para o esclarecimento dos fatos. As várias histórias, porém, unem-se em um ponto: o próprio narrador, que, revela-se, tem um envolvimento íntimo com a figura do terrorista.
Enredado por todas essas histórias, o leitor obriga-se a estabelecer o que é “real” na narrativa e o que é “ficção” ou mentira do narrador ou de outras personagens, como Ana C. Uma vez que a história em si já é uma ficção, há uma ficção da ficção – e o estabelecimento de “níveis” entre elas.
O recurso leva a perceber que Teatro não é, afinal, um thriller, mas um livro sobre paranóia, manifesta na organização precisa dos “delírios” do terrorista, do suspeito denunciado pelo irmão e, no final da história, do próprio narrador. É interessante destacar que, com exceção deste, que revela o nome somente na conclusão dos fatos, todos os demais personagens são identificados apenas por iniciais, como nos tratados psiquiátricos ou psicanalíticos – o que, por sinal, se constitui em uma prática característica de Bernardo Carvalho.
Uma “meia-exceção” é Ana C., aparentemente uma homenagem à “poeta maldita” Ana Cristina Cesar, que assinava dessa forma e trabalhava, em suas obras, a ambigüidade e a desconstrução de identidades, elementos que são determinantes em Teatro. Os personagens identificados por iniciais, ambíguos – como a própria Ana C., religiosa e atriz pornô –, e o aspecto paranóico da obra fazem com que o leitor não consiga instituir um raciocínio firme e conhecer “realmente” cada um deles.
Na segunda parte, “O meu nome”, o rompimento com a identidade e o reforço à ambigüidade acentuam a paranóia. Aqui, Ana C. é elevada à condição de protagonista, e Carvalho coloca a pornografia em um lugar de destaque, não só no interior da narrativa, como também no uso de palavras mais “duras” (“pau”, “bunda”, “enrabado”, etc.).
Ana C., porém, não é mais uma ex-atriz, mas um ator de filmes pornôs gays. O narrador também muda: é agora um fotógrafo, o still dos filmes, contratado por uma revista sensacionalista para aproximar-se do astro e esclarecer o assassinato de um famoso político, em que Ana C. estava envolvido – e que causa um súbito e inexplicável desaparecimento (morte?) do ator.
Essa “instabilidade” da presença de Ana C., entretanto, é também descrita como algo que participa de seu sucesso e leva boa parte de seus fãs à loucura. Aqui, a primeira parte do livro é apresentada como uma narrativa escrita por um desses fãs loucos, que o “transformara” em mulher. Mergulha-se, portanto, em outra camada ficcional.
O fã, porém, possui uma afinidade íntima com Ana C. que, mais tarde, leva o próprio narrador-fotógrafo a uma paranóia – e o leitor acaba por concluir que, possivelmente, todas as histórias são apenas partes de um imenso teatro paranóico. Aliás, é preciso observar que a palavra “teatro”, curiosamente, é mencionada apenas duas vezes no romance, uma em cada parte.
Paranóia, descontrução de identidade, ambigüidade e personagens homossexuais em uma narrativa sinuosa e labiríntica são marcas registradas da obra de Bernardo Carvalho que, nesse incrível romance, as trabalha com uma extraordinária genialidade.

Teatro
Autor: Bernardo Carvalho
Editora: Companhia das Letras - http://www.companhiadasletras.com.br
Ano: 1998