Logo na minha primeira experiência com mulheres eu senti que precisava compartilhar isso com a minha família. Mesmo temendo ser criticada, resolvi que seria melhor deixá-los a par do que estava acontecendo comigo, do que deixar que descobrissem de outras maneiras, ao menos, eu poderia passar a minha visão das coisas, fazer com que compreendessem meus sentimentos e tentar conquistar o seu apoio.
Eu tinha 22 anos e estava saindo com uma menina. Freqüentávamos um bar e freqüentemente esbarravamos com uma amiga da minha mãe. Comecei a temer o fato disso chegar em seu ouvido através de outra pessoa, porque certamente viria de forma deturpada. No
entanto, achei que minha mãe estaria mais fechada a idéia do que meu pai, então resolvi primeiro conversar com ele. Um dia, saí com meu pai para resolvermos algumas coisas, e aproveitei a oportunidade para trazer o assunto.
No ponto de ônibus, fui sutilmente puxando a conversa, a reação dele acabou sendo completamente diferente do que eu imaginava, caiu na gargalhada e logo depois passou a me perguntar como isso havia acontecido. Fui explicando toda a
história...como eu havia me apaixonado pela primeira vez por uma menina aos 17 anos, como foi difícil conviver com esta paixão platônica...como havia reunido forças pra terminar a relação com meu ex-namorado pra viver esta nova história,
enfim...expressei meus sentimentos mais sinceros, abri meu coração. Ele me ouvia atenciosamente e demonstrou, na hora, estar sensibilizado com o sofrimento que uma situação como essas, tão reprimida, causava. Um dos argumentos que usei, que achei bastante pertinente, foi de que...se eles que são a minha família, pessoas que me amam, não estivessem do meu lado, como seria encarar o mundo preconceituoso "lá fora"?. Se não pudesse contar com eles, com que mais eu poderia contar? Assim, acabei pedindo a ele que conversasse com a minha mãe a respeito. Dia seguinte, ele sentaria com ela pra explicar a situação.
Meu pai apesar de ter tido uma boa reação na hora, começou a demonstrar suas restrições, uma delas, foi contar ao resto da família (tios e primos) sobre a minha orientação sexual (que não está evidente pela minha forma de vestir/agir). E fui até mesmo obrigada a ouvir alguns comentários do resto da família, mas não me senti atingida... acho que existem comentários em que fica evidente a ignorancia das pessos sobre o assunto, por tanto, não me eram válidos.
Apesar de ter sido uma época confusa, eu nunca me senti errada em ser o que sou...então, sempre tive muita paciência e cuidado pra explicar os meus sentimentos, para fazê-los entender as coisas sobre o meu ponto de vista, um dia após o outro. Aos poucos fui trabalhando melhor a idéia com a minha mãe, que volta e meia tocava no assunto. Como vivo com ela (meus pais são separados), o processo de fazê-la entender foi lento, algumas horas constrangedor, embora muito gratificante. Fui mostrando a ela a idéia da diversidade sexual, que simplesmente não é uma questão de escolha, afinal cada um tem sua forma de vivência-la, de se sentir feliz e de se satisfazer.
Ela acabou lembrando de um amigo gay, o que ajudou bastante, já que ela enquanto amiga dele, acompanhou de perto algumas situações de discriminação que ele passava. E assim, foi seguindo o tempo, e ela foi se analisando e acompanhando o meu processo...fazendo um esforço para me compreender.
Hoje, 5 anos depois...eu trago minhas namoradas em casa, tenho liberdade de dormir com elas aqui. Minha mãe aceita a idéia e se tornou uma grande amiga, e até já me defendeu diante de julgamentos de terceiros. Este ano foi comigo buscar minha namorada bahiana no aeroporto, que passou 2 semanas na minha casa, fomos as três juntas à praia, a bares, enfim...tem coisa melhor do que isso?
Meu pai com o tempo foi se adaptando a idéia, apesar de ainda manter uma atitude mais rígida. Diz que não tem nada haver com a minha orientação sexual, mas me aconselha a procurar a pessoa certa, e até chegou a encrencar com uma menina que levei para uma viagem que fizemos juntos. Mas a crítica veio mais pela conduta desta menina, do que necessariamente por ser uma mulher. Na verdade, na verdade, acho que ele deseja que eu seja feliz, ao lado da pessoa ideal, coisa que todo pai deseja pro seu filho.
Esta questão do sair do armário, não se limitou só a minha vivência com a família. Sou assumida também com meus amigos, no meu círculo social, no orkut, enfim... Acho que as pessoas que gostam de mim devem gostar do jeito que eu sou, incluindo a minha orientação sexual. O fato de ser bi, confude bastante, mas tenho uma posição muito política, afirmativa, acho que não devemos nos esconder, porque se assim for, o mundo vai continuar do jeito que é, então é preciso fazer com que a sociedade encare o fato de isso sempre existiu e sempre existirá, de que não há nada de errado em ser assim, apenas diferente da norma, e que desejamos ser felizes assim como os heteros também desejam.
Pra terminar meu depoimento, deixo a parte de uma letra de rap que gravei pra uma campanha de direitos sexuais e reprodutivos, vale a reflexão:
"Não venha me julgar com esta atitude moralista,
porque sabe que o amor não tem fronteiras, você se
arrisca. Se isto é estranho pra você, por que é errado
me explica! Quero respeito por ser diferente da norma
prevista. Isto me lembra a história de Xica da Silva,
quando bateu de frente com a sociedade racista. Dou
dona de mim mesma e agora viro a mesa, o que é diverso
não pode ser visto com indiferença. Se eu gosto de uma
mulher, te agrido por não ser o que quer, mostro a
cara, me assumo. Quero o meu direito de amar assim
como você também quer o seu direito de amar, e o meu
direito de amar?" (Letra "Ser livre"/ Prima Donna)
Fica o link pra quem tiver curiosidade de ouvir:
http://www.hiphopdsdr.org.br/down.htm
Espero que com este relato sintam-se incentivados a se assumirem. As vezes as coisas são muito mais simples do que pensamos. O tempo ajudará bastante, basta ter paciência. Boa sorte!
Marcela - Prima Donna
primadonnarj@yahoo.com.br