Homossexualidade
Homossexualismo & Homossexualidade
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Homossexualidade

Referências

homossexualidade
homossexualismo
saindo do armário
sair do armário
fora do armário
se assumir
cura da homossexualidade

 
 

Depoimento Filhos - homossexualidade

Julio Mendes

Julio MendesMeu nome é Juliano, tenho 27 anos, e a minha saída do armário se deu por causa de uma dor enorme que eu sofri dois anos atrás. Algo dessa grandeza volta e meia aparece nas minhas lembranças, pois foi algo triste, mas bonito. (como algo pode ser triste e bonito ao mesmo tempo?) Para contribuir com meu depoimento, resolvi remexer o meu diário e transcrever aqui pra vocês:

Domingo, 11 de Setembro de 2005

Estava eu arrumando meus armários (que são ótimos para reter o que você acha que largou pelo caminho), agora que tenho bastante tempo livre para me perder entre poeira e coisas acumuladas, quando encontro um cartão há muito tempo esquecido, datado de Dezembro de 2003. A bateria da musiquinha ainda tem energia para entoar a canção.

É um cartão de natal, e nele está escrito:

"Jú: Te desejo toda a paz do mundo neste ano que vai chegar. Não foi do jeito que planejamos, mas pode ter certeza que você não sai do meu pensamento, e para Deus, nada é impossível... Querido, depois te escrevo uma carta pois não tive tempo de escrever agora.
Que neste natal, o único presente que eu quero ganhar é o seu coração!!!

Feliz Natal

AMO VOCÊ

De seu eterno amor, _ _ N _ _ ."

Também encontrei a trilha sonora de 2003. Ano em que eu o conheci. Nela, canções belas e de um amor inocente que nunca mais foi despertado em mim. Ser um pouco mais racional e seletivo tornou-me mais prático e mais desapegado. Não sei se eu desaprendi a andar nas nuvens ou talvez ainda não tenha aparecido ninguém que me fizesse fazer isso novamente, nem suspirar e sonhar com esperança ao ouvir tais músicas, baladas doces que são unica e simplesmente glicose. Pelo menos agora. Antes, eram mais que denominações químicas. Ultrapassavam qualquer sentido e chegavam até meu coração. Talvez meu coração deixasse chegar qualquer coisa fácil demais.

Foi então que cheguei à última faixa do disco e ouvi a seguinte canção que parecia predizer o ano de 2004, que batia à porta:

"Este ano será incrível. Este ano será O ANO! Todos os planetas estão se alinhando para mim Este ano, eu vou me divertir..."

Ele foi O ANO? Bem, tinha tudo para ser. Eu estava estagiando, meu namorado estava para chegar (que carma, hein? alguém que vive viajando e te deixando com mais saudade...) e eu finalmente teria um relacionamento estável e normal, estava muito feliz, minha família estava ótima e eu tinha uma proposta de emprego, além de grandes expectativas na universidade.

Meu namorado não veio, fui demitido do estágio, meu pai entrou num grave problema de saúde, a universidade estava desestimulante, depois descubro que a pessoa que eu considerava meu amor me enganou, e logo após meu relacionamento e todos os planos, sonhos e tudo em que mais acreditei foi jogado fora e eu tive a queda mais longa e dolorosa da minha vida. Eu estava disposto a encarar o mundo por ele. A jogar tudo pro alto e construir uma vida juntos. Eu estava feliz. E tudo acabou num dos piores momentos de minha vida.

Será que foram os piores mesmo?

Na mesma noite em que fui empurrado do meu precipício (quando ele terminou comigo por telefone), pedi ajuda aos meus pais como nunca havia pedido antes. Precisei do colo deles como eu nunca tive coragem de precisar. Como nunca ousei pedir. Eu estava preso dentro de mim mesmo, mas eu havia crescido tanto em sonhos, em necessidade de liberdade, em dor, também, que já não havia mais espaço para uma segunda pele continuar me contendo. Fora que os hematomas que tomaram conta de minha alma cresceram e estavam rasgando a fina linha que me fizera suportar tanto durante todos esses anos. Eu não podia estar triste quando estava e nem podia pedir ajuda quando precisava.

Quantas noites eu quis o colo e as mãos do meu pai afagando minha cabeça e sua segurança, me garantindo que tudo ia terminar bem? Perdi as contas. Mas naquela noite, eu não aguentava mais carregar o peso do mundo. Eu precisava ter uma vida. Eu precisava ter carinho. Eu precisava ter um pai e uma mãe. No seu sentido mais pleno.

-Mãe?
-O que houve?
-Eu... eu não sei... Eu... não sei mesmo... (Mentira da groooooossa!)

Qualé, Juliano? Á esta altura não adianta mais voltar atrás! Conta, conta, conta! Ela é sua mãe! Quem disse que as palavras saíam?
Então, resolvi tentar enrolar:

-Eu... acho que estou com depressão, mãe. Tenho chorado sem motivo de uns meses pra cá... Acho que é isso... (Ótimo, meu filho. Até seu primo de sete anos daria uma desculpa melhor. Você pensa que a sua mãe é retardada? Ela te conhece, pô!)
-Pra você estar chorando assim, tem que ter algum motivo, o que houve?
-Mãe, me diga uma coisa, com sinceridade... Eu sou menos do que meus irmãos?
-Como assim?
-Meus irmãos fizeram a senhor e meu pai passarem por todos os stress que a maioria dos adolescentes fazem os pais passarem... Já chegaram bêbados em casa, já sumiram dias sem dar notícias, já repetiram de ano, já levaram reclamação da escola, já se meteram em brigas, já engravidaram meninas, já bateram com o carro... E eu pulei tudo isso. Ainda assim, eu sou menos do que eles?
-Porquê essa pergunta, filho?
-Mãe... é que eu vou te dizer uma coisa, que... eu não sei como é que vai ser... (trêmulo, chorando)

Ela então percebe que é algo sério e muda seu semblante como eu... Ela está triste, pois percebe que eu estava precisando muito dela como nunca precisei antes... E teme pelo que pode ser...

-Mae, eu tô assim porque terminei um namoro.
-Ah...
-...Com um cara.

Achei que aqueles segundos em silêncio iriam durar para sempre. Mas eu continuei:

-Mãe, a razão pra ele ter terminado foi que descobriram sobre ele e o expulsaram de casa, o humilharam na frente de todo mundo, e ele agora se nega a ser tudo aquilo que o xingaram... Quem qer ser algo que pode ser escorraçado pela própria família? Mãe, eu sou assim, não tenho nenhum grilo quanto à isso, Sei que ser igual à maioria poderia me proporcionar uma vida muito mais fácil e cômoda, mas eu não sou igual aos outros! Eu também nunca expus a senhora e meu pai à situações que pudessem constrangê-los, nem nada desse tipo... Espero que a senhora não mude comigo... Por favor... (em lááááágrimas) Mãe, se você soubesse como a vida para pessoas como é mais difícil... A gente não pode expressar nem um terço do carinho que sentimos pelos outros, senão as pessoas nos apontam, nos expulsam, nos expõem... Quantas vezes nos amputam partes de nosso ser por pura ignorância? Quantas vezes tudo que a gente precisa é de um colo e compreensão, mas sempre acabamos por trancar tudo isso dentro de nós e secando nossas próprias lágrimas, pois temos de estar prontos pro próximo dia que começa, sem poder contar com aquilo que é de direito a todo ser humano? Um pouco de carinho e compreensão, é o que eu sempre quis! Mãe, quantas pessoas se policiam até nos momentos mais alegres, com medo que alguém nos aponte os dedo por estereótipos que todo mundo absorve? A vida é muito mais difícil pra gente, mãe...

Ela chorou, também. Se aproximou e me deu um abraço forte. eu me surpreendi. No mínimo eu esperava que ela fosse mencionar algum "colega do seu pai que procurou tratamento e hoje é casado e tem filhos". Já notaram como sempre tem gente que conhece casos assim?

-Eu te amo. Sempre te amei. E sempre vou te amar. Isso não muda em nada o que você sempre foi. E o que você vai ser. Eu sua mãe e sempre me orgulhei de tudo que você fez... Eu só quero a sua felicidade. E você vai ser feliz. Muito feliz. Eu tô aqui pra estar do seu lado. Pra sempre.

Eu fui eu mesmo. A bolha estourou. A ferida se abriu e tudo escorreu, dando lugar apenas a mim mesmo. Sem cascas, sem segunda pele, sem enxerto, sem hematomas, sem nada. Eu. No outro dia, meu pai, que é uma pessoa fechada, mas não menos maravilhoso, me deu um abraço forte e disse que podia contar com ele pra tudo. E eles me abraçaram. O filho que eles viram nascer voltara depois de tantos anos ausentes, coberto pelos medos adquiridos por osmose no mundo. Sim, por que apesar de eu estar sempre presente, me sentia longe, por não pode contar pra eles, me negando uma relação plena de pais e filhos, como deve ser.

Eu ganhei meus pais de novo. Os pais que protegem. Que vibram quando você se sai bem em alguma tarefa. Os pais que se orgulham. Que te dão a mão e só querem de você a sua felicidade e o seu sorriso. Isso é o bastante para eles.

Na minha convalescência, eu achava que aquela música estava errada, pois eu nunca tinha sofrido tanto como no ano passado. Será? Hoje vejo que não. Tudo que a música previu, aconteceu. O ano de 2004 foi incrível. O ano de 2004 foi O ANO. Os planetas se alinharam pra mim.

Antes eu me perguntava que diabos enviaram Denys na minha vida. Hoje, recuperado, mais vivo e feliz do que nunca, vejo que Deus escreveu certo por linhas tortas novamente. Foi preciso olhar Denys para ver o que eu não queria ser.

Ele deu o empurrão que faltava para que eu conseguisse a minha liberdade. Sabe lá quando eu iria poder ser eu mesmo? Quando eu conseguisse a minha independência? Isto ainda hoje não parece tão perto... Quando eu poderia agir sem peso na consciência, sem omitir ou mentir? Sem viver de mentira?

Hoje, 11 de Setembro, faz exatamente um ano que um ciclo se fechou e outro começou. Desde então, tenho convivido mais com meus pais e posso dizer que agora sou completamente filho deles. Viajo e aproveito todo o tempo que ainda tenho com eles e guardo cada segundo vivido e gesto observado no coração. Eles são e serão os melhores amigos que eu tenho. Também reaprendi mais sobre mim e hoje sou uma ótima companhia para mim mesmo. Gosto mais de mim e do mundo. Minha vida tá completa. Tenho amigos, tenho família, e o mais importante: Tenho a mim mesmo. Sei quem sou, tenho orgulho do que sou e minha casa está aberta para estar sempre cheia, mas protegida contra a poeira que gosta de se acumular nos cantos para nos fazer espirrar e turvar a visão.

Por tudo isto, agora sei a razão de tê-lo encontrado. E sou muito grato a ele por esse empurrãozinho que faltava para me sentir completo, leve, amplo, arejado e com vista pro mar.

Se eu o encontrasse hoje, não encontraria mais aquela raiva, mágoa e rancor. Eles foram varridos pelo tempo, enquanto eu espanava as estantes. Eu o olharia, apertaria as mãos e diria:

Muito obrigado, Denys.

Parabéns por um ano de aniversário fora do armário para miiiiiiiiim!!"

E é isso. A minha saída do armário levou um empurrãozinho que faltava pra ela acontecer, graças à uma perda, que se transformou na minha redenção. Se eu pudesse dar um conselho, eu diria pra todo mundo confiar mais na sua família e se colocar em primeiro lugar. A gente tá aqui pra viver, não pra existir, apenas. Temos todo o direito de sermos nós mesmos, plenamente. Negar isso é negar a própria vida. Nós temos muito valor e temos uma vida maravilhosa nos esperando lá fora. Pode parecer difícil, mas basta o primeiro passo pro resto acontecer naturalmente.

Claro, haverão casos e casos. Eu sei que tive muita sorte em ter pais assim. Mas alôôôÔu? Eu também pensava que ia encontrar seres monstruosos de marte que iriam me expulsar de casa, exatamente como você pode estar achando de sua família. Quer uma dica? Humanos não vêm com manual de instrução. Eles ainda podem te surpreender. Dê um desconto a eles e à você. E se por acaso houver alguma bronca, ainda assim, a sua atitude terá valido à pena. Você vai ver.

É a SUA vida. Os outros têm as vidas deles, e acredite, apesar de possíveis reprovações e outras coisas chatas, eles têm mais o que fazer do que viver a vida dos outros. Enquanto você poderá ficar triste e perder tempo remoendo tudo o que ouviu, achando que o mundo é cruel e vil (rimou!), eles não estarão nem aí, ocupados com suas próprias rotinas. Portanto, seja mais você e tome as rédeas da sua vida. Carregue suas baterias com quem você ama e te ama também. Podem ser seus amigos, alguém mais próximo da família... Viva e ame a sua vida. Nossas vidas são maravilhosas demais pra gente perder tempo assim.

P.S.: O bom disso tudo é que não preciso mais usar iniciais nem receber cartões com nomes incompletos. :) E vc tmb não!

Bem, aqui está meu depoimento. Fico feliz em poder apoiar quem também tá a fim de sair do armário e ter uma vida mais plena e feliz...

Me despeço aqui e aguardo contato de quem gostar de minha história.

Um grande abraço,

Juliano Mendes
http://cajumanga.blogspot.com

 
 

Apoio/Patrocínio do Armário X:

Ótimo livro que fala sobre o Homossexualismo & Homossexualidade .




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