Sou formada em medicina esportiva, homossexual assumida desde muito cedo, aos 17 anos, vivia em uma cidade pequena no interior, na época me vi apaixonada por uma mulher três anos e meio mais velha que eu. Por mais que eu quisesse, não haveria como esconder, pois minha família viu o sorriso ate então constante em meu rosto deixar lugar a uma eterna tensão.
Após algumas semanas chamei minha família e declarei minha posição. Meu irmão mais velho achou um absurdo e queria me bater, porem minha mãe, fazendo uso de sua já conhecida autoridade, disse: “Em filha minha ninguém ousa tocar, a opção é dela, não sua, fique quieto.” E, virando-se para mim, disse: “Você é minha filha e desde que esteja feliz nada mais me importa. Conte comigo.” Meu pai adotou a mesma postura.
Logo fui morar no Rio de Janeiro, onde estudei e me formei, ainda com o apoio de minha família. Tive dois relacionamentos, duas mulheres, uma que fez de minha vida um inferno, a outra, não; porém não havia amor e, desiludida, achei que não haveria mesmo modo de ser feliz. Num acaso do destino, fui conhecer uma paquera de uma grande amiga (quase irmã), cuja família ajudou a me criar. Essa amiga estava no sul, doente. Fui então conhecer a paquera, Luci, uma atleta de 33 anos, vocês não imaginam, foi amor à primeira vista, gaguejávamos, transpirávamos, tudo de uma vez.
Ela também era ‘entendida’ há muito tempo, porém não saíra do armário. Parecia que nos conhecíamos há muitas vidas, passamos a nos ver todos os dias. Era como uma transição corpo/espiritual, eu era uma nova pessoa e ela, uma nova mulher.
Na mesma semana, nossa amada amiga e irmã faleceu. Apoiamos uma à outra e acabamos por ficar juntas. Nos sentíamos moralmente afetadas, mas uma carta dela nos abençoou, dizendo na carta que tudo que queria era que nos cuidássemos e que esperava que fôssemos felizes...E seríamos...
Essa atitude não foi bem aceita pelas amigas dela, pois eram daquelas que achavam ótimo a postura lésbica de armário, me hostilizaram, mas ela foi clara: se não me aceitavam, também não a aceitavam, logo, não fariam parte de nosso contexto. Lutamos contra essa postura fascista, minha amada saiu do armário, linda e decidida e sentindo-se verdadeiramente em paz consigo mesma. Os amigos? Ficaram somente os verdadeiros. Ela, que antes dizia não ter mãos para colocar todos amigos e amigas, hoje fica feliz em tê-los em no máximo suas duas mãos.
Estamos comemorando mais um aniversário de casamento. Já com bebê a caminho, fruto de uma inseminação artificial, teremos três bêbes de uma só vez. Felicidade pouca é bobagem. Esses bêbes virão para completar uma família. Somos a prova de que isso pode dar certo.
Josy Oliveira, 33 anos, Florianópolis/SC
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