Eu não saí do armário por opção, fui forçado. Meus irmãos descobriram que eu era gay quando eu tinha quatorze anos, resolveram se juntar com as namoradas e ter um enorme papo comigo. Ficou decidido neste papo (do qual a minha participação foi nula, já que eles não permitiam que eu me expressasse) que iriam dar um jeito na situação e que eles iriam me "curar". Meu cunhado era o mais veemente neste aspecto. Quatro anos se passaram, meu cunhado, vendo que meus irmãos e irmã não tomavam nenhuma atitude séria em relação a minha suposta cura, resolveu contar tudo ao meu pai.
Meu pai tinha uma frase que ele costumava repetir a toda hora: "Não admito que filho meu seja: Viado, ladrão e maconheiro!” Um belo dia, chego em casa do colégio e meu pai está de bermudas e gravata almoçando, me manda trocar de roupa, me enfia no carro e começa a chorar feito criança. Daí veio aquela famosa frase "Onde foi que eu errei?". Respondi que ele não havia errado em momento algum, pois afinal ele tinha mais três filhos e que todos eram héteros, só eu que era homo. Conversamos muito neste dia comigo dirigindo, pois ele não estava em condições, e depois de eu ter garantido a ele que eu não queria ser mulher e nem travesti, voltamos para casa conversando sobre vários outros assuntos, inclusive homossexualidade.
Fiz tratamento psicológico por solicitação dele, mas a minha vida em casa mudou drasticamente. Ele passou a me levar para todos os lugares: faculdade, cursos de idioma e para o meu trabalho. Naquele ano eu só andava de motorista e segurança mulher para que nada saísse do "normal".
O tempo passou e voltei a ter minha liberdade de volta. Um belo dia meu pai liga para o meu trabalho e pede que eu não vá a faculdade, pois lá em casa iria ter um jantar e que ele queria a família toda reunida. Disse que eu não poderia chegar cedo, pois eu tinha prova, mas que assim que eu acabasse a prova iria para casa.
Ao chegar em casa, encontro a família toda reunida, inclusive duas cunhadas e meu cunhado. Nesse jantar meu pai disse uma coisa que me acompanhará pelo resto de minha vida: “Carlos é nosso filho, irmão e cunhado de vocês. A partir do momento que eu e minha esposa, mãe dele, aceitamos e apoiamos a ‘opção sexual’ dele, vocês são obrigados a aceitar também. A partir de hoje não mais vou tolerar qualquer tipo de brincadeira sobre a homossexualidade dele e, da mesma forma que ele respeita a todos vocês, vocês são obrigados a respeitá-lo".A partir desse dia a frase predileta de meu pai passou a ser: "Não admito que filho meu seja: Ladrão e maconheiro!”
Meu pai faleceu há mais de dez anos. Nunca mais tive problemas com minha homossexualidade dentro de minha casa. Meus irmãos e cunhadas aceitam. Minha mãe tem orgulho de mim. Meu melhor amigo, que já se tornou um irmão, é hétero e não admite que ninguém fale um "ai" de minha pessoa. Sou assumido perante a sociedade e não escondo minha "opção" a ninguém, mas nem por isso ando com um outdoor na cabeça dizendo que sou gay; se me perguntam eu respondo na lata.
Meu pai foi meu melhor amigo e até hoje trago ensinamentos de vida passados por ele. Sinto sua falta diariamente e tenho certeza que, onde ele estiver, ele sente o máximo orgulho desse filho gay.
Carlos Fernandes, 34 anos, Rio de Janeiro
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