sexualidade e crítica social são elementos definidores de praticamente todos os trabalhos comandados pelo diretor José Celso Martinez Corrêa, do grupo Oficina Uzyna Uzona, em São Paulo. Seja nos áureos anos de chumbo da ditadura militar ou em pleno século XXI, seus espetáculos não poupam o espectador de surpresas e cenas de impacto. Não há pudores, e o espaço de crítica é permanente e sempre aberto a incorporar novas discussões e ‘agressões’ – como muitos gostam de classificar.
Para José Celso, a sexualidade é sagrada, mas não no sentido imposto pela igreja: não é única, mas sim polimorfa e livre. E a suposta agressividade de seu teatro só é vista por aqueles que estão marcados por essa visão cristã de um homem único e não-livre. O trabalho do Oficina, no entanto, tenta resgatar, como nas recentes montagens de “Os Sertões”, o poder e a liberdade da pessoa humana.
Neste entrevista, Zé Celso, aos 66 anos, fundador do teatro-estádio Oficina, fala de sua visão da sexualidade como uma dádiva da natureza, da falta de sentido em julgar o amor segundo princípios religiosos e de sua eterna luta para vencer a falta de apoio financeiro e de continuar construindo espetáculos que representam verdadeiros monumentos do teatro nacional. Sem pudores e cheio de energia, um Zé Celso que personifica a capacidade de ser sempre jovem, apaixonado e libertário.
A íntegra desta entrevista foi também publicada no Caderno I (http://ultimosegundo.ig.com.br/paginas/cadernoi/materias/167001-167500/167294/167294_1.html), do portal iG, em novembro de 2003.
Em uma entrevista para a revista Civilização Brasileira em 1980, você afirma que a luta política é uma coisa que faz parte da vida inteira, e que tem política ligando tudo, inclusive a cultura e a sexualidade. A sexualidade, sob esse ponto de vista, é também uma forma de manifestação política?
A sexualidade é divina. E eu sou muito religioso, mas minha religiosidade não é a de acreditar num Deus transcendente, que está fora de nós, e sim que Deus está dentro de nós, e tudo em nosso corpo é sagrado. E o indivíduo que não é capaz de assumir o seu prazer e o seu gozo realmente é um indivíduo que não possui a si mesmo, é um rebanho, daquele que vai na conversa da igreja ou dessa conversa toda de maldição sexual. A “des-repressão” sexual é considerar a sexualidade uma dádiva da natureza. No momento em que você abdica ou reprime a sua sexualidade, você está negando sua própria origem. Você vem de um ato de amor, todos vêm. Então a divindade começa por aí. A própria experiência sexual é uma experiência religiosa, de vida, com intensidade, sem medo, sem culpa, libertadora, porque o indivíduo que é dono do seu próprio gozo é dono do seu poder. E a origem da política está na liberdade do amor, da sexualidade, do poder. Se os políticos brasileiros se inspirassem no poder que a cultura brasileira tem, o Brasil sairia dessa crise e seria o país que daria ao mundo todo uma outra possibilidade, porque o mundo é dominado por estruturas totalmente baseadas num maniqueísmo obscuro e simplista de bem e mal, que parte da vergonha e da negação da sexualidade. Eu acho que a igreja devia pedir perdão pelo que ela fez a partir da sacralização da sexualidade.
Dá para comparar a sexualidade no Marquês de Sade com o modo como ela é retratada no Oficina?
É diferente, porque Sade, na época dele, rompeu com os limites de uma sexualidade “papai e mamãe” e mostrou que a sexualidade é uma coisa polimorfa, que há sexualidade em tudo, na perversão no masoquismo, no sadismo, ele mostrou que a liberdade humana está além do bem e do mal, não tem limites. Cada pessoa, cada geração, reinventa a sexualidade, é uma questão de performance, seu instinto sente e você realiza a performance da suas fantasias. Ele viveu numa época muito sanguinária, das guilhotinas, então era uma coisa muito ligada ao terror.
Sade dizia que se utilizava da libertinagem para expor a hipocrisia humana e romper com ela, a exemplo do exposto em “A filosofia na alcova”, que foi inclusive montada pela companhia Os Satyros. No Oficina ela é abordada de forma semelhante?
Não, aqui ela é abordada no sentido de que a sexualidade é uma coisa que faz parte da vida, uma coisa sagrada da natureza. E as crianças aqui não quiseram ficar nuas (em “Os Sertões”), porque elas sabem do peso que isso significa na escola, com os pais, mas por mim elas ficariam, e de qualquer maneira elas convivem aqui com a nudez em cena. E a nudez é uma coisa que sempre, todos os anos, me perguntam, “porque você quer chocar com a nudez, o que você pretende com a nudez?” O Miguel Ângelo mostrou coisas belíssimas do nu na arte, eu acho o corpo humano a coisa mais linda do mundo, acho a nudez maravilhosa, a nudez é inclusive o primeiro figurino do teatro. A gente vem de uma cultura, a indígena, eu quando criança achava linda, deslumbrante a nudez dos índios brasileiros, eu não vejo porque esse terror com o nudismo. A hipocrisia é um dado ligado muito à dominação social dessa totalidade da visão capitalista e cristã do bem e do mal puritano. Este teatro (Oficina) não é puritano, ele é libertário.
Você aponta como bases do trabalho do Oficina o conhecimento sensitivo, a libertação da sensualidade, a vinculação da arte com o princípio do prazer e a realização do instinto orgânico e da libido. O que representa, afinal, a libertação da sensualidade e esse instinto orgânico, tão presente em “O Homem”?
Eu acho que a energia humana é mais forte, a energia que faz nascer, que te dá a vida, ela não se localiza só exclusivamente no pênis, no ânus e na vagina, apesar de ser muito importante, ela se localiza no corpo todo, ela transcende o corpo. O mundo todo, se você está com suas antenas sensuais ligadas, com sua sexualidade plugada, você vai perceber que ele é erótico, a respiração é erótica. Eros é o maior deus, aliás até antes de Dionísio, para mim está Eros, e o Eros livre, porque eu acho que o amor é livre, como diz Antônio Conselheiro, o amor é livre, e portanto não há julgamento que possa existir em torno do amor. Portanto não tem sentido o juízo de Deus, a gente vive numa era em que muita pessoas se libertaram dessa consciência da proibição do amor, dessa idéia de que existe alguém julgando nossos atos como pecaminosos, bons ou maus, e mesmo com a idéia do juízo final. Eu acho, ao contrário, que o amor traz a idéia do final do juízo.
Você disse uma vez que o seu teatro é, na verdade, uma conversa de homem para homem, conversa franca, uma troca de idéias...
Não, não é uma troca de idéias, mas sim de energia. É uma troca libidinosa, uma tentativa de transmitir potência, porque eu acho que o grande fato do teatro, de você reunir pessoas, é mostrar que existe uma potência erótica, sexual, que permite você criar não somente filhos biológicos, mas gerar, socialmente, vida, obra de arte e encontros amorosos, amizades, amores, paixões. A paixão é a força-motriz da história. Apesar de vivermos numa época em que é quase insuportável assistir televisão, em que só se fala em dinheiro, é uma coisa nada libidinosa, uma coisa que brocha. O amor libido, paixão, mais do que a economia, é o que move a história.
Num texto recente, você diz que “vai ser preciso um movimento de orgulho da cultura e do teatro, como o movimento negro, feminista, gay, ecológico, dos Sem Teto e dos Sem Terra para não permanecermos nessa insensibilidade fascista”, a respeito da falta de estímulo para a cultura no Brasil. O que você sugeriria para superar os efeitos do que você chama “ditadura econômica” em nossa esfera cultural?
A primeira coisa é você tomar consciência dela dentro de você, porque a ditadura econômica é muito forte dentro de nós, inclusive artistas. Você só ouve falar em dinheiro, na televisão, nos jornais. Você encontra as pessoas e uma hora elas não estão com dinheiro para pegar ônibus para ir ao ensaio, ou para comer, ou os que estão com muito dinheiro estão investindo não sei onde. E isso é uma cultura que está obcecando e alienando as pessoas, tirando completamente cada um de si mesmo. Os políticos, na sua maioria, você vê que só tem gente de classe média para cima, não tem representante popular, e essas pessoas todas, peruas ou mauricinhos, são absolutamente colonizados pela cultura da visão única de homem, seja ela no centro ou na esquerda, uma cultura dominante do império americano. Não sou contra os americanos, porque adoro, por exemplo, o Tenessee Williams, muita coisa americana, mas essa cultura imperial, como a romana fez, coloniza também os políticos brasileiros, marqueteiros, as empresas, então há uma cegueira absoluta. Esse novo movimento cultural é quase uma redescoberta do poder humano, tanto individual quanto coletivo. Eu acho que esses movimentos todos são muito importantes, mas acho necessário também um movimento de recuperação do poder da pessoa humana, que está exatamente na cultura, a educação é extremamente importante, mas você pode ser educado dentro dum parâmetro completamente domesticado. A educação pode ser desastrosa se não é acompanhada pela cultura, em que você tem a experiência da dúvida, da liberdade, da crítica, da não-generalidade das coisas, da especificidade das coisas, e sobretudo da fidelidade que você tem ao seu próprio gozo, porque com a dominação econômica e com a exclusão, as pessoas são obrigadas a abdicar daquilo que elas gostam, que elas gozam, para fazer aquilo que elas têm que fazer para ganhar dinheiro.
Por que tanta gente diz que seu teatro é agressivo?
Porque as pessoas consideram agressiva a vida sem a casca da hipocrisia. A vida é agressiva, nascer exige uma agressão. E talvez porque a gente é muito receptivo, a pessoa que é muito encouraçada se sente agredida. O povo de São Paulo é duro, principalmente a burguesia paulista, é tudo careta, está dentro de uma casca e de uma máscara absoluta de hipocrisia, então ela não quer ser tocada, pois se tocar aquilo desmancha e desmorona, o botox, tudo desmorona. Uma pessoa que tem uma visão econômica avançada investiria muito no teatro, porque este teatro, com um mínimo de investimento, que ele não tem nenhum, se tornaria algo muito forte. Nós temos o teatro de estádio aqui, o Oficina tombado, temos condições de fazer uma série de escolas de formação de teatro, que trabalhem o circo, o corpo, as religiões africanas e indígenas, que cultuam o corpo, que trabalha acrobacia, a cabeça, a filosofia, o erotismo, a ioga, a gente pode fazer aqui uma coisa maravilhosa, uma universidade de teatro. Nossa cultura aqui é muito forte, a cultura mercantil é muito fraca, se sustenta à base da publicidade, da grana que rola. E com o trabalho social que a gente realiza hoje a gente vê como isso é acertado, se a Febem trabalhasse como nós trabalhamos, seria outra coisa. Existe muito preconceito com a maneira que a gente trabalha, mas a gente trabalha dentro de um pensamento contemporâneo, complexo, numa realidade complexa, e valorizando muito a vida e o amor livre, porque a arte e a cultura vêm do amor livre e do cuidado que se deve ter com o amor.