Tarde de domingo, dentro de um carro, numa rua da Bela Vista, pouco antes de uma das mais tradicionais matinês dançantes de São Paulo, a da Tunnel. Foi em clima descontraído de pré-balada, mas com um discurso consciente de quem atua há anos na militância, que o presidente do Corsa (Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor), Luiz Ramires, o Lula, conversou com o Armário X.
Espírito tão jovem e bem humorado quanto militante na luta pelos direitos dos homossexuais ou em projetos de prevenção à aids, Lula, 43 anos, foi um dos fundadores da Parada gay de São Paulo. Nesta entrevista, ele falou sobre o parceria do Corsa com a prefeitura da cidade para abordar a homossexualidade com professores das escolas municipais, a visibilidade do movimento GLBT e, claro, sobre sair do armário. Afinal, é mais fácil para os jovens gays e lésbicas de hoje sair do armário do que para os homossexuais de outras gerações?
Confira abaixo os principais trechos da conversa.
Qual vem sendo a receptividade do público-alvo ao projeto Educando para a Diversidade, parceria do Corsa com a prefeitura de São Paulo?
Lula Ramires - Num primeiro momento, os professores, que são o alvo desse projeto, eles ficam meio assustados, acho que muito com base no preconceito, mas, na medida em que você vai mostrando que uma realidade que eles não conhecem, do que é ser gay, do que é ser lésbica, e de como isso está na cara deles, dentro da escola, e eles não percebem, eu acho que eles mudam de postura. Eu acho que está sendo muito positiva a receptividade.
Já dá pra ver algum resultado?
Lula Ramires- Eu acho que não tem nenhum resultado imediato, nenhuma ação que você possa aferir, mas eu acho que é uma mudança de mentalidade, e isso é sempre um processo lento, e eu acho que isso está estabelecendo terreno para coisas futuras. Uma das coisas que a gente gostaria muito de fazer, seguindo o exemplo americano, é o que eles chamam ‘gay straigth aliances’, grêmios de gays e héteros, para ter esse espaço de convivência. A gente do grupo Corsa é radicalmente contra fazer grupos de adolescentes gays dentro da escola, porque isso só iria aumentar a discriminação. A idéia da gente é que para o adolescente é importante estar sempre em contato com os amigos héteros, aqueles que são legais, são simpatizantes, e o objetivo de formar essa associação é esse. Isso ainda não está rolando, é um sonho, que eu acho que as sementes estão sendo plantadas agora.
E você acha que a cultura homossexual, pelo menos nas grandes cidades do país, está saindo do armário, mostrando a cara?
Lula Ramires - O que a gente chama de cultura homossexual, né? È uma coisa muito grande, muito ampla, porque vai desde a cultura das boates, até a literatura, e outras coisas. Então não dá pra dizer que a cultura toda gay saiu do armário, inclusive porque para uma boa parcela dos gays, e melhor ficar dentro do armário, é melhor ficar no gueto. Eu acho que, à medida que essa cultura sai do armário, ela se transforma, e isso acontece com qualquer cultura, com os judeus, com os negros, enfim, qualquer grupo que foi discriminado, quando essa cultura ganha o grande público, ela se transforma. Eu acho que isso vai acontecer com os gays, inevitavelmente, e eu acho que isso é uma coisa boa, eu acho que a gente tem uma contribuição ótima pra dar para a cultura em geral e que a gente tem que aprender a fazer menos o papel de vítima. Tem algumas coisas da cultura gay que me incomodam, porque eu acho que elas são segregadoras, e eu acho que, com o tempo, ela vai mudar.
O que falta então para não haver essa segregação?
Lula Ramires- Eu acho que falta a convivência, e, para haver essa convivência, a comunidade gay tem que ser mais visível. E a visibilidade tem um preço, nem todo mundo está disposto a pagar esse preço, nem todo mundo quer mostrar pra família, para os amigos, pra escola, para o trabalho, que é gay, temendo represálias, mas também porque o fato de você não mostrar significa que você vive uma vida clandestina, que tem lá suas vantagens, e eu acho que o preço vai ser sair do armário, mostrar a cara. E quando você sai do armário e mostra a cara, você passa a ser cobrado por suas atitudes.
Você foi um dos fundadores da Parada gay de São Paulo. Você acha que essa visibilidade da Parada em 2002, por exemplo, com 500 mil pessoas na rua, é uma visibilidade positiva?
Lula Ramires - Com certeza, 500 mil pessoas não dá pra esconder, não dá pra não ver. Eu acho que nós demos o salto da quantidade. A primeira parada, a que eu ajudei a organizar, que foi muito ousada, ninguém acreditava, tinha duas mil pessoas. E aí, cinco anos depois, você tem 500 mil pessoas na rua, não dá pra não perceber essa evolução quantitativa. Do ponto de vista qualitativo, isso está sendo muito cobrado, de qual é a mensagem que a comunidade gay está passando hoje para o resto da sociedade. Para muitas pessoas, permanece uma coisa assim: ser gay é se vestir com roupas ousadas, é cai na noite no fim de semana, balada e tudo mais. Eu acho que está na hora que a comunidade gay mostrar que, além disso, que não são coisas ruins, ela se preocupa com outros assuntos que são importantes, ela se preocupa com seus direitos, com o fim da discriminação na sociedade com um todo, por melhores condições de vida pra todo mundo, pela liberdade de expressão, por democracia e tudo mais. Mas eu acho que isso é um aprendizado que vem com o futuro, ainda falta isso, mas não dá pra jogar fora o que já foi feito.
Falta representatividade política? Inclusive, o tema da próxima parada será sobre uma política homossexual.
Lula Ramires - Eu acho um equívoco falar em política homossexual. Eu acho que a gente tem que falar em política da diversidade, tem que falar em inclusão, tem que pensar em formas de combater o preconceito e a discriminação. Pra mim, é uma expressão vazia falar política homossexual, que eu acho que o que a gente tem que pensar agora é de que maneira a gente se une aos demais setores da sociedade que também são discriminados, as mulheres, os negros, os adolescentes, os idosos, os deficientes físicos, pra lutar por uma sociedade onde todo mundo tenha espaço. A gente vive numa sociedade com pouca tradição de participação política, não tem associações fortes da sociedade civil, então eu acho que isso é um aprendizado. Os grupos ainda são poucos, mas eles estão crescendo. Eu mesmo coordeno um projeto de formação de novos grupos de prevenção voltados para os homossexuais. Esses grupos vão se tornar no futuro grupos de atuação política também. Existe um grupo em Itaquera, outro em Santo Amaro, um em Itaim Paulista e em diversos municípios da Grande São Paulo. Porque a AIDS ainda é uma epidemia, e 25% das pessoas que contraem AIDS são homossexuais. Diminui muito, no começo era a totalidade, mas 25% não é um número baixo.
Você acha que hoje, para o jovem adolescente, é mais fácil sair do armário?
Lula Ramires - Eu acho que sim. Apesar de que sair do armário é um processo complicado, cada um sabe a dor e os problemas que passa para sir do armário, mas a sensação que eu tenho, por conviver com adolescentes, é que eles estão vivendo um momento de verdade, de busca de ser sincero, transparente que faz com que seja inaceitável ficar vivendo um jogo duplo, como foi para boa parte da minha geração. Enfim, tem pessoas que têm 40, 50, 60 anos e que a família não sabe que é homossexual, ou que sabe mas não comenta, eu acho isso muito triste. Eu vejo nesses adolescentes uma espontaneidade muito legal, vejo movimentos de adolescentes que estão se encontrando nos shoppings, abrindo espaços, eu acho que isso é muito legal, muito positivo. Tenho sempre medo de pensar que isso está restrito aos shoppings, e de fica uma coisa só de oba-oba, ligada ao consumo, e não a uma consciência de cidadania. Mas também, pôxa, são adolescentes de 16, 17 anos, que não tiveram nenhuma experiência de politização, então a gente não pode cobrar isso deles. Mas eu acho que, torço para que isso se torne um movimento bastante forte e consciente no futuro.
Para mais informações, o e-mail do Lula é lularamires@webcable.com.br