Bacharel em psicologia e com 29 anos, Fabrício Viana fala sobre seu livro recém lançado "O Armário - Vida e Pensamento do Desejo Proibido" (www.oarmario.com), onde ele desvenda a saída do armário e os mecanismos envolvendo a neurotização do desejo homossexual.
Como foi para você escrever o livro O ARMÁRIO?
Desde quando comecei a cursar psicologia, há mais de 10 anos, sempre li muitos livros sobre a sexualidade humana. Porém, sobre a homossexualidade em si, tudo o que lia se encaixava em um dos extremos: ou o livro era intelectualizado demais (não sendo uma leitura fácil para a maioria das pessoas) ou era muito simples (tinha apenas um nome bacana e pouco conteúdo interessante).
Quando comecei a escrever O ARMÁRIO minha maior preocupação foi tornar a leitura fácil e acessível a todos, porém, mostrando ao leitor informações importantes sobre a criação da neurose, conflito religioso, familiar, vivências pessoais, casos observados e as dinâmicas psíquicas envolvidas em todo o processo. Por isso demorei quase 2 anos para escrever e terminar.
Mas o livro também fala sobre sua história de vida, não?
Sim, e foi proposital. Eu poderia, por exemplo, escrever o livro inteiro sem falar da minha vida, porém, quando eu estava me descobrindo enquanto homossesxual, eu tive contato com histórias de outras pessoas e que, através das vivência delas, comecei a refletir sobre a minha própria vida.
Quando pensei em escrever o livro, lembrei desta "identificação" com a história "do outro". Por exemplo, no site do Armário X, um dos meus projetos na web que ajudam as pessoas a "sairem do armário", uma das seções são depoimentos de jovens sobre como este processo ocorreu. Em muitos casos, isso ajuda mais do que conhecimentos científicos. Então, a primeira parte do meu livro eu falo sobre a minha vida. Mas falo com um foco único e exclusivo: as dificuldades que eu passei para aceitar a minha própria homossexualidade. E sem medo algum de revelar minhas experiências pessoais e conflitos íntimos aos demais.
Como só minha história não ajudaria muito. Precisei colocar no livro muitos conceitos da psicologia, estudos realizados e militância. Precisava dar um suporte teórico para que outras pessoas pudessem entender o porque é tão difícil e complicado aceitar a sua própria homossexualidade.
É verdade que você teve uma preocupação com o nome e a capa do livro?
Sim, muita! (risos)
Até hoje me recordo de um livro que comprei e comecei a ler durante o percurso de ida e volta ao meu trabalho. Chamava-se "Tornar-se gay". Eu não era assumido e morria de medo de alguém desconfiar dos meus desejos homossexuais. Então, para terem idéia, eu colocava várias etiquetas na capa do livro, em cima da palavra "gay", para que quem visse o livro de longe não tivesse idéia do que ele se tratava. Uma forma de esconder meus desejos dos outros.
Quando pensei no meu livro, e o público que ele estaria atingido (grande parte de pessoas não assumidas), falei para mim mesmo, o nome e a capa tem que ser absurdamente discreto. E meio enigmático, pois a homossexualidade também é enigmática. E ai saiu "O Armário - Vida e Pensamento do Desejo Proibido", junto com um desenho de um armário, feito pelo talentoso amigo Alpio Stanchi, representando o conflito homossexual.
Resumindo, quem ver a capa do livro e o título, jamais irá imaginar que ele fala sobre a homossexualidade. Não tem nada explícito. E sim subjetivo. O desenho do armário, por exemplo, representa o local de nossa personalidade em que escondemos os desejos homossexuais dos outros, por isso ele tem diversas correntes e cadeados trancando estes desejos lá dentro. Quer algo mais simbólico que isso? Para quem não é assumido ou totalmente assumido, além de estudantes e heterossexuais curiosos e que apreciam um bom livro, é perfeito.
Você teve problema com editoras, para publicar um livro sobre a homossexualidade?
Não tive porque eu não procurei nenhuma editora. Pelas pesquisas que eu fiz, seria muito complicado e demorado publicar um livro por uma editora. Eles recebem os originais, demoram aproximadamente 2 a 3 anos para lerem e se gostarem, te chamam para fazer um contrato que varia de 6 a 10%. E esta porcentagem eles te dão em livros, para que você venda aos amigos e consiga o valor em dinheiro. Então eu pensei, se no final de todo o processo vou ter que "vender aos amigos", vou partir para a produção independente. Vou aprender tudo sobre editoração, pedir ajuda para a revisão, capa, etc e publicar sozinho.
Sinceramente, eu não tinha idéia do quanto trabalhoso era partir para a produção independente. Escrever um livro, sentar na frente do computador e organizar as idéias já não é fácil (tanto que demorei 2 anos). Agora você partir para a produção independente dele, parece que o trabalho triplica. Depois de pronto você tem que cotar gráficas, fechar contrato com alguma livraria para fazer o lançamento, criar a lista de convidados para a noite de autógrafos, mandar convites, produzir o site e fazer sozinho toda a parte comercial. Eu tenho ajuda do meu maridão nesta ultima parte, mesmo assim, é super trabalhoso. Sem falar que o pagamento da gráfica deve ser realizado em uma única parcela e não é nada barato. É um grande investimento. Outro detalhe importante é o risco do livro não ser vendido ou principalmente, bem aceito.
Mesmo assim eu assumi e assumo todos os riscos. Não sei qual o resultado de tudo isso, apenas um e que já me deixou muito feliz: as pessoas estão gostando, ele está sendo bem falado e comentado. É comum eu encontrar pessoas que nunca vi na rua, em baladas ou mesmo receber e-mails ou scraps no Orkut de alguém que leu, pegou emprestado ou ainda o comprou pelo site, e que adorou. Se o livro não fosse interessante, ele morreria sozinho. Por exemplo, quem fosse ler, não iria gostar e jamais recomendaria a qualquer outra pessoa. E não é o que está acontecendo, quem lê quer que outros leiam também, sinal que ele está agradando.
Outro dia, conversando com o dono de uma boate em São Paulo, ele comentou que a "Silvetty Montilla" (personagem bem conhecido na noite gay brasileira, representado pelo amigo Silvio) tinha comentado com ele que estava lendo e que o livro era muito bom. Eu fiquei surpreso. Não só por isso, mas por outras grandes personalidades que também tiveram acesso e recomendam sempre que possível aos demais.
Mas a primeira edição teve uma falha na editoração, isso prejudicou o livro?
Pois é, eu não gosto de falar muito disso. Mas de fato ocorreu. Por partir para a produção independente, eu tive que aprender a mexer com divesos aplicativos para a produção dele (e baratear os custos, para não ficar extremamente alto). Depois que ele foi lançado, um amigo me ligou perguntando se eu percebi uma falha na editoração. Quando verifiquei e confirmei entrei em pânico. A falha existia. Mas o que eu poderia fazer neste caso? Então tive a idéia de produzir uma errata, afinal, quando um jornal ou revista apresenta um pequeno "deslize", é produzido uma ERRATA para a correção. Uma forma de demonstrar respeito com o leitor.
Isso me confortou um pouco. Uma pequena ERRATA foi produzida e todos que compraram o livro receberam ela por correio. Outros exemplares já estão com ela em anexo. A parte boa da história, e sempre temos que ver pelo lado bom, é que muitas pessoas que tiveram acesso e que leram o livro do início ao fim, sequer notaram esta falha. Ela, em hipótese alguma, compromete a qualidade do livro. Ainda bem!
O livro está sendo vendido apenas pela web, as pessoas compram pela web?
Antigamente uma produção independente era vendida pessoalmente pelo autor ou por meio de um contrato de consignação em livrarias. Hoje podemos ir além, temos um meio de comunicação democrática que se chama Internet. Onde a arte e trabalhos artesanais também podem ser vendidos por ela. O que precisamos nos preocupar é que um produto artesanal colocado a venda em um site deve dar todas as garantias de entrega do produto após o pagamento. Isso é fundamental. Eu por exemplo, antes de comprar qualquer coisa pela web, me preocupo com quem esta vendendo, qual o tipo de contato e quais as garantias terei para a entrega do produto.
No caso do meu livro, ele é vendido pelo endereço www.oarmario.com e somente por ele. Nenhum outro. Todos os pedidos são recebidos pelo Alex (meu maridão) que faz toda a comunicação com os interessados. Ele recebe o pedido, confirma o depósito bancário e coloca o livro no correio. Do outro lado, o interessado, depois do depósito confirmado, recebe um código exclusivo para que ele possa acompanhar sua encomenda através dos correios (pelo site ou por um telefone 0800). Isso também é tecnologia. Então, com o código, dá pra saber quando o livro foi enviado e por onde ele anda, até chegar no destinatário. Não tem erro, o que garante a transação e a entrega.
Mas, como nem todo mundo gosta ou tem acesso fácil a Internet, o livro foi colocado em alguns endereços físicos para aquisição em São Paulo (capital). Um deles é a Livraria Icone, localizada na Rua Augusta, 1415. Quem quiser comprar pessoalmente, é só dar um pulo lá. Em outros estados fica complicado disponibilizar ele. Pois os custos são muito altos e não compensa, infelizmente. Tanto que eu falo, o melhor mesmo, é comprar pelo site. Basta fazer o pedido, o depósito e pronto, em poucos dias ele está em um envelope discreto no endereço solicitado.
No seu perfil do Orkut, você diz que esta escrevendo um segundo livro...
Sim. Desde quando comecei a escrever artigos há uns 5 anos atrás, notei que as pessoas gostavam muito do que eu escrevia. E não era só o assunto, era também a forma, os pensamentos e a maneira com que eu me expressava. Tanto que eu tinha um blog chamado "Diário do Darlan" que era absurdamente visitado. Até hoje sou surpreendido por pessoas que diziam adorar dar uma passadinha por ele.
Com o livro O Armário, a experiência de escrever foi ampliada, pois consegui abordar muitos assuntos nele. Mas não todos que gostaria. Eu tenho muitos outros na cabeça, e tão importantes quanto, mas que merecem uma atenção especial. Então comecei a escrever um segundo livro, o assunto é ainda segredo, mas posso adiantar que gira em torno da "potência orgástica". Será uma espécie de continuação do O ARMÁRIO, com uma ligação teórica de conceitos junguianos e reichianos. Se você nunca ouviu falar deles, não tem problema, a intenção do livro é explicar detalhadamente tudo isso. Algo para lidar com o travamento que muitos tem com o sexo e o prazer orgástico. Não sei ainda como sera ele (o processo de criação e construção tem que ser lento para que no final, seja excelente). Mas ele já está todo na minha cabeça, pronto para sair, exatamente como ocorreu com O ARMÁRIO.
Algo me diz que o segundo livro será tão bem aceito quanto este primeiro. Se isso ocorrer, pretendo lançar outros futuramente. Afinal, eu sempre digo para as pessoas que tem intenção de escrever um livro que o processo é o seguinte: você tem conteúdo e consequentemente, escreve um livro. Nunca o contrário. E conteúdo eu tenho bastante. Sempre fui um estudioso do comportamento humano. Muito disso, graças a minha formação em psicologia.
Para encerrar, quais os pontos fortes do O ARMÁRIO e um recado para os leitores?
Eu, particularmente, gosto do livro inteiro. Porém, não muito da primeira parte onde falo da minha vida. É interessante para muitas pessoas. E tem algumas que só leem ela. Porém, eu prefiro da segunda parte em diante, a leitura muda um pouco na velocidade, é muita informação em poucas páginas. Eu sempre recomendo ler um pouco, descansar, e ler mais um pouco em outro momento. Mas que nenhuma parte deve ser pulada. A parte histórica da homossexualidade que eu abordo, por exemplo, é um pouco do que pode ser estudada profundamente em outros livros, como os do amigo João Silvério Trevisan.
A parte que falo sobre a condenação religiosa também é magnifíca, além de falar sobre ateísmo (algo forte em mim) eu tento mostrar o quanto a homofobia internalizada e o negativismo homossexual inserido na mente de todos os homossexuais é terrivelmente condenativo. Até análise de sonhos eu faço (de dois evangélicos homossexuais), para provar o quanto a religião interfere na vida de um homossexual, até mesmo daqueles que são assumidos e que pensam viver muito bem a sua homossexualidade (eles se culpam, sem ter consciência, de ter tais desejos).
Além disso, outra parte que gosto muito é do capitulo "Potencializando a homofobia" onde eu descrevo sobre um componente chamado machismo, e entro fundo na origem do preconceito social da homossexualidade, no preconceito contra o feminino, contra drag queens, contra transexuais, travestis e também contra o passivo. Quem já leu, me disse que depois da leitura, consegue ver o mundo de outra forma, entendendo as dinâmicas envolvidas na discriminação homossexual. E isso é magnífico. Pois é desta forma, deste olhar mais crítico, entendendo o meio em que vivemos, que podemos ser felizes ao lado de outra pessoa do mesmo sexo. Vivendo plenamente sua homossexualidade.
Recado para os leitores? Bom, eu agradeço o carinho e a receptividade deste meu novo trabalho. É compensador ser abordado por alguém que nunca vi na minha vida, apertando minha mão e me dizendo "Parabéns pelo seu livro, eu li inteiro e está muto bem escrito!". Não tem nada mais gostoso do que você escrever algo, alguém ler, se identificar com o tema, com o texto e te abordar para dizer isso. Eu só tenho que agradecer mesmo. Obrigado de coração. E aguardem que outro, ou outros, virão por ai.
É só ter um pouco de paciência! :-)
Serviço:
Site do livro, trechos para serem lidos, outras entrevistas:
http://www.oarmario.com