Bom, começo me apresentando: meu nome é Valéria, tenho 35 anos e sou escritora. Sou casada há mais de 5 anos com a Renata, que é publicitária. Sou uma lésbica assumida e quero começar esta coluna discutindo esse tema que perturba muita gente.
Considero que ser assumida NÃO é, absolutamente, colocar em outdoor que você é lésbica. Conheço muita gente que publica sua homossexualidade, mas é cheia de preconceito e incapaz de conviver com as diferenças.
Minha situação é bastante confortável, já que a grande maioria das pessoas com quem me relaciono sabe da minha orientação sexual. Isso me permite viver em grande paz e, melhor ainda, plenamente, o meu amor. Essa é, na verdade, a grande diferença. As pessoas com quem tenho conversado a respeito e que não podem, ou não conseguem, "sair do armário" vivem com muito menos liberdade, às vezes passando por situações de muito desgaste, constrangimento e até de grande medo.
Ninguém TEM de assumir. Como diz a música, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Quem vive feliz e bem - mesmo "dentro do armário" - não tem de se preocupar com isso. MAS, quem sofre por ter de se esconder, quem perde a liberdade, quem não suporta a mentira e a vida dupla, certamente vai ganhar muito se conseguir dar esse pequeno enorme passo.
Pouquíssimas foram as pessoas que se descobriram homossexuais sem passar por situações de muita angústia, confusão e sofrimento. Saber, afinal, que a vida é linda assim mesmo é simplesmente delicioso e reconfortante.
Quanto mais gente mostrar a cara, menor vai ser o estranhamento da sociedade. E às vezes simplesmente dizer para uma pessoa - confusa ou pressionada com a própria orientação sexual - que eu sou lésbica e feliz faz muita, mas muita diferença: pode transformar a vida de alguém. Esses pequenos gestos cotidianos são políticos, porque ajudam a promover mudança. Cada um na sua, mas dando os passos que pode dar, é o que faz as brisas pequenas virarem furacão.
Tenho conversado com garotas que ficam muito aliviadas quando sabem que eu e a Renata somos um casal feliz. Isso serve de apoio, as pessoas se sentem bem por saber que é, sim, possível viver essa felicidade. Por isso, acho importante que quem tem essa tranqüilidade passe-a adiante, informe, oriente, ajude.
Essa é exatamente a função desta nova coluna: se você tem dúvidas, receios, medos sobre sua orientação sexual, mande um e-mail pra cá. Na medida do possível, vou responder, orientar, informar, ajudar. Seja bem-vinda!
Valéria M. Busin
valerinhamb@uol.com.br