Com uma plumagem de beleza singular, o galo-da-serra é um pássaro da floresta amazônica que ocorre em regiões do Brasil e da Venezuela. A exibição dos seus atributos é fundamental para o acasalamento que acontece num ritual bem curioso. Em uma pequena clareira da floresta, vários destes pássaros vão se exibindo numa bonita corte de acasalamento, enquanto a fêmea observa numa árvore próxima àquele que vai ser responsável pela próxima geração. Ela escolherá o de plumagem mais exuberante, brilhante e simétrica, pois esses atributos irão garantir à continuação da espécie - são sinais de saúde e de bom reprodutor.
Só que este tesouro da natureza amazônica pratica, também, o sexo entre iguais. Etólogos, que fazem estudos comparados do comportamento dos animais, descobriram que durante este ritual alguns machos descem para a clareira, não para brigarem pela fêmea, mas para copularem entre si, demonstrando um comportamento tipicamente homossexual.
Esse relato e muitos outros sobre a manifestação homossexual entre animais é feita por Bruce Nagemihl, em 750 páginas do importante livro “Biological Exuberance – Animal Homosexuality and Natural Diversity” (St. Martin’s Press, Nova Iork, 1999). Ele analisou 450 espécies de animais e encontrou, em maior ou menor grau, a prática de hábitos homossexuais, entre machos e fêmeas, em animais tão diversos como leões, golfinhos, macacos e até aves e insetos.
Essas descobertas do sexo homossexual entre os chamados irracionais nos revela a complexidade e a diversidade da manifestação da atração sexual presente nos animais e, por extensão, nos humanos. Querer enquadrar a manifestação sexual entre animais e humanos dentro de padrões restritos da heterossexualidade é antinatural e anticientífico. A dimensão do sexo e da sexualidade é algo que ainda foge em muito à compreensão humana.
Dentro do contexto sexo e sexualidade, o fenômeno da homossexualidade foi pouco estudado. Apesar de ser citada em quase todas as passagens da história da humanidade, desde registros antigos como os da Epopéia de Gilgamesh, Rei de Uruc (Babilônia 2000 a.C.) até os dias de hoje, muito há por ser evidenciado.
Estudo
Em novembro de 1994, foi apresentada uma pesquisa importante na Sociedade de Estudo Científico da sexualidade, em Miami, Estados Unidos. O sociólogo Frederick L. Whitam, da Universidade do Arizona, comparou experiências infantis de 375 homens homossexuais na Guatemala, Brasil, Filipinas, Tailândia, Peru e Estados Unidos.
Essa pesquisa originou o trabalho intitulado “Características Culturalmente Invariáveis da homossexualidade Masculina”. Whitam indica seis aspectos da homossexualidade presentes em culturas diversas:
1. A homossexualidade como modalidade de orientação sexual é universal, surgindo em todas as sociedades;
2. A porcentagem de homossexuais em todas as sociedades parece ser a mesma e permanece estável, independentemente do tempo. Em todo mundo, a população homossexual parece compreender não mais que 5% do total da população. Sobre este número apresentado por Whitam, é necessário esclarecer que não existe consenso na comunidade científica e inexiste uma estatística confiável até os dias de hoje. A literatura cita outros números, como 7% e 10%;
3. As normas sociais nem impedem nem facilitam o surgimento da orientação sexual. Os homossexuais estão presentes com a mesma freqüência nas sociedades que os reprimem quanto nas que são permissivas. A repressão apenas reduz o manifestar-se de uma orientação sexual, não sua existência;
4. “Subculturas” homossexuais surgem em todas as sociedades, desde que haja suficientes conjuntos de pessoas;
5. Mesmo em diferentes sociedades, os homossexuais se parecem no que se refere a certos interesses comportamentais e escolhas ocupacionais;
6. Todas as sociedades produzem conjuntos similares de homossexuais assumidos, masculinos e femininos.
Whitam concluiu que a indicação desses seis aspectos estão acima do poder de controle de qualquer sociedade, levando-nos a considerar fortemente a etiologia (origem) biológica como uma das variáveis determinantes da orientação sexual.
Se entendemos a evolução das espécies em nosso planeta como algo dinâmico e em eterna transformação, compreendemos que padrões estéticos e comportamentais são culturalmente moldados, fazendo desabrochar várias formas de se fazer sexo nas sociedades humanas, a partir das três orientações sexuais reconhecidas pela ciência: heterossexual, homossexual e bissexual.
Diversidade
Com sua inteligência e criatividade, os humanos vão forjando novas facetas da manifestação da sua sexualidade. No campo das homossexualidades já foram criadas, e continuarão sendo, inúmeros padrões de expressão com riqueza de nuances e detalhes que inexiste na orientação heterossexual predominante.
É antinatural aprisionar a sexualidade no esquema fechado da heterossexualidade. Para o sexólogo Magnus Hirschfeld, “o estabelecimento de um esquema é, no domínio da sexualidade, uma coisa inaceitável. Todas as generalizações ... são forçosamente errôneas”. No âmbito da sexualidade humana, o esquema não existe.
O sexo, que é o processo físico das relações entre gêneros, apresenta pouca mobilidade na evolução das espécies. Já a sexualidade ou erotismo, que é o processo psicofísico, é totalmente livre e móvel no tempo. Manifesta-se na sua forma predominante, a orientação heterossexual, extrapola o esquema para a homossexualidade e se transforma infinitamente em expressões múltiplas e variáveis. Expressões que apresentam determinados padrões, que se multiplicam em exceções, como no caso da travestidade.
Além do homem homossexual masculinizado, que é a expressão majoritária, encontramos o homossexual efeminado, o bissexual, o travesti, o transexual homossexual e as inúmeras expressões da manifestação das homossexualidades: drag queens, transformistas, caricatas e crossdressers. Fala-se ainda em expressões como os pansexuais e andróginos, duas manifestações da expressão das homossexualidades pouco pesquisadas.
A riqueza do universo homossexual entre humanos é extraordinária. Haverá um tempo em que aqueles capazes de descobrir as leis sociais e naturais que regem o universo homossexual, que são os os cientistas, demonstrarão à humanidade a utilidade das homossexualidades para a própria sobrevivência das espécies. É uma tarefa reservada aos geneteticistas, neurologistas, psicólogos, biólogos, etólogos, antropólogos e sociólogos.
Neste dia, em vez de pedras, paus, câmaras de gás, isolamento social, prisões e mortes, os homossexuais serão reverenciados por todos. E aí a humanidade pedirá o seu perdão histórico por todas as atrocidades cometidas em nome de dogmas religiosos e em razão da sua falta de lucidez, ofuscada pela cegueira do seu egoísmo desenfreado.
João Batista Pedrosa
pedrosa@syntony.com.br
