Daniel (nome trocado) me comunicou: amanhã faço 18 anos, e decidi, vou dizer a papai que sou gay! O que o senhor acha? - me perguntou. Acho que você não deve fazer isto - respondi. Daniel não gostou da minha resposta, mas logo nos entendemos.
Os ventos da democracia estão trazendo uma onda liberatizante junto aos gays que estão na adolescência ou saindo dela. E isto é muito bom. No meu consultório, muitos clientes gays e lésbicas externam essa vontade. Não desejam passar uma vida inteira fingindo que são héteros, nem querem entrar num casamento hétero dissimulado, como fizeram e ainda fazem gerações de homossexuais.
Expliquei para Daniel que sair do armário é um processo que requer amadurecimento e planejamento. Na maioria dos casos, salvo poucas exceções, quando o gay comunica à família sua verdadeira orientação sexual, a reação dos pais é violenta, principalmente do pai. Conheço casos e relatos de: espancamento, morte, expulsão de casa e outros castigos cruéis.
O amadurecimento emocional não está sintonizado necessariamente com a idade da pessoa. Tenho clientes gays, na faixa de 40 anos, que são bem imaturos, como tenho clientes, na faixa de 20 anos, com um elevado nível de amadurecimento. Amadurecimento emocional, neste caso, significa o gay estar harmonizado com sua orientação sexual: auto-estima elevada, sem sentimento de culpa, uma vida sexual homossexual regular, em que consiga se ligar afetivamente a outro gay e construir uma relação. É um estado de equilíbrio emocional, em que o nível de conflito com a orientação sexual é baixo. O processo psicoterápico ajuda nesse processo.
Planejamento significa: estudar, possuir uma profissão, ter um trabalho, não depender financeiramente dos pais, tecer uma rede social de amigos gays e héteros, enfim, ser um cidadão independente.
Daniel tinha uma “cabeça” bem arejada. Mas o pai de Daniel tinha um perfil muito complicado: fechado, conservador, machista e de pouco diálogo. Já a mãe era religiosa, muito apegada a Daniel e que, segundo ele, aceitaria sua condição de gay, mesmo sofrendo muito.
Incentivei Daniel a assumir publicamente sua verdadeira orientação sexual, mas pedi calma e tempo. Daniel, apesar da idade, lidava emocionalmente muito bem com o fato de ser gay, mas faltava-lhe, na época, planejamento e independência. Daniel teve calma, deteve seu impulso libertador e saiu do armário na hora certa.
Minha intuição de psicólogo estava correta. Atualmente, Daniel tem 22 anos, é um jovem administrador de sucesso, vive com seu companheiro num confortável apartamento e é visitado semanalmente pela mãe. Até hoje, o pai se recusa a visitá-lo.
João Batista Pedrosa
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