O termo assédio sexual já é bem conhecido e divulgado pela mídia. Trata-se do comportamento em que uma pessoa aborda a outra sem o consentimento da mesma. Já o conceito de assédio moral é muito pouco conhecido.
A origem da palavra assédio vem do latim – obsidere - que significa pôr-se diante, sitiar ou atacar. A própria definição já indica que o assédio carrega em si a noção de agressividade do algoz em direção a sua vítima. A palavra algoz vem do árabe e significa invasor ou conquistador.
O conceito de assédio moral ficou mais conhecido no Brasil, em agosto de 2000, com a publicação, pela Editora Bertrand, do livro da francesa Marie France Hirigoyen intitulado “Assédio moral: a violência perversa no cotidiano’.
O assédio moral desperta na pessoa agredida sentimento de humilhação, inferioridade, revolta e vergonha. Ele gera um estado emocional de ira, causando tristeza e sofrimento no assediado e prazer ao algoz. Ocorre freqüentemente no ambiente de trabalho e tem como objetivo desqualificar a vítima minando sua auto-estima. Normalmente a vítima é desligada do emprego através de uma demissão. O assédio moral pode ocorrer em outros ambiente sociais, como: clube, família, igreja, associação profissional etc.
Pessoas que são estigmatizadas pela sociedade são as vítimas preferenciais: homossexuais, negros, índios, mulheres, obesos e portadores de deficiência física. A sociedade ideologicamente branca e ditadora de padrões estéticos e morais não tolera à diferença, percebendo estas características como um defeito.
O assédio moral se manifesta através de:
Conduta abusiva e constrangedora, inferiorizarão, menosprezo, ironia, difamação, ridicularização, riso, suspiro, piada jocosa relacionada ao sexo e a orientação sexual, situação vexatória, falar baixinho acerca da vítima, ignorar a presença da vítima, não cumprimentar, sugerir que a pessoa peça demissão, dar tarefas sem sentido, dar tarefas através de terceiros ou colocar na mesa sem avisar, controlar o tempo de idas ao banheiro, expor publicamente algo íntimo da vítima, fofocas generalizadas etc.
As estratégias utilizadas pelo algoz ou agressor são pautadas por:
1. Escolher a vítima e isolar do grupo;
2. Impedir que a vítima se expresse e não explicar o porquê;
3. Ridicularizar e inferiorizar em frente aos colegas de trabalho;
4. Culpar à vítima publicamente;
5. Desestabilizar emocional e profissionalmente. A vítima gradativamente vai perdendo sua autoconfiança e o interesse pelo trabalho;
6. Minar à saúde física e psicológica da vítima, fazendo com que ela somatize doenças potencialmente desencadeantes. A vítima se isola da família e amigos, passando muitas vezes a usar drogas, em particular o álcool.
Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a violência moral no trabalho constitui um fenômeno internacional. Levantamento da própria OIT aponta para distúrbios da saúde mental relacionado com as condições de trabalho em países como Finlândia, Alemanha, Reino Unido, Polônia e Estados Unidos.
São características focais do assédio moral:
1. Exposição do trabalhador as situações humilhantes e constrangedoras;
2. Situações caracterizada por tarefas repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções;
3. São mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinados;
4. Esta relação interpessoal perversa leva a desestabilização emocional da vítima no ambiente de trabalho, forçando-o a desistir do emprego;
5. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados, rompem os laços afetivos com a vítima e reproduzem ações do algoz no ambiente de trabalho;
6. É sacramentado o pacto do silêncio entre os colegas de trabalho, enquanto a vítima vai gradativamente se fragilizando e sua auto-estima fica debilitada;
7. Podem ocorrer atos de sabotagem arquitetados pelo algoz em aliança com outros trabalhadores submetendo à vítima ao sofrimento perverso.
A expressão do assédio moral quanto a orientação sexual:
1. Homem heterossexual e homem homossexual masculinizado (orientação sexual invisível): questionamento da sua virilidade e/ou por em cheque sua competência técnica;
2. Mulher heterossexual e mulher homossexual feminina (orientação sexual invisível): controles excessivos que visam intimidar, proibir que se comunique, controlar o tempo e freqüência de permanência nos banheiros, folgas e horário de almoço;
3. Homem homossexual efeminado (orientação sexual visível): além do já mencionado no item 1, o ataque é centrado na sua falta de masculinidade, associando este fato a possível fraqueza de caráter e mitos do imaginário popular que desqualificam o homem gay: mulherzinha, pessoa fraca, lixo da humanidade e tecnicamente incompetente. Ainda, são vítimas de piadas e fofocas, acompanhadas de risos e muxoxos no ambiente de trabalho;
4. Mulher homossexual masculinizada (orientação sexual visível): além do já mencionado no item 2, o ataque é centrado na sua falta de feminilidade e mitos do imaginário popular que desqualificam à mulher homossexual: machona, sapatão, caminhoneira e pessoa agressiva. São vítimas, também, de piadas e fofocas, acompanhadas de risos e muxoxos no ambiente de trabalho;
O homem homossexual efeminado e a mulher homossexual masculinizada recebem uma pressão maior do algoz e de seus aliados que têm como tática geral enfraquecer a auto-estima destes trabalhadores, colocando-os fora do mercado de trabalho, principalmente se estão em um cargo qualificado e de boa remuneração. Portanto, os danos à saúde física e emocional são proporcionalmente maiores do que os sofridos pelo homem heterossexual ou homem homossexual masculinizado e pela mulher heterossexual ou mulher homossexual feminina.
Muitos gays e lésbicas, já prevendo estas retaliações, utilizam o casamento heterossexual para se protegerem e não perderem o status social. É a chamada tática da camuflagem. Casam-se e constituem família, geram filhos e mantém um vida sexual homossexual paralela ao casamento hétero. homossexuais oriundos da classe média e alta classe média, com muita freqüência, se utilizam deste expediente para conseguirem um bom emprego e receberem à herança da família. Agindo assim, estão protegidos e não serão preteridos pelos pais e pela sociedade.
Esta estratégia é muito usada por artistas, executivos, políticos e pessoas que possuem projeção na mídia. É comum o chamado casamento branco, ou para inglês ver, como diz o povo. São enlaces matrimonias pactuados.
Outra estratégia de sobrevivência social é a utilizada pelo gay efeminado no ambiente de trabalho. Ele parte para a caricatura feminina. É a tática da resignação. O gay caricatural, assexuado, palhaço é mais aceito pela sociedade e estimulado pela mídia. Se torna uma pessoa simpática, querida pelos colegas e prestativa no ambiente de trabalho. São explorados pelas chefias com o trabalho mais pesado, horas extras e trabalho no final de semana. Raramente são promovidos à chefia.
O padrão comportamental básico do gay que assume esta postura, é se dedicar mais ao trabalho, como uma forma de se sobressair junto ao grupo. Resignado, o gay que tem este perfil consegue uma sobrevida. Entretanto, quando o chefe faz a lista de corte ele será um dos primeiros a perder o emprego.
Sintomas decorrentes do assédio moral na saúde geral do trabalhador(a):
Entrevistas realizadas com 870 homens e mulheres, vítimas de opressão no ambiente de trabalho:
Sintomas |
Mulher % |
Homem % |
Crises de choro |
100 |
|
Dores generalizadas |
80 |
80 |
Palpitações, tremores |
80 |
40 |
Sentimento de inutilidade |
72 |
40 |
Insônia ou sonolência excessiva |
69,6 |
63,6 |
Depressão |
60 |
70 |
Diminuição da libido |
60 |
15 |
Sede de vingança |
50 |
100 |
Aumento da pressão arterial |
40 |
51,6 |
Dor de cabeça |
40 |
33,2 |
Distúrbios digestivos |
40 |
15 |
Tonturas |
22,3 |
3,2 |
Idéia de suicídio |
16,2 |
100
|
Falta de apetite |
13,6 |
2,1 |
Falta de ar |
10 |
30 |
Passa a beber |
5 |
63 |
Tentativa de suicídio |
|
18,3 |
Fonte deste quadro: Tese da pesquisadora Dra. Margarida Barreto - Tema da sua dissertação de Mestrado em Psicologia Social, em 22 de maio de 2000 na PUC (SP), sob o título Uma Jornada de Humilhações.
Dicas de como o homossexual vitimado deve proceder para se defender do seu algoz no ambiente de trabalho:
· Se apoiar junto aos amigos, familiares - se possível, pois a maioria das famílias rejeitam seus filhos homossexuais, principalmente se for um gay efeminado - e colegas de trabalho. A solidariedade é importante para recuperar à auto-estima
· Procurar uma entidade, como a Defensoria homossexual, para orientação jurídica de como entrar em contato com o sindicato para relatar o acontecido para diretores, médicos, advogados do sindicato, Ministério Público, Justiça do Trabalho, Comissão de Direitos Humanos e Conselho Regional de Medicina (ver Resolução do Conselho Federal de Medicina - n.1488/98 sobre saúde do trabalhador). Este ponto é importante, ou seja, primeiro procurar uma entidade ligada à defesa dos direitos humanos dos homossexuais para depois, se possível com um advogado, procurar o sindicato. Lamentavelmente, a maioria dos diretores dos sindicato e a justiça brasileira possuem, geralmente, uma postura homofóbica, que é a rejeição do homossexual. Ela é decorrente da falta de informação, religiosidade ou mesmo ódio para com a pessoa homossexual;
· Evitar conversar com o agressor, sem testemunhas. Ir sempre com colega de trabalho ou representante sindical;
· Recorrer ao Centro de Referência em Saúde dos Trabalhadores e contar à humilhação sofrida ao médico, assistente social ou psicólogo para pedir ajuda. Aqui, também, você poderá encontrar a homofobia, pois os profissionais da saúde, geralmente, não são preparados para lidar com a pessoa homossexual.
As humilhações sofridas pela pessoa homossexual, através do assédio moral, deixam feridas emocionais difíceis de serem cicatrizadas. Muitas vezes estas humilhações começam no próprio ambiente familiar por parte de pais, irmãos, parentes e vizinhos.
O estresse emocional crônico gerado pela humilhação comprometerá a saúde física e a estrutura de personalidade do vitimado desencadeando baixo autocontrole emocional, baixa auto-estima e atitudes auto-destrutivas que podem evoluir para a incapacidade produtiva, desemprego, morte, enfarte, problemas psiquiátricos, derrame cerebral, isolamento social, suicídio, uso de drogas, marginalidade, incapacidade de estabelecer ligações afetivas, incompetência nas relações interpessoais, timidez, dificuldade de se comunicar, vingança podendo planejar o assassinato do algoz, promoção de atos de sabotagem na empresa e o aparecimento de uma disfunção sexual associada. Constitui o chamado risco invisível, nas relações cotidianas de trabalho
Se você é homossexual e acabou de ler este artigo, deve ter se identificado com várias passagens dele e recordado momentos dolorosos da sua vida: a humilhação sofrida pelas agressões no ambiente familiar e social.
A mensagem que tenho para você é que não desista. A vida é uma bela aventura que merece ser vivida em toda a sua plenitude. Por que só os heterossexuais ou brancos podem desfrutar da vida e os homossexuais ou negros, por exemplo, não podem?
A homossexualidade existe desde que o homem apareceu na face da terra através da evolução das espécies. Se ela existe há milhares de ano é por que é algo saudável e bom para a natureza. Caso contrário já teria sumido, através da seleção natural, pois a natureza elimina tudo àquilo que não tem uma função e não trará benefício para a vida no Universo.
Num futuro distante, a humanidade e principalmente os grandes perseguidores históricos dos homossexuais – os líderes das religiões fundamentalistas – reconhecerão seu erro histórico e pedirão perdão aos homossexuais. Neste dia você não estará mais aqui. Então, faça já a sua hora!
Você merece viver com dignidade, lute por isto. Levante à cabeça e tenha orgulho de ser homossexual e não vergonha!
João Batista Pedrosa
pedrosa@syntony.com.br
