Por mais decepcionante que tenha sido, o beijo entre as lésbicas da novela inaugurou uma nova era
Foram oito meses de expectativas. Será que vai haver beijo entre a Clara e a Rafaela, o casal lésbico adolescente da novela ‘Mulheres Apaixonadas’? Na verdade, a trajetória das duas personagens foi uma seqüência de vitórias a serem comemoradas.
O começo foi tímido. Nenhum indício explícito de romance entre as duas. Mas elas caíram no gosto do público, que permitiu, por meio de pesquisas encomendadas pela Rede Globo, a troca de “carícias discretas”. É claro que isso nos indignava. No mesmo capítulo eram mostradas cenas fortes de violência, nudez e sexo enquanto as coitadas das lésbicas não podiam dar um beijo.
Mas pelo menos não explodiram elas, como na novela ‘Torre de Babel’. E que fique bem claro que a Rede Globo renunciou ao papel de transformadora da realidade social. Foi a partir do público que ela manteve as personagens na trama e deixou sua história fluir. É claro que devemos um pouco ao bom Manoel Carlos, que soube colocar as duas na simpatia do público, abordando diretamente o preconceito.
E foi em cima da vilã-mirim Paulinha, preconceituosa e odiada, que elas cresceram. Isso porque o autor genialmente equiparou a discriminação da menina ao pai, por ser pobre, com a que ela reservava ao casal, por serem lésbicas. E aí as pessoas entenderam um pouco mais o que é ser vítima desse sentimento desprezível que é o preconceito. E também que não existe um preconceito justificável, todos são iguais.
E no último capítulo todos grudamos os olhos na tela da televisão, aguardando ansiosamente por mais de uma hora e meia. E finalmente ele veio. Toda a cena foi armada. Os alunos encenariam um trecho de ‘Romeu e Julieta’ na cerimônia de formatura, mas quem interpretaria o amante Montéquio quebrou a perna em uma queda. E Clara, que sabia o texto por ter ajudado a Rafaela a ensaiar, entrou em seu lugar.
Romeu morto, deitado. Julieta reclama por seu amante não ter lhe deixado nenhuma gota do veneno que o matou e diz querer sorver um resto da substância diretamente de seus lábios. Ela se inclina. A câmera dá um close bem próximo. É agora, o momento que todos esperávamos. E... só isso?
Sim. Foi um beijo no queixo. Dois, na verdade. O lábio superior da Rafaela tocou o inferior da Clara. Só isso. E, no final, quando todos os casais da trama se beijaram, elas não apareceram.Foi decepcionante. Mas decepcionante para quem? Para mim, para você. Nós estamos acostumados a isso. Nós já sabemos que gays e lésbicas também amam, também beijam na boca. E para quantas pessoas isso é um bicho de sete cabeças? A maioria.
Eu brinquei com um amigo, por email, que foi como tirar a virgindade de um adolescente. Para o que tem experiência, a relação foi um fracasso. Rápido demais, sem graça, com algumas coisas esquisitas. Mas para o adolescente, aquilo foi tudo o que ele esperou por tanto tempo, vai ficar marcado na história dele, ele vai contar para todos os amigos.
Imagine quantas pessoas viram na sexta-feira, pela primeira vez na vida, umbeijo homossexual. Um beijo aplaudido pelas outras personagens, ao final da apresentação. Com a afirmação implícita de que muitos outros aconteceram – quando se diz que a Clara ensaiou a cena muitas vezes com a Rafaela. E um final feliz para o casal.Pode não ter sido o que nós esperávamos, mas aconteceu. Foi o primeiro beijohomossexual em uma telenovela brasileira. Foi mais uma vitória.
Aliás, vitória é vitória. Não existem pequenas e grandes.
Gui Tronolone
guitronolone@yahoo.com.br