'Não devemos esquecer nunca das lições que os crimes de ódio nos deixam'
Em outubro de 1998 eu tinha apenas 16 anos. Eu, que tive minhas primeiras experiências homossexuais aos 12 anos de idade, ainda não sabia o que era beijar um homem na boca. Menos ainda sabia como era amar outro homem.
Aos 16 anos eu nunca havia chamado a mim mesmo de "bissexual" ou "gay". Em outubro de 98 eu completei 4 meses de namoro com uma garota - que eu namorei por outros 2 anos e meio - e havia menos de um mês nós começamos a transar.
Na semana passada eu descobri que naquela data aconteceu uma tragédia que somente cinco anos depois me tocou. Em outubro de 1998, Matthew Shepard foi assassinado.
Matt - como era chamado por pessoas próximas a ele - é descrito como um jovem alegre, sorridente, educado, inteligente e muito carinhoso por amigos e familiares. Na cidade de Laramie, Wyoming, nos Estados Unidos, ninguém nunca viu Matt se meter em confusão, brigas e discussões. Ninguém nunca reclamou de uma atitude sua.
Ainda assim, cinqënta dias antes de completar 22 anos de idade, Matthew foi brutalmente assassinado. Ludibriado por dois rapazes de 22 e 19 anos - chamados Russel e Aaron, respectivamente - levado para fora da cidade, amarrado a uma cerca e repetidamente agredido. Socos, chutes, coronhadas de pistola e palavras.
Não fosse suficiente, Matt ainda teve de agüentar vivo dezoito horas preso e abandonado naquele local até ser encontrado. Inconsciente, com fraturas múltiplas, inclusive no crânio, ele chegou ao hospital em coma e cinco dias depois faleceu.
Por quê tudo isso?
Porque Matt era gay.
Por acaso, deitado na minha cama com o meu namorado, assisti 'The Laramie Project', um ótimo filme em cartaz na HBO Brasil. E assim conheci essa história de horror, que me chocou e me tocou tão profundamente que há dias não sai da minha cabeça.
Matthew Shepard, um garoto bonito de 21 anos, estudante dedicado, alegre. Foi assassinado com ódio por duas pessoas que não o conheciam. Com todas as forças da razão eu procurei uma lógica nisso e não encontrei. Como pode alguém odiar tanto outra pessoa, com tanta intensidade, sem nunca o ter conhecido?
E uma realidade tão brutal nos assusta de tal modo que procuramos aplicar um certo distanciamento para acreditarmos que ela não nos atinge. Mas não é verdade. Na hora eu soube disso porque lembrei do dia 06 de fevereiro de 2000.
A 90 dias de completar 18 anos, eu já era uma pessoa muito diferente daquela que ignorou a tragédia de Laramie. Ainda namorava a mesma menina, mas àquela altura estava prestes a começar a faculdade, já havia beijado a boca de outros homens, dizia que era gay para eles, e começavam a despertar os primeiros sentimentos homoafetivos em mim.
Ainda assim, assumir socialmente aqueles sentimentos era uma realidade muito distante de mim no dia em que treze skinheads espancaram Edson Neris até a morte em plena Praça da República. Ele andava de mãos dadas com outro homem.
Eu não quero tentar entender como esse ódio é criado, de onde vem, como explode em atos bárbaros e animalescos. Eu quero apenas que a sociedade não acate os atos desses bichos.
Me faz bem saber que Russel e Aaron cumprem prisão perpétua e que nunca mais serão capazes de transformar seu ódio em covardia. Mas me mata que, apesar de toda a comoção e mobilização a favor de Matt Shepard em todo os Estados Unidos, nenhuma lei contra a discriminação e crimes de ódio entrou em vigor. Pelo contrário, os norte-americanos têm, hoje, legitimamente eleito, um presidente homofóbico e racista.
Me faz bem saber que 11 skinheads estão na cadeia em São Paulo. Mas me mata saber que 2 deles foram inocentados, que os condenados vão cumprir uma sentença pífia e logo estarão nas ruas de novo, que os presídios brasileiros são escolas de crime que transformarão esses cretinos em pessoas ainda mais perigosas e que a única coisa que nós conquistamos às custas da morte do Edson foi a frágil lei 10.948, aqui em São Paulo, que nos permite beijar, abraçar e andar de mãos dadas em qualquer lugar.
Mas assistindo ao filme que dramatiza depoimentos reais sobre o assassinato em Laramie eu pude ver algumas coisas mais claramente.
Eu comecei a pensar pela primeira vez na minha responsabilidade sobre isso. Qual é a parte que me cabe dessas duas tragédias?
Percebi que é muito fácil ser um gay assumido para os amigos, andar de mãos dadas em Moema, dentro de um shopping, e se orgulhar disso. Mas difícil mesmo é se defender quando um estranho fizer uma piada homofóbica, ou andar de mãos dadas na Praça da República à noite.
É válido se preservar, nós ainda não conseguimos uma abertura tão ampla da mente da sociedade para tanto. Mas é necessário que nós tenhamos isso como objetivo. Ficar conformado com o fato de não poder andar de mãos dadas em uma rua escura é permitir que isso aconteça.
Pessoas como Russel, Aaron e os 13 skinheads fazem esse tipo de coisa porque eles pensam que você deveria ter vergonha de ser gay e esconder isso dos outros. Então eles batem, eles matam, eles humilham para nos assustar. Para que tenhamos medo de não esconder quem somos.
E cada vez que fazemos isso, cada vez que baixamos a cabeça, que ouvimos uma piada homofóbica e ficamos quietos, que presenciamos um comentário ofensivo e não nos indignamos, estamos dando o que eles queriam.
Cada vez que essas coisas acontecem, estamos dizendo "Vocês venceram! Vocês conseguiram me assustar e agora eu tenho medo de ser quem eu sou fora da minha casa ou dos guetos que vocês me permitem ter".
E assim nos resignamos com as migalhas que esses trogloditas nos permitem ter. Em vez de lutarmos pelo que é nosso de direito, nos acovardamos, encolhemos. Até mesmo quando não somos minoria, nos comportamos como tal.
Como podemos impedir que nos pisem quando assumimos nós mesmos a forma de capacho?
Esse é um dilema de toda a minoria. Onde acaba a verdadeira pressão social e começa a auto-discriminação, a resignação, a covardia?
É fácil se esconder atrás do preconceito para justificar o conformismo e manter a cabeça baixa, manter um status quo em que a condição de vítima nos redime de qualquer responsabilidade.
Gui Tronolone
guitronolone@yahoo.com.br