É incrível que nós ainda tenhamos que nos contentar com esmolas.
O mais novo fenômeno da absoluta capacidade brasileira de idolatrar porcarias é a Lacraia, um dançarino de funk drag queen que se autodenomina “invertebrada”. É claro que é da minha opinião pessoal que vêm os adjetivos acima, acho que poucas coisas ridicularizam mais o ser humano do nosso tempo do que esse “pornô-funk” carioca. Mas essa figura, a Lacraia, reacendeu uma velha discussão: a exposição desse tipo de homossexual é um benefício ou malefício para os gays?
Quem acredita nos malefícios argumenta que é uma visão cheia de estereótipos e sempre satírica. É verdade que os gays afeminados são colocados na televisão para serem ridicularizados e não admirados por suas habilidades ou competência. Ninguém chama o Clodovil para um programa de televisão a não ser para rir do seu jeito e de suas declarações polêmicas. O mesmo acontece com muitos outros, como a finada Vera Verão, por exemplo.
Quem defende a Lacraia tem argumentos igualmente válidos. Há os que dizem que, bem ou mal, é visibilidade; outros dizem que é um gay sendo aplaudido por um público historicamente homofóbico e machista, os funkeiros. Também é verdade. É claro que é diferente o fato de o Gugu Liberato colocar no ar a bunda de um gay todos os domingos, no lugar que antes pertencia a Scheilas e afins.
Frente a esses argumentos, fico em um dilema. Não posso dizer que sou totalmente favorável a esse rapaz, porque ele realmente se encaixa no estereótipo que pessoas como João Kléber gostam de colocar no ar, retratando de maneira escatológica todos os gays da sociedade. Também não posso dizer que sou contra, porque a “arte” é dele e não sou eu quem vai dizer se ele deveria ou não estar na televisão. Além disso, é verdade que é visibilidade.
Quando eu analiso mais profundamente vejo o óbvio, que muitas vezes não o mesmo que “fácil”. É claro que o certo seria ter espaço para todos. Se gays, afeminados ou não e polêmicos ou não, tivessem seu devido espaço na sociedade e, conseqüentemente, na mídia – ou será vice-versa? –, nós não precisaríamos nem mesmo pensar nisso tudo. Claro, isso seria o desejável, mas todos sabemos que ainda nos faltam muitos anos para que isso aconteça.
A verdade é que a tal da visibilidade é sempre uma faca de dois gumes para os gays. A começar pelo plano individual, em que o gay enrustido é o protagonista. Como dar visibilidade aos gays que não se encaixam nos estereótipos se a maioria deles não quer se mostrar? No plano coletivo, a segurança é sempre a grande preocupação. Noticiar amplamente os encontros dos shoppings, por exemplo, levaria grandes grupos de homofóbicos para o local. Esses são círculos viciosos que nos atormentam. Como dar visibilidade se não há segurança e como acabar com o preconceito e, logo, com a insegurança sem visibilidade?
Algumas pessoas me acusaram de escrever sobre coisas que não entendo, por causa do último texto, ‘Cotas de Preconceito’ (ali ao lado, em “colunas anteriores”). Talvez, agora, parando para pensar nessa questão, entenda que há muito mais em comum entre as diversas “minorias” do que geralmente se pensa.
E no cerne da questão de todos nós está uma coisa em comum: os brindes da Marabrás. Pronto, o Gui enlouqueceu de vez, você pode pensar. Mas ainda não foi dessa vez. A Marabrás é uma famosa rede de lojas de móveis e artigos domésticos populares – tipo Casas Bahia – que dá brindes aos clientes e divide a compra em 15 prestações para disfarçar o fato de que cobram muito mais do que deviam pelo armário vendido.
Personagens como Lacraia, Vera Verão e Alfredinho (Zorra Total) nos dão visibilidade sim, ao mesmo tempo em que nos encaixam em estereótipos. São saudáveis e inocentes como piadas de português, ao mesmo tempo em que nos ridicularizam.
É a parcela preconceituosa da sociedade nos dizendo novamente que temos de nos contentar com as esmolas que nos dão. Mais uma vez, nós ganhamos “um lindo pano de prato”: a Lacraia. Pocotó, pocotó, pocotó!
Gui Tronolone
guitronolone@yahoo.com.br