Está em cartaz nos principais cinemas brasileiros o novo filme do diretor taiwanês Ang Lee, o mesmo de ‘O Tigre e o Dragão’, e que além de virar febre também abocanhou muitos dos principais prêmios do cinema mundial, e agora marcha como favorito ao Oscar desse ano. Até aí, ninguém se importa, todo ano tem um. O que faz esse filme ser realmente diferente é o tema: dois cowboys se amando nas montanhas do Wyoming. Estado, aliás, onde ocorreu o brutal assassinato de Matt Shepard, que completou oito anos na semana passada e ainda nos deixa horrorizados.
É simbolicamente muito significativo, principalmente para a cultura norte-americana, ver dois “cowboy da Marlboro” beijando-se e rolando na relva. Principalmente quando a história envolve um vai-e-vem entre dois dos estados mais “machões” – e machistas – daquele país: o Wyoming e o Texas. Não bastasse isso, símbolos da masculinidade, como cavalos, armas, camionetas e tratores são o tempo todo operados por esses dois personagens. É, enfim, um bombardeio de simbologias importantes que reforçam a “normalidade” dos dois.
E mais normais ainda são as situações e os dramas vividos pelos dois durante a trama. É aí que mora o verdadeiro segredo de Brokeback Mountain – que não é segredo para ninguém. Acho sábio pedir para aqueles que ainda não assistiram ao filme não leiam o resto desse texto, assim posso discorrer sobre esse assunto com mais liberdade sem ser chamado de “estraga-prazeres”.
O amor entre Ennis Del Mar (vivido por Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) carrega um dos mais complicados elementos do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. O preconceito que Ennis tem contra si mesmo é a chave de todos os dramas vividos por eles, e também o motivo da ausência de um final feliz.
Em dado momento da história, todos aqueles de quem Ennis tenta esconder sua paixão por Jack já estão sabendo. Para o chefe dos dois, suas esposas, e até mesmo os pais de Jack não há mais segredo algum, mas essa notoriedade lhe passa desapercebida. Ele rejeita de todas as formas assumir seu relacionamento, apesar dos apelos do parceiro, e tenta se esconder sob qualquer falso cobertor que aparece. Para ambos as conseqüências dessa postura são trágicas.
Jack, impulsionado pela carência e pela constante rejeição desse parceiro ausente, entrega-se a casos e aventuras – até mesmo com garotos de programa. Correndo riscos em busca desse alento durante mais de vinte anos, acaba por ser brutalmente assassinado em uma de suas escapadas.
Mas muito bem fez a produção do filme ao não dar grande destaque a esse momento particular da história. Porque, por mais incrível que possa parecer, as conseqüências para Ennis são ainda piores. Nele ficaram as cicatrizes profundas do arrependimento, de uma vida perdida dentro do armário. Simbolicamente, é onde ele passa a guardar suas últimas lembranças do amante.
Chegando à velhice, vendo sua filha se casar, morando sozinho em um trailer, Ennis amarga as lembranças de uma vida que não viveu. Pensando como poderia ter sido diferente se tivesse se permitido fazer as coisas que realmente queria ter feito, se tivesse conduzido sua vida por suas paixões, e não por seus medos.
Em um filme que pode muito facilmente ser confundido com uma história de amor, a grande lição está na história de desamor. A falta de amor e até mesmo de respeito de Ennis por si mesmo e por seus próprios sentimentos é algo que vemos se repetindo o tempo todo à nossa volta.
Quantos pais de família estão agora mesmo inventando uma reunião ou qualquer coisa parecida para dar uma de suas escapadas rumo ao seu verdadeiro eu? Mas, ao invés disso, o que encontram são um falso e insuficiente alívio na prostituição, em casas de sexo, pontos de pegação e outros, que deixam neles apenas a marca da falta de amor próprio e, às vezes, coisas muito piores, como doenças sexualmente transmissíveis.
Essa reflexão tem de deixar de ser um segredo, principalmente para os mais jovens. Quando cerca de três adolescentes homossexuais cometem suicídio a cada dia apenas no Brasil, temos uma grave situação de falta de respeito por si mesmo em nossa juventude. É claro que a vida de um gay assumido não é o tempo todo uma paisagem de montanha apinhada pela neve e um lindo lago esverdeado com um belo cowboy ao lado. Mas é uma vida honesta, muito mais digna do que as máscaras e os armários que nos protegem apenas de nós mesmos e nos separa apenas de nossa própria felicidade.
Deixar nossos sentimentos e sonhos escondidos embaixo de um tapete, fingindo contentar-nos com encontros esporádicos, ou enganando-nos dizendo que aquilo é apenas uma fase, ou que ainda não é o momento de assumir, entre outras desculpas esfarrapadas que damos para não assumirmos nem mesmo nossa própria covardia, não passam de artifícios. O que é garantido aos que não dão esse difícil-mas-necessário passo à frente é apenas um trailer solitário e um armário cheio de lembranças do que eles nunca foram.
Gui Tronolone
guitronolone@yahoo.com.br