“O que fazer com o amor que não veio,
ou daquele que não foi vivido
porque se esperava por um maior e melhor?
O que fazer? Não... ninguém sabe responder.
E só a morte de alguém pode nos fazer ao menos refletir.
A morte é necessária para que outros dêem valor a vida,
alguém já dizia, alguém já morria,
ninguém realmente aprendia.”
O sol ardia no céu. A perda ardia em Cecília. A busca pela sombra era inevitável. A busca por abrigo era infindável. Caminhava lentamente na velocidade em que todos automaticamente e dolorosamente marchavam. O caixão à frente, carregado por alguns primos, tios e pelo seu pai que também carregava toda uma vida, toda uma história que terminava ali, simplesmente porque não se vive um grande amor sozinho. Não havia dúvida, era ele quem realmente carregava o maior peso daquela perda.
Cecília estava logo atrás das irmãs, ao lado de Lívia, e era seguida por muitos amigos. Ela tinha os olhos cansados, e aquele dia fisicamente lindo era difícil de se olhar, aquele dia essencialmente triste era difícil de se sentir. Ainda estava anestesiada com aquele acontecimento e incomodavam-na os olhares que pesavam sobre ela. Não se sentia sozinha, mas, paradoxalmente, um pouco abandonada.
Por mais que todos a apoiassem naquele momento, é impossível consolar o coração de quem fica quando a morte leva alguém querido. A vida pode pertencer a nós humanos, mas a morte não nos pertence. Não é humano saber lidar com ela. Ela é a dúvida da eternidade em seu estado máximo. Afinal, somos filhos de um ser maior que nos ama ou somos apenas um acaso da natureza que da mesma maneira que surgiu do nada, também desaparece por nada?
É algo complexo demais, principalmente para os corações mais jovens como o de Cecília. A juventude lhes promete a vida inteira pela frente, mas uma única perda lhes apresenta a fragilidade da vida e que a vida inteira pode ser interrompida, a vida inteira pode não chegar a acontecer. E aí? O que fazer com as palavras não ditas? Com a alegria não sentida? O que fazer com uma vida inteira medida pelo silêncio? Cecília se perguntava enquanto suas mãos suadas molhavam o papel miúdo que estava entre seus dedos. Era o último bilhete que sua mãe escrevera e fora endereçado unicamente a ela, o que de certa forma enciumou as irmãs e até mesmo seu pai, porém este compreendeu. O bilhete era curto, frases rabiscadas e trêmulas, de alguém que sabia que não há muito o que dizer quando tudo o que resta é um adeus. “Céu, seja você em todos os seus detalhes, nunca tenha vergonha de existir, não se esconda, a sombra não vale a pena. Mamãe.”
“Ela sabia, sempre soube”. As lágrimas embaçavam não só a visão de Cecília, mas também seus pensamentos. Nunca conseguiu se aproximar da mãe, tantas vezes a culpou por isso, mas se ela sabia...Será que foi ela quem não quis se aproximar? Tantas noites mal dormidas, na tristeza de se sentir sozinha em um processo dolorido de auto-aceitação, tanto medo de decepcionar a família, de no final ficar sozinha, e agora finalmente percebia que tudo foi a ausência de um sim! A sua diferença a afastou da mãe porque nunca percebeu que uma aproximação era possível. O preconceito da sociedade ficou embutido nela e não na mãe. Sua mãe sempre percebeu seus corações partidos e sempre esperou poder ser um amparo para a filha, mas respeitou seu silêncio.
A vergonha estava em Cecília. Por isso que em seus últimos minutos de vida a mãe sabia que o que tinha que fazer era encorajar a filha a sair das sombras para viver uma vida em toda a sua plenitude, sem culpa. Como? Existindo, orienta a mãe. Cecília olhou ao redor, toda a sua família parecia um único manto negro. Menos Lígia. Esta vestia uma cor clara que chamava a atenção. Cecília contemplou a beleza de Lívia e todo o seu carinho. Silenciosa, a bela garota se fazia presente na vida da namorada em um momento tão difícil. Cecília em um gesto lento apertou a mão de Lívia e deu um passo à frente. O cortejo parou, suas irmãs estavam ao seu lado. O sol ardia. Compreendeu sua mãe, rompeu o silêncio e fez a diferença.
Débora Camargo
