Para o cidadão heterossexual, nem sempre podem ser percebidas as diferenças que marcam a diversidade sexual. Isso normalmente ocorre em função da tradição moral patriarcal, transplantada para o Brasil com a colonização portuguesa no século XVI.
Alicerçada em valores cristãos transmitidos por meio da Bíblia, essa moral reconhece somente a sexualidade e a afetividade de indivíduos heterossexuais. O que estiver além disso é visto como incorreto, transgressor, anormal. Como resultado, a homossexualidade tem sido historicamente reconhecida como um comportamento vergonhoso.
Com o passar dos anos, a expressão da sexualidade ganhou uma certa tolerância, embora constrangimentos sociais bárbaros, como o que resultou na morte do adestrador de cães Edson Neris, em fevereiro de 2000, persistam como um indicativo do alto grau de intolerância às sexualidades divergentes do padrão heterossexual no Brasil contemporâneo.
A partir da década de 1990, em todo o país, ocorreu uma disseminação mais ampla nos meios de comunicação de massa acerca da diversidade sexual, sobretudo em novelas, filmes, campanhas publicitárias, no mercado editorial e na internet, levando o cidadão heterossexual à perplexidade absoluta diante da complexidade dos sexos, dos gêneros e do amor.
Afinal de contas, quantas formas de desejo existem? Devemos aceitá-las? Seriam todas elas normais? Para qual sociedade caminhamos? Essas são questões que eventualmente inquietam homens e mulheres heterossexuais, especialmente os/as mais velhos/as.
Certamente, hoje é quase impossível respondê-las, uma vez que o cotidiano tem revelado a existência de tantas formas de expressão da sexualidade quantas puderem existir. A figura abaixo ajuda a entender que entre o masculino e o feminino há um continuum, no qual tais aspectos podem variar significativamente de um extremo a outro.

A gradação dos gêneros: entre os gêneros masculino e feminino, há um campo variado de possibilidades de expressão da sexualidade humana (clique na imagem para ampliá-la).
É nesse espaço que existe entre um pólo e outro da heterossexualidade que são construídas outras possibilidades de gênero, de desejo e de amor. Note, no entanto, que as travestis aparecem no centro da figura, uma vez que, andróginas, elas se realizam num corpo simultaneamente masculino e feminino.
Mulheres e homens transexuais também participam desse campo de possibilidades dos gêneros, mas sentem a necessidade de corrigir seu sexo anatômico para alcançar o bem-estar psíquico e físico.
Como se vê, tanta diversidade constitui um desafio para o cidadão heterossexual no sentido de tentar entendê-la principalmente com o surgimento de novas categorias relacionadas ao gênero e ao sexo, tais como intersexual, cross-dressers, butches, drag kings, bigendered, bull dykes, etc. , e mesmo que não o consiga, ao menos respeitá-las efetivamente.
Para os indivíduos não-heterossexuais, porém, essa tarefa nem sempre é menos simples. O contato como pesquisador com o cotidiano de gays, lésbicas, travestis, drag queens e transexuais acabou por me trazer à tona o fato de que, entre tais indivíduos classificados genericamente na categoria homossexual , existe uma dificuldade não apenas em tentar entender um ao outro, mas até mesmo em conviver com suas diferenças na vida diária.
Essa constatação tem ajudado a analisar o fenômeno que tenho chamado de endopreconceito, ou seja, a ocorrência de processos discriminatórios entre grupos minoritários que participam igualmente da condição de desviantes e estigmatizados e que, por isso, são excluídos de certas oportunidades na vida social, econômica, cultural e política.
Notadamente os homens que amam os do mesmo sexo e possuem um comportamento orientado para a feminilidade são o alvo mais freqüente de atitudes sócio-desvalorativas, o que se dá principalmente em função de uma sexualidade que não conseguem camuflar ao interagir com a sociedade mais ampla.
Por conta disso, entre os homossexuais masculinos, há um esforço de diferenciação em que o entendido (de atitudes másculas e performance sexual passiva e/ou ativa) tende a evitar a companhia e, conseqüentemente, a associação à bicha e à travesti (ambas de atitudes mais ou menos femininas e performance sexual passiva e/ou ativa), a fim de não receber uma carga maior de estigma e preconceito.
Por outro lado, a bicha e a travesti revidam esse afastamento ao acusarem o entendido de enrustido, rotulando-o de maricona por viver na clandestinidade de seu próprio desejo, com o medo constante da descoberta de sua identidade sexual não-heterossexual.
Conflitos desse tipo são emblemáticos no que diz respeito a uma fragmentação do universo homo no Brasil, sendo um dado possivelmente comum nas várias regiões do país e mesmo em outras nações.

A mídia veicula amplamente o modelo do gay másculo como o tipo ideal de homossexual a ser socialmente aceitável
Certamente, o leitor pode dizer que não há nada de novo sobre essa realidade, aliás, já observada por Edward MacRae em seu livro A construção da igualdade: identidade sexual e política no Brasil da abertura (1990). Entretanto, esse tipo de fenômeno tem produzido, entre outras coisas, a instituição de um padrão homossexual privilegiadamente masculino, como em um esforço de invisibilizar os que possuem atitudes e comportamentos explicitamente femininos ou andróginos, relegando a estes uma condição de inferioridade no sistema social.
Esse modelo de homossexual com caracteres acentuadamente másculos é visto comumente em telenovelas, filmes e revistas, denotando um tipo ideal de gay a ser aceito pela sociedade maior. O mesmo ocorre com as lésbicas, das quais se espera que sejam de um tipo exclusivamente feminino.
No entanto, não se pode esquecer que são os gays efeminados, as travestis e as lésbicas masculinizadas que colocam em evidência o fato de que existem outras possibilidades de amor e de prazer. Sem eles/as, provavelmente a homossexualidade (ainda) seria uma realidade velada nos espaços fechados, como se fosse algo criminoso ou doentio.
A exposição da sexualidade desses sujeitos, que diverge da dos heterossexuais, chama a atenção da sociedade para a necessidade da garantia de direitos civis e sociais sem prejuízo à orientação sexual dos/as cidadãos/ãs.

Sabrina (25 anos, belenense), uma mulher quase perfeita. Como ela, muitas travestis enfrentam toda sorte de preconceitos por seu gênero "nem masculino nem feminino"
Certamente, falta uma análise mais profunda e sistemática desse fenômeno, a fim de que se compreenda como essa forma de antagonismo entre segmentos igualmente discriminados pela sociedade heterossexual se reflete na vida cotidiana, sobretudo no campo político, onde os debates em torno de políticas públicas para os segmentos homossexuais ainda têm se dado de forma pouco arrojada e consistente.
Uma primeira hipótese nessa perspectiva é a de que não apenas os segmentos heterossexuais têm evocado esses modelos de comportamento masculinos para os gays e femininos para as lésbicas, mas os próprios homossexuais têm exigido de si uma forma mais discreta de agir no mundo, por acreditarem que comportamentos efeminados para eles ou masculinizados para elas são desabonadores e vergonhosos.
Particularmente, acredito que a imposição desses modelos de comportamento para aumentar uma possível aceitabilidade dos homossexuais significa um golpe contra a diversidade humana em sua forma de expressão de sexo e de gênero, além de estar impregnada de elementos ideológicos machistas capazes de alimentar antagonismos, divergências de interesses e ações políticas desarticuladas.
Mais do que o respeito dos segmentos heterossexuais, é preciso que haja respeito e ação conjunta entre gays, lésbicas e travestis no sentido de conquistar direitos cidadãos independentemente de sua performance social masculina, feminina ou ambígua.
Felizmente, uma aliança ainda que momentânea entre essas diferenças tem sido notada nas Paradas do Orgulho gay, que acontecem em várias capitais brasileiras, como a que se realizou no dia 13 de junho, em São Paulo, agregando um número de manifestantes superior à Parada norte-americana de San Francisco.
Nessa direção, parece fundamental desconstruir a aparente homogeneidade que existe entre gays, lésbicas, travestis e tantas outras categorias de sujeitos que amam os do seu próprio sexo biológico, pois não se pode falar em homossexualidade, mas em homossexualidades, haja vista as várias maneiras pelas quais ela se expressa.
Um caminho para isso é o desvendamento do preconceito e das subculturas (vistas aqui não como algo inferior, mas como um desdobramento da cultura maior) subjacentes nesse universo no qual os sujeitos possuem atitudes, aspirações, linguagem corporal e modos de ser e de viver distintos uns dos outros.
Contudo, como se não bastasse o desafio em si de produzir conhecimentos sobre uma realidade tão complexa e permeada por sujeitos mais heterogêneos do que se possa imaginar, do ponto de vista da pesquisa, há de se enfrentar ainda as barreiras e resistências acadêmicas a empreendimentos dessa ordem.
À revelia do incentivo de importantes associações científicas como a ABA, a ANPOCS e a SBPC, em algumas universidades tem sido observado o pouco valor atribuído aos estudos sobre a homossexualidade. Ademais, pesquisadores gays também têm sido discriminados em função de seus estudos, como aconteceu recentemente com J.M.C., em sua monografia sobre os homossexuais e suas famílias na cidade de Santarém (PA)**, e com o autor deste artigo, em sua pesquisa sobre travestis e cidadania na capital, Belém.
Por um lado, pesquisadores heterossexuais pouco se interessam por estudar a homossexualidade, e, quando o fazem, parecem temer que sua orientação sexual seja colocada em questão. Por outro, ironicamente, quando esses estudos são levados a cabo por homossexuais, a academia os acusa de uma produção militante, portanto, esvaziada de qualquer conteúdo científico.
Em que pesem os preconceitos acadêmicos, felizmente muitos têm sido os estudos produzidos nas últimas décadas sobre a diversidade sexual brasileira e mais precisamente sobre gays, lésbicas, travestis e transexuais e o aspecto mais importante dessa produção é que são os próprios homossexuais que mais têm contribuído para o conhecimento da realidade em que vivem no Brasil.
As experiências pessoais com o enfrentamento de todo tipo de preconceito, a sensibilidade para tratar sobre o afeto e o desejo pelos do mesmo sexo e o dia-a-dia em uma sociedade de valores predominantemente heterossexuais são fatores que inegavelmente ajudam o/a pesquisador/a a investigar uma realidade que lhe é paradoxalmente tão próxima e, ao mesmo tempo, tão distante, de forma que tais estudos acabam por consistir também em uma espécie de autoconhecimento sobre a sua condição de pessoa e o entendimento das diferenças e sutilezas que permeiam esse universo homo.
**J.M.C., bacharel em Ciências Sociais, chegou a enfrentar situações vexatórias com professores da instituição em que estudava durante a elaboração de sua monografia A homossexualidade em Santarém: contexto histórico, cultural e relações entre famílias e indivíduos (2002). Aliás, casos de discriminação sexual nesse município não são raros, como revelou J.M.C por meio das entrevistas realizadas junto às lésbicas, aos gays e às travestis que ali vivem
Indicações para leitura:
ABBOT, Deborah, FARMER, Ellen. Adeus maridos: mulheres que escolheram mulheres. São Paulo: Summus, 1998.
FREITAS, Martha C. Meu sexo real: a origem somática, neurobiológica e inata da transexualidade e suas conseqüências na reconceituação da sexualidade humana. Petrópolis: Vozes, 1998.
FRY, Peter. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
GREEN, James. Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: UNESP, 2000.
MACRAE, Edward. A construção da igualdade: identidade sexual e política no Brasil da abertura. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990. (Coleção Momento).
MOTT, Luiz. A cena gay em Salvador em tempos de AIDS. Salvador: Grupo gay da Bahia, 2000.
SILVA, Hélio R. S. Travesti: a invenção do feminino. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/ISER, 1993.
Rubens Ferreira
rubenspa@yahoo.com
* Mestre em Planejamento do Desenvolvimento (NAEA/UFPA) com área de concentração em Políticas Públicas, vice-líder do Grupo de Pesquisa em Representação e Transferência da Informação, com a linha de pesquisa "Informação Iconográfica na Amazônia: séculos XVIII e XIX", e bibliotecário da Universidade Federal do Pará (Campus Bragança), com trabalhos publicados nas áreas de Ciência da Informação e Antropologia.