Ele era um garoto muito só,
Sem amigos, sem namorada,
Por mais que buscasse amigos,
Ele nunca conseguia nada.
O tempo foi passando,
E sua tristeza foi aumentando,
E a vida daquele garoto,
Muito pouco ia mudando.
Na escola, seus colegas,
Evitavam chegar perto dele
E viviam fazendo piadas
E de longe olhando pra ele.
Um dia um novo colega
Ali chegou pra estudar
E com aquele garoto triste
Ele foi logo conversar.
Este novo aluno evitava
Ficar junto do pessoal.
Porém o triste garoto
Tornou-se um amigo especial.
As garotas o procuravam
Por ser muito bonito
Mas ele não gostava disso
E achava até esquisito.
Com o tempo surgiram comentários
Que os dois estavam namorando.
Porém, os dois amigos
Continuaram se encontrando.
E a insistência de colegas
Que diziam serem namorados
Acabou mostrando a eles
Que estavam apaixonados.
Então o amor foi crescendo
Mas eles se amavam escondidos
Com medo de serem descobertos
E por isso, repreendidos.
Agora, na vida de Amilton
A tristeza já não existia
Desde o dia em que Orestes,
Parte da sua vida fazia.
Mas eles nem sonhavam
Em casa algo comentar.
Pois mesmo conhecendo as famílias
Não sabiam o que esperar.
No entanto, a mãe de Amilton
Começou a desconfiar
Vendo a vida de seu filho
Dia a dia melhorar.
A alegria nos seus olhos
Dizia que algo mudara
Mostrando ter realizado
Algo que sempre sonhara.
Assim sua mãe começou
Muitas indiretas a lançar
Sobre uma namorada
Tentando o mistério desvendar.
Mas ele nada dizia,
Guardava o amor em segredo,
Pois da reação da família
Amilton tinha muito medo.
Mas um dia a curiosidade
De sua mãe fez ela procurar
Um colega de sua classe.
Então um colega disse
Que ele estava apaixonado
Mas não por uma mulher
Porém, sim, por um namorado.
Sua mãe não acreditava,
Naquilo que havia ouvido,
Pois pra ela homossexualidade,
Era algo totalmente proibido.
Quando ele chegou em casa,
Como sempre, feliz da vida,
Sua mãe chamou-o no quarto
Parecendo estar enfurecida.
Então perguntou se era verdade
Aquilo que ela ficou sabendo
Que junto com outro garoto
Um amor ele estava vivendo.
Amilton confirmou tudo,
Sentindo-se aliviado,
De saber que pôs pra fora
Que estava apaixonado.
Porém sua mãe saiu chorando
Para ao seu pai contar
E Amilton já sentia
Que a coisa ia piorar.
Sua mãe logo voltou,
Pelo pai acompanhada,
E Amilton contou com detalhes,
Tudo, sem esconder nada.
Seu pai pegou o telefone
E ligou para o seu namorado
Querendo tirar satisfação
Sobre o que lhe deixava assombrado.
Porém foi o pai de Orestes
Quem o telefone atendeu,
Querendo saber o assunto,
O pai de Amilton respondeu:
- Quero falar com seu filho
Sobre algo terrível, que ele fez,
Para que ele confirme tudo,
E acabemos com tudo de vez.
Porém o pai de Orestes,
Que ficou muito assustado,
Pediu mais explicações,
Sobre o fato citado.
- O senhor assim me assusta,
Que teria o meu filho feito?
Por favor me dê detalhes,
Pra que possamos falar a respeito.
- Pois fique o senhor sabendo
Que meu filho também é culpado,
Imagine que ele me disse
Que do seu filho é namorado.
- Pra dizer a verdade pro senhor,
Eu até já desconfiava,
Porque com uma menina
Ele nunca namorava.
- Meu filho também nunca teve
Uma namoradinha sequer,
Mas para mim o que importa
É que homem namora mulher.
- Mas estes são nossos filhos,
Pelo menos não são bandidos,
E se nós não os aceitarmos,
Onde eles serão compreendidos?
- Então o senhor apóia
Esta grande imoralidade?
Preferia um filho bandido
A esta homossexualidade.
- O senhor está nervoso,
É melhor se acalmar,
Antes de qualquer coisa,
Pra depois, providências tomar.
- Ora essa, estou nervoso,
Como é que mantenho a calma,
Com um punhal que foi cravado
Bem no fundo da minha alma?
- Pois é, mas são nossos filhos,
E precisam ser ajudados
Neste momento tão difícil,
Precisam mais serem apoiados.
- É melhor terminarmos por aqui,
Pois não consigo compreender,
Já que não nos entendemos,
Eu vou ver o que fazer.
- Até logo, meu senhor,
Mas peço que o senhor reflita,
Pois muitas tristezas se fazem
Quando a gente se precipita.
Após desligar o telefone,
O pai de Orestes o chamou.
E quando ele apareceu,
Bem forte lhe abraçou.
Após aquele longo abraço,
O pai perguntou emocionado
Se era mesmo verdade
Que Orestes tinha um namorado.
Orestes respondeu que sim,
E que era muito feliz,
E que contar para o pai
Era algo que ele sempre quis.
Então seu pai lhe contou
Como ficara sabendo,
E que todo o apoio que precisasse
Ele continuaria recebendo.
Foi então que o seu pai lhe abraçou,
Com lágrimas dos olhos escorrendo,
E as emoções eram as mais fortes
Quando seu pai foi lhe dizendo:
- Você tem certeza do que sente,
Por este grande amigo?
Pode dizer tudo que sente,
Por favor, se abra comigo.
- Amilton é tudo pra mim,
É tudo que sempre sonhei,
O grande amor da minha vida,
Pra sempre o amarei.
- Então peço pra você
Correr até a casa dele
Pra ver se precisa de ajuda,
E se precisar, volte trazendo ele.
Imagino que seu pai
Tenha até o expulsado,
Pois me disse que seu filho
Jamais seria perdoado.
Vá correndo, não demore,
Pois eu entendo vossos sentimentos,
Mas penso que o seu namorado
Passa pelos piores momentos.
Então Orestes saiu correndo,
A casa de Amilton foi a direção,
Numa mistura de alegria,
Com muita preocupação.
Mas antes de chegar a casa,
Orestes avistou,
Um quadro muito triste,
Que seu coração quase parou.
Amilton estava na calçada,
Sobre uma mala sentado,
E tudo que lhe pertencia
Estava ali colocado.
Orestes correu e abraçou-o,
Sentindo o quanto o amava,
Pois aquela grande tristeza
O seu coração machucava.
Após beijar seu amor,
Com o coração apertado,
Sentiu novamente a alegria
Falando ao seu namorado.
- Já estou sabendo de tudo,
Puxa vida, que tristeza,
Mas há alguma coisa de bom,
Tenho pra você uma surpresa.
Meu pai pediu pra buscá-lo,
Ele apóia nosso namoro,
E pediu pra convidá-lo
A ir morar aonde moro.
Disse que somos bem-vindos
Sempre na nossa morada,
E que se nós nos amamos,
Não importará mais nada.
Então, deram um novo abraço,
E novamente se beijaram,
E as lágrimas de emoção,
Dos dois amores, se juntaram.
Seguiram com todas as malas,
Até a casa de Orestes chegarem,
Onde seu pai conversava com todos,
Pra eles se prepararem.
Todos aceitaram bem,
Recebendo Amilton com alegria,
E ele até ficou mais feliz,
Contagiado pela euforia.
Então os dois namorados,
Passaram juntos, a viver,
E sobre este grande amor,
Não precisavam mais nada esconder.
Na escola, diziam pra todos
Que eram mesmo namorados,
E toda felicidade do mundo
Sentiam, apaixonados.
No início, houve gozação,
Mas eles nem mesmo ligavam,
Pois o que importava mesmo
Era o quanto se amavam.
Com o tempo seus colegas
Começaram a mudar o pensamento,
Reconhecendo que aquele amor
Era um nobre sentimento.
Amilton e Orestes sempre
Na mesma classe estudavam,
E com o passar do tempo,
Muito mais felizes ficavam.
No último ano de colégio,
Cada um se preparava
Para o exame vestibular,
O desafio que os esperava.
Mas chegou o dia especial,
Em que aquele alegre casal
Completaria três anos de namoro,
Num clima de paixão total.
Então todos os seus amigos
Prepararam uma festa surpresa,
E os dois se sentiram muito felizes
Neste instante de rara beleza.
Disseram que era um presente
Para dois amigos especiais,
E um pedido de desculpas
Pelas piadinhas iniciais.
Diziam que graças a eles
Conheceram a realidade
Deste amor tão especial,
Formado pela diversidade.
No ano seguinte os dois jovens
Entraram na universidade,
A aprovação no vestibular
Completou a felicidade.
Mudaram-se então de cidade,
Foram morar na capital,
E o amor somente aumentava,
Num clima de paixão total.
Na faculdade, nada escondiam
Sobre a homossexualidade,
E todos os amigos respeitavam
Este amor feito só de verdade.
Com o passar de alguns anos,
No longo do curso de medicina,
Os amigos souberam detalhes
Sobre este amor, que é dádiva divina.
Por saberem toda história
Pela qual passou o casal,
Descobriram que esta união
Era um amor especial.
Então no último ano do curso,
Na tradicional festa dos namorados,
Amilton e Orestes pelos seus amigos
Foram homenageados.
Eles disseram que a homenagem
Foi pelo casal não desistir
Deste amor, diante das dificuldades,
Para o objetivo atingir.
A emoção foi mais forte
Do que em qualquer outro momento,
Tornando mais forte o amor,
Esse tão divino sentimento.
Passados mais alguns meses,
Chegou a esperada formatura,
Quando o casal foi diplomado,
Habilitados para a profissão futura.
Amilton mandou convites
Para toda a sua família,
Tentando reatar a união
Que anteriormente existia.
Porém ninguém compareceu,
Ou sequer uma notícia mandou,
Com isso Amilton, um pouco triste,
De lado o assunto deixou.
Mas, fora esse assunto chato,
Tudo mais foi só alegria,
O sonho de serem médicos
Por fim se realizaria.
Na noite em que recebeu o diploma,
Amilton uma carta recebeu.
Dos pais de Orestes, seu amor,
Da qual ele jamais esqueceu.
Na carta, eles diziam
Que ele era muito amado,
Que eram plenamente felizes
De Orestes tê-lo ao seu lado.
Que desde o dia em que chegara
Pra fazer parte daquele lar,
Sentiram que naquela casa
Havia uma luz a brilhar.
Disseram que a lei brasileira
E a Igreja não reconheciam
A união dos jovens médicos,
Que tudo de bom mereciam,
Embora este detalhe
Era algo de valor menor,
Já que o amor que sentiam
Era muitas vezes maior,
Assim, para aquela família,
Os dois já eram considerados
Um casal muito especial,
E já estavam mais que casados.
No entanto, não consideravam
Amilton como genro, somente,
Mas o que sentiam por ele
Era algo bem diferente.
Vivendo junto do seu namorado,
Um filho verdadeiro e amado,
E assim é que ele era considerado.
As emoções foram as mais fortes
Naquele momento tão especial,
A formatura de Amilton e Orestes,
Que formavam um lindo casal.
Com o tempo, fizeram carreira,
Nos maiores e melhores hospitais,
E sempre foram considerados
Dois médicos muito especiais.
Ambos se especializaram
Na área da cardiologia,
E se dizia que aquele casal
Como ninguém do coração entendia.
Eram mestres do amor verdadeiro,
O mais sublime sentimento,
E os conhecimentos da cardiologia
Aumentavam, a cada momento.
Juntos, montaram uma clínica
Para a saúde do coração,
Coroada de pleno sucesso
Desde sua inauguração.
E logo ficou muito conhecida
Por sua qualidade profissional,
Sendo citada, até mesmo,
Como de referência nacional.
E a vida cruza os caminhos
Que o homem insiste afastar,
Pregando peças que a gente,
Leva tempo pra acreditar.
Um dia, estavam caminhando,
Pelas ruas da grande capital,
Um casal do interior,
Nas proximidades de um hospital,
E quando passava bem em frente
Do grande complexo hospitalar,
Aquele senhor sentiu no peito
Forte dor que o impediu de andar.
A senhora desesperada
Pediu ajuda a quem passava,
E numa mesa de cirurgia
Aquele senhor logo estava.
Rapidamente foi operado,
Devido à grande emergência,
Os doutores Amilton e Orestes
Foram requisitados com urgência.
Graças à perícia profissional
Daqueles grandes doutores,
De mais uma vida humana
Eles foram salvadores.
Logo após a cirurgia,
Em que ocorrera tudo bem,
Vieram aquela senhora
E parentes, que lá chegaram também.
Procuraram pelos doutores,
Queriam informações receber,
E sabendo que tudo estava bem,
Gostariam de agradecer.
Mas a maior das surpresas
Ainda estava por vir,
Quando, quem eram os médicos,
A senhora viesse a descobrir.
Pois a senhora em questão,
Do médico era genitora,
E o agora doutor Amilton
Salvador do próprio pai fora.
As mágoas se foram pra sempre,
Reinando então a plena união,
Livre de qualquer preconceito,
Extinguindo de vez a discriminação.
Muitas vezes é preciso ser herói
Para ser reconhecido cidadão,
E muitas vezes os heróis desistem,
Muito antes da aclamação.
Destinos são interrompidos
Em nome de falsos valores,
Que deixam as nossas vidas
Infestadas de terrores.
Desde o princípio da história
Do nosso Brasil tão amado,
A homossexualidade é algo
Que sempre é encontrado.
Agora, neste novo milênio,
Em que a ciência já comprova
Que a diversidade sexual
É algo que não se reprova,
Ainda é forte a corrente
Que de todos nós se distancia,
Em nome desta lei tão podre
Denominada homofobia.
Esta estória foi escrita
Disposta em forma de cordel,
Baseada em relatos de amigos,
Procurando ser o mais fiel.
Mas tudo aqui é ficção,
Embora lembre muito o real,
Onde as pessoas praticam um ato
Que em nosso país é ilegal.
A discriminação, de qualquer forma,
Vai contra a nossa maior lei,
A nossa Constituição Federal,
Que é desrespeitada, como bem sei.
Os nomes foram escolhidos
Pra que eu pudesse formar
O nome do sentimento
Que no mundo deve imperar.
De Amilton, eu tiro "AM",
De Orestes, eu tiro "OR",
Juntando as quatro letras,
Consigo formar "AMOR".
José da Silva
bambisecreto@ig.com.br