No artigo "O armário bissexual", disponível neste site, refleti sobre a dificuldade do/da bissexual assumir sua sexualidade perante amigos, parentes, enfim, no âmbito público. Alguns dos seguintes fatores foram discutidos: a bifobia, que, como a homofobia, implica em agressões dos mais diversos tipos; o risco de perder vínculos satisfatórios pela incompreensão do/da parceiro/a ou de outras pessoas significativas; e os próprios questionamentos ("será que sou normal?") que abalam a auto-estima e a confiança. Afinal, não faz muito tempo que a homo e a bissexualidade eram vistas como desvios e doenças, e, de vez em quando, ainda se tem notícias de profissionais preconceituosos que tentam uma "terapia de conversão".
É preciso fazer um longo trabalho de conscientização e esclarecimento em todas as camadas da população - inclui-se aqui profissionais das áreas de Saúde e Educação, que, muitas vezes, mantêm seus preconceitos e não investigam, tampouco aceitam, as diversidades sexuais. Espera-se (e para isso se deve atuar) que homossexuais e bissexuais possam, no futuro, se tornar visíveis sem correrem riscos. Da mesma forma, deve- se incentivar aqueles que se sentem discriminados por seus psicoterapeutas ou médicos a recorrerem aos Conselhos Federais de Medicina ou Psicologia, para que os mesmos sejam, no mínimo, advertidos. Várias denúncias podem levar à cassação de registros.
Outro grupo de profissionais que merece maior esclarecimento são os de Comunicação. A mídia e as artes, como importantes formadoras de opinião, têm um papel particularmente importante na construção da imagem bissexual. Ambas perpetuam a confusão conceitual sobre o que é bissexualidade ou o que é homossexualidade. A mídia tem um alcance poderoso e, nos últimos 20 anos, trabalhou bastante a favor dos movimentos GLBTs. No entanto, de vez em quando, ainda se percebe o desconhecimento por parte de seus profissionais (sem que isso implique necessariamente em preconceito), mesmo que, em relação à bissexualidade, possamos entender que haja uma certa confusão, uma vez que existem vários tipos de bissexualidade (algo a ser discutido em um próximo artigo e que, por vezes, deixa intrigados os próprios bissexuais).
Em relação às artes, é fácil observar que geralmente os personagens bissexuais, homens ou mulheres, tendem a ser os antagonistas, as pessoas sem limites, as que fazem de tudo "para se dar bem", os vampiros. Um exemplo recente: na novela "Celebridade", a personagem Laura (Cláudia Abreu), que é sabidamente dissimulada e mau-caráter, relacionou-se, por interesses escusos, com uma mulher, interpretada por Renata Sorrah. Não houve uma cena que registrasse o envolvimento das duas: ficou "no ar". Tudo de forma bem sutil, para não gerar protestos da sociedade - e talvez até nem gerasse, pois de Laura "se espera tudo". De uma forma subliminar, portanto, reforça-se a idéia de que pessoas inescrupulosas podem até "virar" bissexuais "para se darem bem". Pior, para algumas pessoas, a mensagem é a seguinte: bissexuais não têm escrúpulos e, para quem é bissexual, pode ficar uma rejeição à própria identidade.
Alguns autores acreditam que essa associação das imagens negativas aos bissexuais aumenta a crença de que a bissexualidade seja uma patologia. É importante deixar claro que a orientação sexual em si mesma não é patológica. Existem pessoas psiquicamente "perturbadas" entre hétero, homo e bissexuais. De igual forma, há pessoas psiquicamente saudáveis em todas as orientações sexuais. No entanto, roteiristas de novelas e filmes retratam a bissexualidade mais como um traço do mau-caratismo de um personagem - ou como um momento de indefinição, geralmente na direção de uma relação exclusivamente homossexual.
No filme brasileiro "Amores Possíveis", um dos personagens, vivido por Murilo Benício, abandona a esposa e vai viver com um homem. Em determinado momento, ele "balança" entre os dois possíveis amores. O personagem é retratado como exclusivamente homossexual e se desperdiça uma ótima oportunidade para discutir a coexistência dos dois desejos. Nada garante que, em outro momento, ele não "balance" de novo pela ex-mulher - ou por outra - ou mesmo que se interesse por outro homem, mas, para uma platéia de bissexuais que esteja ainda em conflito com sua própria identidade, reforça-se a autopercepção "tenho de me definir; ele já escolheu, eu tenho de escolher".
Em resenhas dos filmes "As Horas", "Estranhos no Paraíso" e "Frida", todos lançados no Brasil em 2003, os personagens que tinham vivências bissexuais foram descritos como homossexuais em muitos jornais, revistas e sites. Fica claro que jornalistas e críticos, ao resenharem peças e filmes em que o personagem é bissexual, fazem confusão. Muitos bissexuais que os lêem acham que eles, os bis, simplesmente não existem ou que não merecem uma "definição", um "nome". Muitos se definirão então como homossexuais, tais como os personagens (ou como "indecisos" e "indefinidos"), para terem direito a um reconhecimento, sem, porém, entender como têm desejos por ambos os sexos.
Logicamente, entre os bissexuais, há aqueles e aquelas com uma forte preferência, seja pela relação homo, seja pela hétero. Todavia, isso não exclui totalmente a experiência com o pólo oposto. Como a maioria da população, no entanto, profissionais de Comunicação, frente a uma "dose" de homossexualidade (que pode ser maior ou menor, mas estará sempre presente na bissexualidade), adotam de imediato o "rótulo" homossexual e os conflitos bissexuais não são, então, aprofundados.
É característica de nossa sociedade (e de nossos parceiros) exigir definições, escolhas que excluam todas as outras possibilidades, mesmo que sacrifiquem a felicidade e a liberdade de cada um. Cabe, no entanto, a cada indivíduo procurar entender a si próprio para fazer suas escolhas de forma consciente e plena. Como vários estudiosos das questões relativas aos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros afirmam, não deveríamos precisar de rótulos. Poderíamos falar somente em sexualidade - sem dizer pan, multi, homo, hétero ou bi. Entretanto, se ainda os empregarmos, por questões políticas (e outras), que tal usarmos de forma correta?
Thays Babo
thaysbabo@analista.psc.br
Aite pessoal: http://www.analista.psc.br
Psicóloga clínica, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e publicitária. Há um ano, entrevista e estuda bissexuais. Está finalizando o livro "Bissexualidade: invisibilidade e existência", que deverá ser lançado em 2004.