1.0 Introdução
O projeto Livre Expressão nasce marcado por um contexto nacional de grande preconceito e violência em relação a todas as minorias. A livre expressão sexual é ainda uma realidade muito distante do cotidiano da maioria dos brasileiros. A opressão atinge, sobretudo os brasileiros do sexo feminino e àqueles de identidade homossexual ou transexual.
O projeto se propõe a discutir o papel responsável do jornalista na conquista real da liberdade sexual, seja ela expressa em qualquer forma: homossexual, bissexual, transexual ou até mesmo heterossexual. Escolhemos, no entanto trabalhar predominantemente com o questionamento da violência, simbólica ou física, direcionada aos que exercem uma sexualidade alternativa. O projeto se propõe, assim, estabelecer um debate sobre o assunto com setores da sociedade predispostos a catalisarem transformações, como por exemplo, os movimentos políticos e sócio-culturais.
Nosso objetivo é conscientizar os profissionais de comunicação, além de atores sociais da necessidade de estabelecer uma política de comunicação para a cidadania, sem a presença de estereótipos, e preconceitos (ou convencionalismos) e que interaja com a população.
O caminho que escolhemos para atingir este objetivo foi o planejamento e realização de dois veículos de comunicação, um boletim impresso e um site eletrônico. Acreditamos que por meio da “ação comunicativa” contribuímos para mudar a sociedade e quebrar (ou desestabilizar) a rede de mecanismos de opressão, “internalizada em todos nós”.
Nossa proposta não é apenas informar e divulgar, mas estabelecer um diálogo crítico e atuante com toda a toda a sociedade, mas também principalmente com jornalistas e comunicadores, tendo em vista sua enorme responsabilidade social. A partir da perspectiva que o modelo de jornalismo no Brasil esgotou, escolhemos o jornalismo social e engajado com posições bem marcadas e definidas, fugindo de uma pretensa e hipócrita isenção. Consideramos também a importância de darmos a oportunidade de palavra aos que não têm voz.
2.2 Delimitação do Problema
2.1 Mundo
As várias formas de sexualidade convivem juntas desde o princípio da humanidade. No início não havia termos ou nomes para os diversos tipos de expressões sexuais praticadas por homens e mulheres. homossexualidade, bissexualidade, heterossexualidade são categorias definidas socialmente, criadas e transformadas no transcurso da história humana. Na verdade sabemos desde Freud, que a sexualidade é extremamente fluída. No decorrer destes muitos séculos, a homossexualidade e outras formas de sexualidade alternativas à heterossexualidade foram tratadas de formas diversas, dependendo da época e do lugar. Em muitos lugares e épocas foram consideradas pecados graves, em outros tratadas como patologia médica, e, ainda, em outros tempos e sociedades consideradas apenas mais uma das formas de se amar e exercer a sexualidade.
Quando os europeus chegaram à América, encontraram aqui muitas tribos indígenas, que respeitavam a homossexualidade. Nossos índios chamavam os gays de tibira e as lésbicas de sacoaimbeguira. A idade média foi marcada por violenta perseguição a gays e lésbicas. Países islâmicos como Irã, Arábia Saudita e Sudão punem, ainda hoje, a homossexualidade com a pena de morte. Outras sociedades, como a indígenas da América e muitos países europeus da atualidade, aceitam e respeitam outras formas de sexualidade, além da heterossexual, com maior naturalidade. Já países, como por exemplo o Brasil, apesar de não possuírem uma legislação repressiva à prática homossexual, apresentam ainda um quadro de grande opressão social e inúmeros casos de abusos e violência contra os que praticam a homossexualidade.
De qualquer forma, como afirmam Peter Fry e Edward MacRae:
“A partir da constatação de que os papéis sexuais de ‘homem’ e ‘mulher’ variam de cultura para cultura e de época para época, é agora lugar-comum observar que cada sociedade, classe e região têm a mulher e o homem que merece. Ninguém hoje em dia acredita que as diferenças de comportamento entre os dois sexos possam ser explicadas apenas em termos de diferenças biológicas, pois se reconhece que os papéis sexuais são forjados socialmente” (FRY e MACRAE, 1991, p.10 e 11).
Em seu artigo político sobre a homossexualidade o militante socialista, Wilson H. da Silva[1] (1994), assinala que estudos de sociedades primitivas: “(...) provam que alguns homossexuais exerciam um papel de destaque, sendo respeitados como conselheiros curandeiros ou em outras tarefas. Em civilizações como a romana, e principalmente a grega, a ‘homossexualidade’ era respeitada quando ligada aos rituais sagrados e na iniciação de adolescentes na vida adulta”[2].
Na análise de SILVA (1994), a opressão homossexual e a violência contra os homossexuais, podem em parte ser explicada a partir da introdução da propriedade privada e das transformações das antigas sociedades matriarcais em sociedades patriarcais. Segundo SILVA (1994), “a necessidade de se determinar quem era o herdeiro das propriedades acumuladas, acorrentou as mulheres ao domínio masculino e deu início à nefasta discriminação em relação a toda atividade sexual que não tivesse na reprodução ‘controlada’ seu objetivo”.
Seguindo a linha de raciocínio, estudiosos, atribuem ao crescimento do cristianismo o aumento da discriminação contra os homossexuais, pois, a partir deste, a prática da homossexualidade, além de condenada pela sociedade é punida de forma severa. Na idade média, centenas de mulheres consideradas lésbicas foram queimadas como bruxas e os homossexuais usados como lenha para as chamadas fogueiras “purificadoras da Santa Igreja”. No entanto, podemos também compreender a origem desta opressão a formas sexuais homoerótica por meio dos argumentos de CASTELLS (2000, p.288) quando afirma que:
“O patriarcalismo exige heterossexualidade compulsória. A civilização conforme é conhecida historicamente, é baseada em tabus e repressão sexual. Segundo Foucault, a sexualidade é construída socialmente. A regulamentação do desejo está subordinada às instituições sociais, canalizando assim a transgressão e organizando a dominação. Quando a epopéia da História é observada pelo lado oculto da experiência, nota-se a existência de uma espiral infinita entre o desejo, repressão, sublimação, transgressão e castigo, responsável em grande parte, pela paixão, realização e fracasso. Este sistema coerente de dominação, que liga as artérias do Estado à pulsação da libido pela maternidade, paternidade e família, tem seu ponto fraco: a premissa homossexual. Se essa premissa for questionada, todo o sistema desmorona: a relação entre o sexo controlado e a reprodução das espécies é posta em dúvida (...), solapando a coerência cultural das instituições dominadas pelos homens”.
No final do século XIX, mais precisamente em 1897, surge na Alemanha o Comitê Científico e Humanitário (CCH), com a proposta de promover diversas atividades relacionadas ao estudo da sexualidade. Porém, em meados de 1933, o CCH foi duramente perseguido pelos nazistas. Anteriormente, o movimento foi responsável, por abaixo-assinados, palestras e atividades públicas em favor dos homossexuais.
Segunda SILVA (1994),
“Neste mesmo século, surgiu o termo ‘homossexualismo’ que denomina as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. (...) Um dos primeiros escritos que se conhece contra a discriminação aos homossexuais, data de 1869. Neste ano, um médico húngaro Karóly Benkert, escreveu uma furiosa carta ao ministério da justiça alemão, condenando o novo código penal, que em seu artigo 175 declara que atos sexuais entre homens eram delito. Foi nesta carta, também, que Benkert utilizou o termo pela primeira vez para dominar estes atos”.[3]
Conforme relatos de TREVISAN (2000, p.33), antes do século XVIII, qualquer forma alternativa de sexualidade que não visava a reprodução era considerada delito moral grave.
“Na segunda metade do século XIX, foi um militante ‘uranista’ (Assim se chamava o homem que praticava sexo com homem) quem criou o termo ‘homossexualismo’ – visando a legitimar biologicamente a ‘vocação’ homossexual e isentar a culpa de seus ‘vocacionados’(...) Isso deu início a uma importante mudança de postura da ciência, que passou de condenação à curiosidade científica perante uma anomalia, digamos, moralmente neutra. [porém] Partindo do pressuposto eugênico de que os homossexuais eram anormais incuráveis, como loucos e aleijados, o nazismo estigmatizou-os com o triângulo ‘rosa’ e determinou a sua eliminação como corolários obrigatório para a boa saúde da sociedade”.
SILVA observa que
“Um dos mais sangrentos exemplos de violência contra os homossexuais podem ser analisados na II Guerra Mundial, que enviou centenas deles para a morte, depois de marcá-los nos campos de concentração, com o triangulo rosa. Os anos 30 e 40 foram marcados por enormes retrocessos e derrotas em função do fascismo e da guerra”.
De acordo com Hiro Okita (1980), uma das primeiras posições governamentais favoráveis aos homossexuais surgiu na Rússia Revolucionária. A atitude dos revolucionários russos em relação aos homossexuais foi declarada em um panfleto escrito pelo médico Grigori Batrkis, diretor do Instituto Moscovita de Higiene Social, onde afirmava que:
“A atual legislação sexual da União Soviética é obra da Revolução de Outubro. Esta Revolução é importante não somente como fenômeno político que garante o governo político da classe trabalhadora, mas também porque as revoluções que emanam desta classe chegam a todos os setores da vida (...) Declara a absoluta não interferência do Estado e da Sociedade nos assuntos sexuais, sempre que não lesem a pessoa alguma e não prejudique os interesses de ninguém. A respeito da homossexualidade, sodomia e outras várias formas de gratificação sexual, que na legislação européia são qualificadas de ofensas à moral pública, a legislação soviética as considerava exatamente igual a qualquer outra forma da chamada relação ‘natural’. Qualquer forma de relacionamento sexual é um assunto privado somente quando se emprega a força ou coação, e geralmente quando se ferem ou se lesam os direitos de outra pessoas, existe motivo de perseguição criminal” (BATRKIS in OKITA, 1981, p.35 e 36).
Segundo Okita, esse progresso da revolução russa foi destruída por reformas posteriores. O autor cita como exemplo, na edição de 1971, a ‘Grande Enciclopédia Soviética’, em que se lê: "homossexualidade é uma perversão sexual consistente em uma atração antinatural entre pessoas do mesmo sexo. Dá-se em pessoas de ambos os sexos. Os estatutos penais da URSS, dos países socialistas e inclusive alguns estados burgueses, castigam a homossexualidade (...)" (Grande Enciclopédia Soviética apud. OKITA, 1981, p.36).
Entretanto, a libertação da sexualidade gay começou em outro lugar do mundo, nos EUA. O dia 28 de junho de 1969 iria marcar para sempre a luta contra a discriminação aos homossexuais. Nesse dia, a polícia de Nova Iorque promoveu uma batida em um bar freqüentado por homossexuais, o Stonewall, em Greenwish Village. Como observa SILVA (1994):
“Cansados das humilhações e perseguições, os homossexuais que estavam no bar, liderados por travestis resistiram à polícia, trancando-os dentro do bar e ateando fogo ao recinto. (...) No primeiro aniversário da rebelião, 10 mil homossexuais, provenientes de todos os estados norte-americanos marcharam nas ruas de Nova Iorque (...), dispostos a seguir lutando por seus direitos”.
Durante os anos 70 surgiram centenas de organizações de gays e lésbicas. Em muitos países a situação dos homossexuais melhorou sensivelmente. De acordo com a “Associação Internacional de gays e lésbicas”, a “Comissão Internacional de Direitos Humanos de gays e lésbicas” e a “Anistia Internacional”, as relações homossexuais, hoje, são legais em países tão diversos como: África do Sul, Canadá, China, Brasil, Israel, União Européia, entre outros. Alguns países, com legislações mais modernas, também possuem leis antidiscriminatórias: Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, África do Sul, Espanha e Suécia. Outros permitem casamento ou união civil entre pessoas do mesmo sexo: França, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Islândia, Canadá, Holanda e Finlândia (além do Estado americano de Vermont). Países como Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Holanda, Noruega, Suécia e Estados Unidos[4], oferecem asilo a homossexuais perseguidos nos seus países de origem. Outros como Austrália, Dinamarca, Holanda, Nova Zelândia, Noruega e Suécia permitem a imigração de parceiros estrangeiros do mesmo sexo. Países como Austrália, Bélgica, Canadá, Finlândia, Alemanha, Irlanda, Holanda e Nova Zelândia permitem o ingresso de homossexuais nas forças armadas.
Apesar disto, a realidade descrita no relatório do ano de 2000 da Anistia Internacional (Relatório da Anistia Internacional 2000 in informativo da Anistia Internacional, mar/jun. 2001, pg.16), muitos homossexuais foram:
“(...) torturados, maltratados, agredidos sexualmente, forçados a se sujeitarem a tratamento médico ou psiquiátrico, obrigados a fugirem aterrorizados de seus países – por todo o mundo, gays, lésbicas, bissexuais e trangêneros (GLBT) correm maior risco de sofrerem violações dos direitos humanos devido a sua identidade sexual”.
O relatório descreve também a situação angustiante de milhares de pessoas que são torturadas e maltratadas por sua sexualidade, real ou imaginada, considerada uma ameaça à ordem social. O relatório inclui exemplos documentados de cerca de 30 países. Em mais de 70 países as relações entre pessoas do mesmo sexo são consideradas um crime e, em alguns casos, podem ser punidas com a morte.
2.2 Brasil
A idéia de um Brasil como uma democracia plena está, infelizmente, longe de se realizar. O país apresenta inúmeras dificuldades sociais e políticas ainda graves, que podem ser contatadas diariamente nos principais jornais nacionais, como, por exemplo, grande disparidade econômica e social, alto índice de analfabetismo, desemprego, graves infrações contra os direitos humanos e principalmente grandes setores da população em estado de miséria total e marginalização social. Os gays brasileiros também enfrentam grandes dificuldades. No Brasil as pessoas que praticam formas de sexualidade alternativas enfrentam todos os dias problemas como: a existência de uma ideologia homofóbica (violência simbólica), repressão policial e violência física, discriminação profissional, marginalidade social, associação automática e discriminatória à AIDS, discriminação dentro dos movimentos sociais, políticos e sindicais, uma legislação penal que abre brechas para a repressão ao penalizar os chamados delitos contra os “costumes” e, o mais grave, altos índices de assassinatos de homossexuais.
Uma pesquisa realizada pela Revista Veja, demonstra o grau de discriminação existente no Brasil. Uma amostra de dois mil homens e mulheres brasileiras revelou um persistente desconforto diante da homossexualidade. Embora 50% confirmassem ter contato diário com homossexuais no trabalho, em sua vizinhança ou nos bares e clubes que freqüentavam, 56% admitiram que mudariam seu comportamento em relação a um colega caso descobrissem que ele ou ela são homossexual. Um em cada cinco romperia de vez o contato com essa pessoa. Dos entrevistados, 36% não empregariam um homossexual, mesmo que ele ou ela fosse a pessoa mais qualificada para o cargo, e 79% não aceitariam que seu filho saísse com um amigo gay. (Revista Veja, edição de 12/05/93 in SILVA W.H 1994).
É pertinente a seguinte observação:
“(...) enquanto crianças e adolescentes, negros, judeus, deficientes físicos, são ensinados por seus pais e familiares, a enfrentar o preconceito e hostilidade da sociedade global, desenvolvendo seu orgulho étnico ou racial e sua auto estima, para os jovens homossexuais ocorre exatamente o contrário: é dentro de casa e por parte dos parentes mais próximos que primeiro, e de forma mais cruel, se manifesta à crueldade da discriminação” (MOTT e CERQUEIRA, 2001, pg.11).
Segundo Luiz Mott e Marcelo Cerqueira do Grupo gay da Bahia, no ano 2000 foram documentados 130 assassinatos de gays, travestis e lésbicas e 261 casos de discriminação Anti-homossexual.
Este estudo denuncia também que o Brasil continua sendo o campeão mundial de homicídios contra as minorias sexuais: cinco homossexuais são mortos a cada duas semanas. Nem nos Estados Unidos e Inglaterra, países onde os crimes de ódio são freqüentes e ainda existem restrições legais à prática da homossexualidade; nem nos países islâmicos e africanos mais homofóbicos, onde há legislação punitiva contra os praticantes, em nenhum país no mundo, inclusive os da América Latina, são assassinados tantos gays como no Brasil. Trevisan aponta vários fatores que determinam esta brutal realidade brasileira,
“Neste fim de século o vácuo político-ideológico, a crise do capitalismo e a recrudescência dos credos religiosos institucionalizados criaram terreno fértil para as execrações morais, insufladas agora por um milenarismo de olho no capital. E a homossexualidade pode ser alvo fácil de um novo fundamentalismo político-empresarial – que a torna bode expiatório da generalizada crise moral nos nossos dias e, assim, une bancadas políticas díspares de evangélicos, ruralistas e católicos contra a ‘decadência moral’”. (TREVISAN ,2000, p.19)
No Brasil Colonial, quando as leis portuguesas definiam a sodomia[5] como a penetração anal de um homem, ou de uma mulher, uma pessoa que era culpada por este tipo de ofensa era condenada à fogueira e poderia ter suas propriedades confiscadas. Entre 1587 e 1794, a Inquisição Portuguesa registrou 4.419 denúncias.
Em 1830, oito anos após a Independência, D. Pedro I promulgou o Código Penal Imperial. Entre outras providências, a nova lei eliminava toda e qualquer referência a sodomia. Entretanto, o artigo 280 do Código Brasileiro punia atos públicos de indecência com dez a quarenta dias de prisão e uma multa correspondente à metade do tempo e reclusão. Essa provisão deu margem para que a polícia pudesse determinar o que constituía um ato de indecência. Deu-lhe também o poder de extorquir dinheiro daqueles ameaçados de detenção ou reclusão. O governo Republicano de 1889 aprovou um novo Código Penal, em 1890, que mantinha a discriminação de sodomia.
Observa-se que:
“No Brasil Colonial, e também em Portugal o termo puto era empregado para referir-se ao ‘moço que se prostituía ao vício dos sodomitas. (...) Era uma versão popular do antigo termo sodomita, de origem bíblica, e o modo empregado pela religião e a lei para descrever pessoas que praticavam sexo anal com homens ou mulheres. Durante a belle époque brasileira, o estereótipo mais comum sobre os homens que praticavam sexo com outros homens, enfatizava sua ligação com a prostituição. Físicos, políticos, advogados, intelectuais e artistas retratavam os sodomitas modernos como homens efeminados que praticavam sexo anal com elementos passivos e ganhavam a vida com a prostituição nas ruas. No fim do século XIX, tonou-se popular no Brasil, uma nova expressão pejorativa, fresco”. (GREEN, 2000, pg.63)
Ainda seguindo a pesquisa de James N. Green (2000) sobre os apelidos pejorativos dados aos homossexuais, foi na década de 1920 que o termo “veado” se uniu aos termos puto e fresco no linguajar popular. Já nos anos 30, surgiu o termo “bicha”.
SILVA (1994) ressalta que foi somente em 1977 que a realidade começou a mudar para os homossexuais brasileiros. Foi nesse mesmo ano que estudantes foram para as ruas para reivindicar a anistia política. A ditadura estava chegando ao fim e a imprensa “alternativa” se multiplicava rápido. Os setores mais oprimidos da sociedade começavam a reivindicar mais espaço.
Sobre o impacto da intensa repressão que a ditadura exercia sobre as pessoas homossexuais, surgiu o jornal Lampião da Esquina[6], com o objetivo de enfocar os setores “chamados oprimidos”. Editado no Rio de Janeiro por jornalistas, intelectuais e artistas homossexuais, pretendiam-se originalmente lidar com a homossexualidade com o intuito forjar alianças com as demais “minorias”, ou seja os negros, as feministas, os índios e os movimento ecológico. Embora esse projeto de aliança não tenha tido o sucesso desejado, o jornal foi de grande importância na medida em que abordava sistematicamente, de forma positiva e não pejorativa, a questão homossexual nos seus aspectos políticos, existenciais e culturais. A partir dessa iniciativa foi lançado o
“(...) núcleo de Ação pelos Direitos homossexuais, que apareceu a público pela primeira vez para denunciar a forma preconceituosa como o jornal Notícias Populares, tratava os homossexuais. Em dezembro de 1978, o grupo passa a adotar o nome de SOMOS – Grupo de Afirmação homossexual. (...) em abril de 78, a revista Versus promoveu um ciclo de debates denominado ‘Semana do Movimento da Convergência Socialista’, cujo objetivo era elaborar a plataforma política de um futuro Partido Socialista Brasileiro. Durante estes debates um ‘incidente’ provocado pela não convocação do Lampião, acabou resultando em uma intensa discussão sobre o relacionamento entre a esquerda e os homossexuais. A grande importância deste debate foi que ali se deu a primeira discussão pública sobre a homossexualidade e seus aspectos políticos”.(Artigo disponível em htttp://www.pstu.org.br/gaylesb_artigo-01.asp>, Secretaria Nacional de gays, lésbicas e homossexuais do PSTU em 15 de mar 1999).
Foi em 1980, no Rio de Janeiro, durante a Semana Santa, que ocorreu o I Encontro Brasileiro de Grupos homossexuais. Participaram 800 pessoas. Entre outros, estavam presentes os grupos: Facção homossexual da Convergência Socialista, Eros (SP), SOMOS/Sorocaba, SOMOS/RJ, Beijo Livre (Brasília), Libertos (Guarulhos) e Grupo de Ação Lésbico-Feminista.
Atualmente existem muitos grupos em prol da cidadania GLBTS. Um dos grupos de maior destaque, nacional e internacional, é o Grupo gay da Bahia. Além desse, podemos citar o Coletivo de lésbicas Feministas (SP), o Grupo de homossexuais do PT; Movimento gay de Minas - MGM, o Alem (MG), o Triângulo Rosa, o Grupo de gays, lésbicas e Bissexuais do PSTU (antiga Facção homossexual da Convergência Socialista) e o Atobá, 28 de junho, Auê e Agani (RJ); Amhor (PE); CORSA (SP), Grupo gay de Alagoas (AL) , Nuances (RS), Dignidade (PR) e diversos outros grupos regionais, como exemplos da existência de uma atividade permanente.
2.3 Comunicação falta de ética ou manipulação do imaginário?
Marcuse (1967) afirmou em A Ideologia da Sociedade Industrial que a estabelecimento da modernidade foi fruto da maquinização (tecnização), do nascimento das grandes cidades industriais e de todos as dificuldades ligados à relação do indivíduo com a sociedade de massa. O indivíduo passou a ser mantido por meio da labuta em uma condição letárgica que o empobreceu culturalmente e fisicamente. O produto de seu trabalho escapou assim de seu controle e compreensão. A divisão social do trabalho fez das forças produtivas da ciência e da tecnologia forças destruidoras. Como afirma o jornalista José Arbex (1999)
“(...) a manipulação da consciência que ocorre em toda órbita da civilização contemporânea, em várias interpretações de “cultura popular” e totalitarismo, foi definida como coordenação da existência privada e pública. Com o advento da comunicação de massa a manipulação, tornou-se possível e abrangente, invadindo áreas antes imagináveis. A tecnização do mundo contaminou até mesmo os corpos e o imaginário relativo à ele. A promoção de atividades ociosas que não exigem esforço mental, o triunfo de ideologias antiintelectuais e o culto a perfeição física são apenas expressões desta manipulação opressora. As academias de aeróbica são o templo consagrado á transformação do corpo em máquina, destituindo-o de gordura, tornado-o eficaz, potente e ágil. Mesmo o erotismo e a sensualidade foram colonizados pela máquina: os orgasmos programados do robô - Madona, a música tecno que convida a dançar conforme o ritmo ditado pelo computador e os romances “virtuais” retratados por Hollywood são apenas expressões da maquinação do ser”(Revista Caros Amigos, 1999, pg.13).
De acordo com Hebert Marcuse, em a Ideologia da Sociedade Industrial (1968), a individualidade passou a ser apenas uma representação específica de tipos pré-concebidos e estereotipados de seres humanos (machão, dona de casa, empresário, cientista, gay, intelectual, etc.), assim como na produção industrial, em que a variedade tende a se resumir à produção de embalagens, cores e sabores. As liberdades, gratificações e as relações do indivíduo com o próprio corpo passaram a existir vinculadas aos requisitos pré-determinados de dominação e se convertem em instrumentos de dominação. Segundo MARCUSE, a arregimentarão do prazer passa a ser uma função e resultado lógico da divisão social do trabalho.
Em seu Livro Império (2001), Antonio Negri e Michel Hardt, observam que Michel Foucault pensou em sua obra formidáveis conceitos sobre o poder que ajudam a compreender estes mecanismos alienantes. Nesta pertinente análise lembram que as concepções de Foucault quanto às formas de opressão podem ser utilizadas para esclarecer o contexto atual do mundo (globalizado) e a constituição de mecanismos de poder. Foucault, ainda segundo NEGRI e HARDT, já havia identificado uma importante transição nas armações do poder em nossa civilização: a “sociedade disciplinar” evoluiu pouco-a-pouco para a “sociedade de controle”. Para Foucault a “sociedade disciplinar” relaciona-se a uma sociedade que coloca em curso um circuito de estruturas disciplinares, como, por exemplo, prisões, fábricas, asilos e hospitais, para garantir submissão. Já o “poder disciplinar” se manifesta na “estrutura de parâmetros e limites do pensamento e para a prática, sancionando e prescrevendo comportamentos normais e/ou desviados”. Assim, para Michel Foucault, devemos perceber “Sociedade de Controle”, como aquela na qual os mecanismos de autoridade se tornam cada vez mais ”democráticos”, cada vez mais irradiado do campo social, disseminados pelos corpos e mentes das pessoas. Assim os comportamentos e as “decisões de inclusão ou exclusão” são intensamente internalizados pelos sujeitos.
Para NEGRI e HARDT (2001), ao seguirem a linha de Foucault, pode-se, entender a forma que o poder é hoje em dia exercido “mediante a máquinas que organizam diretamente o pensamento (em sistemas de comunicação, redes de informação, etc...) e os corpos (em sistemas de bem-estar, atividades monitoradas, academias, etc.) no objetivo de um estado de alienação, independente do sentido da vida e do desejo de criatividade”. (NEGRI e HARDT, 2001, p.42)
A “sociedade de controle”, deste modo, a nossa sociedade presente, se diferencia pela intensificação dos mecanismos disciplinares ao ponto que estes se tornem internalizados por homens e mulheres, sejam eles homossexuais ou heterossexuais.
Esta forma de dominação é uma forma de poder que regula a vida social por dentro, tornando-se uma gerência absoluta sobre a existência do povo. Esta idéia de “sociedade de controle” apresenta bem a feição central dos conceitos das estruturas de opressão da atualidade. Hoje, a maioria dos indivíduos nem ao menos percebe estes mecanismos de controle.
Sobre isso, Foucault afirma:
“O controle da sociedade sobre os indivíduos não é feito apenas por meio da consciência ou da ideologia, mas também no corpo e com o corpo. Para sociedade capitalista, a biopolítica é o que mais importa, o biológico, o somático, o físico”.(Focault in NEGRI e HARDT, 2001, p.46).
Para Negri e Hardt (2001), um lugar em que se pode expressar ou localizar a produção destes mecanismos de controle é na produção da linguagem e da comunicação, desenvolvida, sobretudo atualmente pelas monopólios de comunicação. O desenvolvimento de redes de comunicação tem relação direta com o desenvolvimento de uma nova ordem mundial (chamada por eles de Império). A comunicação não apenas divulgaria, mas também organizaria a globalização e as formas de manipulação simbólicas. Sua constatação é que estes grandes monopólios de comunicação monopolizam atualmente o controle do imaginário humano, contribuindo para a concepção dos “mecanismos de controle” e da alienação. O que na verdade lhes dá poder para controlar e manipular as subjetividades dos homens e criar justificativas e legitimação para ordem de opressão. Segundo HARDT e NEGRI a rede de comunicação mundial ergue estruturas sociais que esvaziam, ou tornam ineficaz, ou absorvem qualquer contradição; ou resistência possível à ordem estabelecida. Portanto, com base nesta concepção, o poder simbólico também se torna a transfiguração de outras formas de poder.
A partir destas perspectivas, pode-se acreditar que a expressão destas formas de controle e dominação é perceptível na comunicação e na mídia. Elas variam segundo o tipo de público, de situação (ou resistência), e de meio. A TV, o rádio, as revistas, e os jornais determinam os modelos para a conformidade ou até mesmo para a rebeldia, e o sistema dificulta a existência dos que não pertencem ao todo, àqueles cuja existência é a negação da opressão e ao tipo pré-determinado. A manipulação do imaginário invade até mesmo o mundo do rebelado, do minoritário ou do marginalizado, usando a comunicação de massa para reunir modelos e imagens possíveis de “rebelião” ou de “marginalidade”.
Os mecanismos de manipulação também agem sobre gays. Nos veículos de massa (revistas, jornais ou sites) que têm como público alvo o indivíduo homossexual (já dizia Michel Foucault: “Não há orgasmo sem ideologia”) reduz-se o tipo ideal (estereótipo) de “desviado” a uma representação de masculinidade expressa na “obsessão dos padrões estéticos da masculinidade comercialmente aceitável”. Todos os “rebelados” representados nas revistas (assim como o público alvo) devem ter necessariamente um corpo forte, bonito e perfeito. Como afirma Gilberto Scolfild
“Este modelo é firmemente amparado pelo desejo (alienante) de controle do próprio corpo onde o engrandecimento físico é como uma compensação para as inúmeras opressões sofridas pelo indivíduo ao descobrir-se homossexual em um mundo opressivamente heterossexual. E é justamente este desejo que impede qualquer revolta real ou negação da realidade. É como se as representações homoéroticas contidas nestas publicações contivessem a mensagem: - Você pode ser oprimido por ser homossexual, mas nunca será um homossexual fraco” (Artigo publicado na Revista Sui Generis, edição 41, 1999, p. 22).
Podemos observar que esses tipos prefixados (estereótipos) assumem formas variadas para o mesmo objeto de representação, dependendo da situação e do meio em que a comunicação ocorre. Por exemplo, o mesmo objeto, o indivíduo gay pode, assumir um caráter totalmente diferente em sua representação em jornais e revistas, ou programas de televisão ou rádio, considerados “populares” e ostentar um caráter de caricatura, passividade e feminilidade, destoando surpreendentemente da representação na mídia especializada no público gls. Esse modelo “popular” viria se encaixar exatamente no imaginário de um outro modelo de público, heterossexual, supostamente menos intelectualizado posicionado hostilmente à imagem do homossexual e para quem só é possível à representação do homossexual de forma grotesca. SCOLFILD observa que
“Estas representações prefixadas agem opressivamente justamente contra aquele tipo que não se encaixa em nenhuma forma preconcebida, o que possivelmente engendraria uma possível reação por parte do oprimido, porém toda forma de reação ou revolta autêntica tende a ser anulada por um discurso positivista, politicamente correto, expresso em programas onde o público alvo é menos identificável e característico, como por exemplo, publicações como: a revista Veja, Istoé, Época, Super Interessante, onde a abordagem do tema não é exatamente agressiva e hostil ao indivíduo homossexual, mas onde o tema é abordado muitas vezes de forma positivamente ambígua, onde o gay discreto é entendido como mais tolerável e agradável que o militante agressivo” (Artigo publicado na Revista Sui Generis, edição 41, 1999, pg.22).
João Silvério Trevisan (2000) acrescenta que a grande mídia (Veja, Istoé, Época e grandes jornais), apesar de resgatar esporadicamente a imagem e a representação do homossexual, propaga uma aceitação parcial, pois acabam “aceitando [apenas] uma homossexualidade clean, da qual esteja depurado todo e qualquer resquício de ‘rebeldia’”.
MOTT e CERQUEIRA (2001) afirmam igualmente que as condenações (em relação à homossexualidade) divulgadas na grande imprensa, nos programas de televisão e na internet, devem invadir e povoar o imaginário dos que as recebem, moldando e fornecendo munição legitimadora da ideologia anti-homossexual.
Em um programa televisivo, coordenado por Flávio Aguiar, em 1979, com a participação de membros do grupo SOMOS de São Paulo, debateu-se o fato que não podemos considerar o homossexual como um ser “identificável” e que possa ser reconhecido por meio de um estereótipo. Socialmente, o homossexual, seria invisível, ou seja, em sua grande maioria, não corresponde aos estereótipos impostos pela sociedade. Comentou-se também que historicamente, por algum processo, a heterossexualidade acabou se tornando uma instituição e os homossexuais acabaram sendo enquadrados dentro de determinados estereótipos. Concluíram alertando que, dentro da nossa sociedade, é muito perigoso (para o sistema) que as pessoas sejam homossexuais e não se enquadrem nestas categorias. (AGUIAR apud MANTEGA, 1979)
Constatamos, em última análise a forma de manipulação do controle do homoérotismo e da imagem gay pode ser evidenciada com base do levantamento realizada por nós no 2o ano da faculdade[7].
2.4 O problema
Partindo do pressuposto de que se detecta na mídia a forte presença de estereótipos sobre a homossexualidade, preconceitos e mecanismos de controle, perguntamo-nos, como contribuir para que os profissionais da comunicação abordem de forma adequada às questões relacionadas ao homoerotismo? De que forma se pode atuar para que estes profissionais realizem uma comunicação não estereotipada, isto é uma comunicação que quebre a rede de mecanismos de opressão simbólica relativa à expressão da sexualidade diversa e à manipulação de modelos homoeróticos e para que conseqüentemente, contribuamos para uma sociedade mais libertadora?
3.0 Objetivos
3.1. Geral
a) Conscientizar os profissionais de comunicação e atores sociais da necessidade de se estabelecer uma política de comunicação para a cidadania, sem a presença de estereótipos e preconceitos. Acreditamos que o campo da comunicação e a responsabilidade prioritária de contribuir para a construção de uma sociedade mais progressista, libertária e igualitária.
b) Desenvolver e praticar uma “ação comunicativa”, com análise crítica para estimular a sensibilização e o debate através de meio de comunicação, que trate questões ligadas ao homoerotismo, introduzindo e propondo, portanto, abordagens não-estereotipadas e não-preconceituosas entre os comunicadores e atores sociais.
c) Sensibilizar os formadores de opinião, jornalistas e atores sociais (integrantes de movimentos sociais, comunicadores, políticos profissionais, professores, lideranças comunitárias etc.) sobre a importância de se abordar o tema dos direitos gays e da cidadania de orientação gay, mostrando que a forma como faz a mídia hoje não é adequada.
d) Contribuir em última instância, com a mídia e com a sociedade para uma mudança de comportamento, ou seja colaborar na construção e consolidação de uma liberdade de auto-identidade e expressão do homoerótico.
3.2 Objetivos Específicos
A proposta do Projeto Experimental é produzir veículos de comunicação que privilegiem temas relacionados à expressão do homoerotismo, promovam o debate e reflexão sobre a forma adequada de tratamento do tema e estimule também a liberdade sexual na sociedade. Entre eles, produzir o site Livre Expressão, um portal direcionado a jornalistas, atores sociais e comunidade GLS, veiculando semanalmente reportagens, notícias, artigos e promovendo análise crítica de conteúdos veiculados à mídia que trate a questão da livre sexualidade. Além disso, produzir também um boletim impresso, com o mesmo nome, em formato A4, com veiculação quinzenal, que será gratuitamente enviado a redações, movimentos sociais e demais atores sociais.
4.0 Relevância Social
Ao iniciarmos a faculdade de jornalismo acreditávamos que todos os jornalistas deveriam ser, necessariamente, pessoas altruístas e com fortes valores éticos. Ledo engano confrontamo-nos com a realidade em sala de aula, por exemplo:
“Universitários do Paraná picham em sala de aula: Morte aos viados. Na Universidade Tuiuti do Paraná (Curitiba), estudantes do 2o ano do curso de Comunicação Social (jornalismo) após diversos insultos contra dois estudantes gays, dizendo ‘aqui tem muito viado’, ‘viados anormais’, etc... escreveram no quadro negro: ‘MORTE AOS VEADOS: AUGUSTO E RENATO’. A direção da Universidade considerou a agressão ‘apenas brincadeira de criança’. Por pressão de alunos e professores solidários com os ofendidos, foi feita sindicância e os agressores expulsos, embora tivessem prometido vingança na base da ‘porrada’. No (...) próximo semestre, os agressores foram novamente admitidos na universidade, jactando-se que iriam processar os denunciantes”[8] (Violação dos Direitos Humanos e Assassinato de homossexuais no Brasil – Luiz Mott, pág. 43 – 1999)
Após a experiência, que nos mostrou a realidade do preconceito contra sexualidades alternativas, passamos a observar como as diversas forças sociais tratavam a questão e representavam os modelos sexuais.
Portanto, foi natural nossa inclinação em pesquisar como os meios de comunicação tratavam o assunto e como refletiam e sustentavam os modelos pré-fixados de sexualidades. Ao longo da graduação fizemos esta reflexão diversas vezes, como, por exemplo, no trabalho[9] de pesquisa que realizamos na disciplina Técnicas e Métodos de Pesquisa em Comunicação Social. Observamos nas mesas de bares, nos corredores da Universidade e nos perguntava por que a realidade brasileira em relação a homossexualidade é tão dura. Nesse trabalho fizemos um levantamento de matérias que tratavam do tema gay. Analisamos diversas revistas voltadas para o público geral e também para o público GLS. Nesse levantamento, identificamos muitos estereótipos e preconceitos. Estes eram: afeminado, masculinidade exaltada e ambíguo. O termo “afeminado” diz respeito às características femininas reforçadas em um ente masculino. A”masculinidade exaltada” refere-se a uma construção simbólica comum no imaginário homossexual masculino que superexpõe características ditas masculinas. O termo “ambíguo” identificado nas revistas, diz respeito a situações, em que um contexto politicamente correto, é possível encontrar idéias preconceituosas ou dúbias implícitas.
Conforme o livro Violação dos Direitos Humanos e Assassinato de homossexuais no Brasil de Luiz Mott (1999), que denunciou posteriormente o caso de violência ocorrido em nossa Universidade, o Brasil é campeão mundial de assassinatos de homossexuais. A cada dois dias, um gay, travesti, lésbica ou transexual é barbaramente assassinado em nosso país. Diante dessa realidade, perguntamo-nos, então, qual seria a responsabilidade social e ética dos jornalistas para mudar esta realidade?
Por meio de nossas experiências e também por observação, contatamos que todos aqueles que, em um momento de suas vidas, indentificam-se ou exercem uma forma de sexualidade alternativa ao padrão heterossexista existente, sofre com a discriminação, o preconceito e a violência cotidianamente. Apesar da violência física ser cruel e intensa em nosso país, a mais vil e constante, no entanto, é a violência simbólica presente no dia-a-dia de todas aqueles que são de alguma forma diferentes do que é considerado “exemplar” em nossa sociedade capitalista, racista, sexista e heterossexista. Por isso, acreditamos que os jornalistas, mais que outras categoriais profissionais têm a responsabilidade de buscar uma mudança neste quadro de discriminação, ódio e violência para uma conjuntura de convivência humanitária onde predomine o respeito às diferenças.
4.1 Para a sociedade e para o jornalismo
Observamos que a mídia em geral tem forte influência na formação do conhecimento das pessoas e na formação de sua compreensão do real. Pensamos que os estereótipos são formas de controle e manipulação do imaginário e da auto-imagem e que são importantes na disseminação de preconceitos e ódios.
Temos também a convicção de que a construção de uma liberdade de auto-identidade do homoerótico e a ativa participação política da comunidade gay é importante e essencial para a transformação da sociedade. Acreditamos, porém, que ainda é atual o comentário de Píer Paolo Pasolini, citado por João Silvério Trevisan
“Se hoje talvez pareça impensável o extermínio maciço de homossexuais. Como ocorreu no passado em nome de certa pureza de costumes, o que temos em lugar do triângulo rosa nazista é uma generalizada desqualificação moral, de modo que o ‘homossexual continua vivendo num universo concentracionário, sob rígido controle da moral dominante’, nas palavras de Pasolini. E eu acrescentaria: sob controle também da mentalidade empresarial, em época de globalização do mercado. Na verdade, neste final de século o vácuo político-ideológico, a crise do capitalismo e a recrudescescência dos credos religiosos institucionalizados criaram terreno fértil para as execrações morais, insufladas por um milinarismo de olho no capital” (TREVISAN, 2000, pg.22).
Acreditamos, que o quadro atual não se apresenta como muito promissor para os GLBT[10] em sociedades periféricas como a brasileira, mas também que nesta crise de valores mora um potencial bastante substancial de subversão e questionamento. Aproveitando esta situação, faz-se necessário a introdução de elementos críticos e contestatórios na imprensa, que coloquem em dúvida a realidade das representações existentes e que proponham novos paradigmas de liberdade. É importante identificar os mecanismos de controle e manipulação da imagem homoerótica para que os jornalistas e comunicadores possam lutar contra a manipulação (de fora e de dentro) e contribuir para o estabelecimento de uma liberdade realmente reflexiva sobre o exercício da sexualidade e suas formas diversas de expressão. Devemos porém, porém certificarmos de que esse potencial de subversão não pode estar ancorado no consumo. Como observa Trevisan “(...) o consumismo das sociedades industriais é autofágico: assim como o quadro político-econômico baseia-se no oportunismo do lucro, o consumo funciona como uma faca de dois gumes” (TREVISAN, 2000, pg.22).
É importante lembrar que a sociedade deve evitar a todo custo quadros como o descrito por Jean-Claude Bernardet em seu artigo Ser ou não ser não é a questão, (BERNARDET in org. PINSKY, 1999), que descreve o drama de centenas de jovens ao descobrirem seus desejos diferentes.
“Quando pais, as tias, os amigos dos pais, os colegas da escola, os professores percebem a orientação dos desejos sexuais e afetivos de um jovem ou uma jovem, organiza-se em torno deles uma verdadeira campanha. O jovem nem ter se dado conta de que se sente atraído por pessoas do mesmo sexo, mas a campanha esta aí martelando.(...) Esse clima mina a segurança do adolescente, que passa a achar que deve ter alguma coisa muito ruim dentro dele. O preconceito manifestado pelos familiares, os amigos, os professores, contamina o adolescente. Ele encampa em parte o preconceito por ele próprio. Ele se vê dividido entre o prazer de estar com seu amigo, e uma culpabilidade e uma solidão que ele não sabe reconhecer muito bem. Nada disso facilita qualquer forma de afirmação, e encaminha para comportamentos depressivos e para uma vida dupla: precisa esconder, manter aparentemente uma vida como os outros querem e. às escondidas, satisfazer os seus amores e desejos” (BERNARDT in org. PINSKY, 1999, pg.29 e 30).
Também é importante reconhecer, como Bernanrdt o faz, que além da campanha não há modelos para as pessoas gays.
“(...) a sociedade lhe oferece modelos de comportamento. Os meninos namoram com as meninas, e as meninas com os meninos, os pais fizeram assim, os avôs fizeram assim. O casamento, passando ou não pelas leis e pela igreja, está aí: é só fazer como os outros. O casamento monogâmico e o adultério, os bordéis e as prostitutas: o caminho já está traçado. Os romances, os filmes, a publicidade nos muros da cidade e na televisão, as telenovelas, tudo nos diz como devemos proceder. É o reino da heterossexualidade. Ao adolescente com tendências homossexuais não se oferecem trilhas prontas, ele tem que encontrar as suas, adivinhar, procurar, inventar. É a luta” (BERNARDT in org. PINSKY, 1999, pg. 31)
5.0 Justificativa
5.1 Internet
Para satisfazer as necessidades do nosso projeto eletrônico, escolhemos a internet, por que, segundo Denis de Moraes.
“Neste quadro de deslocamentos e rupturas, o fenômeno internet precipita mudanças de paradigmas que podem ser absorvidos em sintonia com a idéia da humanização da sociedade. Na órbita da rede mundial de computadores flutuam instrumentos privilegiados de inteligência coletiva, capazes de gradual e processualmente fomentar uma ética por interações, assentada em princípios de dialogo, de cooperação, de negociação e de participação”. (MORAES, 2001, p.68).
Da cultura oral à cultura escrita, da cultura escrita à cultura do virtual, em pleno século XXI e no 3º milênio, é possível afirmar que a humanidade presencia não só uma evolução cultural, mas uma verdadeira revolução: a revolução eletrônica. Uma vez conectado em rede, o mundo está em contato direto e imediato com as fontes de informação. Dizard aponta, muito bem essas mudanças ao dizer que:
“As atuais mudanças são a terceira grande transformação nas tecnologias da mídia de massa nos tempos modernos. A primeira aconteceu em meados do século passado, com a introdução das impressoras a vapor e do papel do jornal barato. O resultado foi a primeira mídia de massa verdadeira – os jornais “baratos” e as editoras de livros e revistas em grande escala. A segunda transformação ocorreu no inicio do século, com a introdução da transmissão por ondas eletromagnéticas – rádio em 1920 e a televisão em 1939. A terceira transformação na mídia de massa – que estamos presenciando agora – envolve uma transição para a produção, armazenagem e distribuição de informação e entretenimento estruturadas em computadores. Ela nos leva para o mundo dos computadores multimídia, compact discs, bancos de dados portáteis, redes nacionais de fibras óticas, mensagens enviadas por fax de última geração e outros serviços que não existiam há uma dúzia de anos” (DIZARD, 1998, p.56).
Em sua obra O Concreto e o Virtual, o autor Denis de Moraes, disserta sobre a era da hipervelocidade que reconfigura, irreversivelmente, os campos da comunicação e da cultura e mostra que "A força invisível dos sistemas tecnológicos subverte toda e qualquer barreira numa rotação impressionante. Os fluxos infoeletrônicos encurtam a imensidão da terra, propagando um volume incalculável de informações". (MORAES, 2001, pg.67)
A Internet como nova linguagem veio para contribuir de forma progressiva na divulgação de informação e conhecimento, mesmo por que inclui todas as mídias (impressa, rádio e tv) existentes em sua formação. Introduzida definitivamente no Brasil a partir de 1995, a rede mundial de comunicação vem reunindo cada vez mais revistas e jornais eletrônicos com a promessa de maior velocidade na informação divulgada e possibilidade de atualização da notícia em tempo real. Ainda não existe um modelo, um manual de escrita. A Internet é um novo meio que ainda está sendo testado. Segundo a Nua Internet Surveys, (MORAES, 2001, pg.88), dos 407,1 milhões de internautas existentes em novembro de 2000, 75% viviam em apenas dez países: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, China, Coréia do Sul, Itália, Canadá, Brasil e França.
Moraes (2001) demonstra, a constante preocupação com a comunicação comunitária na rede, uma vez que há prerrogativa de participação dos receptores, inclusive em coletividades desterritorializadas. Segundo o autor, “o caráter interativo e múltiplo de comunicação virtual rompe com os limites demarcados por instituições hegemônicas”. O jornalista Faggion, em depoimento ao escritor, José Fernando Simone e Marina Monteiro (2001, pg.25), ressalta que um meio em que dados trafegam livremente, beneficia um jornalismo sério, pois deixa de estar sujeita aos interesses de grandes corporações e dos posseiros dos veículos de comunicação de massa. Pelo menos enquanto a Internet for livre, democrática e anárquica.
Uma das pedras angulares da Internet , segundo MORAES, reside no fato de constituir uma esfera pública não sujeita á regulamentação externa. O status ético das comunidades virtuais se esboça no interior de seus cosmos produtivos, por motivações, cooperativas e coordenação de qualidades e vocações individuais. Os códigos informais de conduto não provêem de fora, das instâncias de poder, devem ser aceitos por consenso e adaptados às práticas e tradições do grupo.
“Na Internet constitui uma vida comunitária regulada por interações, e não por leis, decretos e portarias. As comunidades virtuais, desvencilhadas da coincidência histórica entre espaço e tempo, fazem valer o salvo conduto para estar em toda parte sem sair do lugar. Longe de dispensar os indivíduos de deveres éticos, o ciberespaço propõe uma co-existência auta regulada. Longe de padronizar condutos com base numa “maioria moral, a cibercultura apóia-se em regras e valores consensuais estabelecidos pelas células de usuários, respeitando-se a pluralidade de contextos, os projetos societários e, acima de tudo, a liberdade de expressão. O ambiente tedencialmente interativo, cooperativo e descentralizado da Internet introduz um componente criativo nas lutas sociais. Organizações não governamentais, associações profissionais, sindicatos e núcleos ativistas, ainda que eventualmente separados por estratégias e táticas de ação, descobrem no ciberespaço possibilidades de difundir suas reivindicações. O que se busca é promover a disseminação de idéias e o máximo de intercâmbio. Poder interagir com quem quer apoiar, criticar e contestar” (MORAES, 2001, p.25 e 87).
No modelo de Moraes, as vozes que se somam no ciberespaço representam grupos identificados com causas e comprometimentos comuns a partir da diversidade de campos de interesse. O eixo consensual é o fortalecimento da sociedade civil no processo de universalização de valores e direitos democráticos. Congregar aspirações e necessidades concretas ou simbólicas, promovendo ações em prol da cidadania. Trata-se de desfechar batalhas contra a exclusão de grandes contingentes populacionais, dos benefícios do progresso: pela reapropriação social da riqueza produzida pelo trabalho coletivo, por políticas públicas que protejam o bem comum e garantam uma existência mais digna ao conjunto da sociedade.
Nos últimos anos, entidades de todos os continentes convenceram-se de que, um mundo independente com economia globalizada e instantaneidade de fluxos eletrônicos, os agentes sociais devem se conectar. Na perspectiva de Moraes, problemas, conflitos, negociações e encaminhamentos adquirem proporções imprevistas, não raro planetárias, requerendo propostas de igual plenitude. O que pressupõe articular reações e propostas numa velocidade e dimensão compatíveis com as sucessivas demandas. Daí por que a organização em redes, dentro e fora da internet, se revela-se inovadora. Elas facilitam a comunicação de indivíduos e agrupamentos heterogêneos que compartilham visões de mundo, sentimentos e desejos. De acordo com Maria Peñuelas, citado por Moraes diretora do Greenpeace na Espanha, mencionamos a seguinte ponderação:
“Na Internet, até as pequenas entidades tem a oportunidade de divulgar suas atividades aos conhecimentos de segmento mais amplo da sociedade. Apesar de anárquica, a rede é muito mais democrática, pois deixa que todo mundo se expresse. (...) a Internet chegou a ser vista com desconfiança pelo Greenpeace, conhecido por sua aversão aos efeitos colaterais das tecnologias. Hoje crimes contra o meio ambiente, em qualquer parte do globo terrestre, em minutos ganham ressonância, pela rede mundial de computadores. O Greenpeace mantêm websites em 41 dos 45 que países que está presente” (Peñuelas apud MORAES, 2001, pg.129)
A maioria das ONG’s - Organizações Não Governamentais, procuram usufruir das vantagens a curto, médio e longo prazo de comunicação virtual: barateando os custos, mantendo abrangência ilimitada, proporcioando velocidade de transmissão e mostrando autonomia para detonar campanhas, sejam elas de denúncia, de pressão, de conscientização ou de arrecadação de fundos.
5.2 Boletim
A Escolha do veículo impresso, o boletim, se deu por meio da análise de alguns autores.
No livro O Papel do Jornal, Alberto Dines ressalta que, “o jornal é um produto dirigido a cada leitor em separado, de fácil manejo e relativa perenidade, permitindo que seja guardado por momentos, horas ou dias” (DINES, 1986, pg. 77 e 78).
Já Luiz Amaral no livro Técnica de Jornal e Periódico, afirma que “a função educativa do jornalismo é tão praticada, em todos os países, que ninguém pode contestá-la. Os novos meios de comunicação vieram somar aos antigos e, juntos, cada um consegue atingir o seu objetivo e seu público alvo”. O autor define o objetivo da comunicação como “alterar as relações originais entre o nosso próprio organismo e o ambiente em que nos encontramos”. Já Aristóteles, dizia que a “comunicação é a procura de todos os meios disponíveis de persuasão.” (AMARAL, 1987, pg.,19).
Conforme acentua Norbert Wiener, “não é a quantidade de informação emitida que é importante para a comunicação, antes a quantidade de informação capaz de penetrar o suficiente num dispositivo de armazenamento, de modo a fazer ação” (Wiener in AMARAL,1987, p.14 e 15) Já Amaral adverte que se é difícil a um jornal, por sugestão ou por outro meio, levar os leitores a fazer alguma coisa de preciso, de concreto, como por exemplo votar neste ou naquele candidato:
“A imprensa consegue admiravelmente criar no espírito público o clima. O homem tende a resguardar sua decisão. Mas, as imagens, segunda as quais ele conduzirá o seu julgamento, são levadas em grande parte pelos jornais ou revistas que costumam ler. A educação dos homens que estejam nas escolas até os 13 ou até os 17 anos, não terminam quando eles deixam as aulas, prossegue na adolescência e na idade adulta pela leitura, principalmente pela leitura de jornais e revistas” (AMARAL,1987, p.20)
Em 1987, o Brasil tinha, para um grupo de 100 habitantes cerca de 5,4 exemplares diários de jornais, 6,4 aparelhos de rádio, 2,9 lugares no cinema e 2,2 aparelhos de televisão. Por unanimidade, a assembléia geral da ONU adotou em 1962, uma resolução exprimindo sua preocupação diante do fato de que, segundo enquete, 70% da população mundial não tem meios adequados de informação e estão, assim, privados do exercício efetivo desse direito: “(...) os meios de informação tem um papel importante e representa na educação e no progresso econômico e social em geral, e que nossas técnicas de comunicação oferecem possibilidades excepcionais de acelerar a educação” (AMARAL, 1987, pg.31).
Dados do livro Imprensa Alternativa apontam que nos anos 70 circularam no Brasil inúmeros jornais de tamanho tablóide – a metade usado nos jornais convencionais – com um traço comum em todos eles: a coragem. Conforme a experiência do autor, essa época foi um período muito difícil, comandando a ferro e fogo por militares, que durou 21 anos. Entre 1964 e 1985 nasceram e morreram cerca de trezentos periódicos que se caracterizavam pela oposição intransigente ao regime militar. Esses jornais ficaram conhecidos como imprensa alternativa.
De acordo com o autor do livro imprensa alternativa, Rivaldo Chinem, “uma das funções da imprensa é propor alternativas e não apenas de notícias, mas de mercado, de postura, de organização acionária” (CHINEM, 1995).
Tanto nos países subdesenvolvidos como nos outros, os meios populares de informação exercem uma influência importante como identificadores da existência de tensão social.
No XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação, realizado em 2001, pela INTERCOM em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, todos os meios de comunicação foram colocados em cheques para discussão. A conclusão que se chegou é que públicos distintos demandam diferentes estratégias de comunicação. De acordo com os recursos disponíveis, qualquer mídia pode ser utilizada por um grupo popular para alcançar objetivos de comunicação. Uma comunicação impressa depende de financiamentos externos para se sustentar e inserir o grupo que não tenha acesso a Internet. O boletim tem também a finalidade de divulgar o Livre Expressão junto a órgãos financiadores, funcionando como um instrumento da auto-sustentação que a organização começa a trilhar.
6.0 Quadro Teórico de Referências
6.1 A busca de uma comunidade ideal da comunicação e de um jornalismo de desenvolvimento intelectual
De acordo com Armand e Michèle Matterlart, em História das Teorias da Comunicação (1999), a sociologia funcionalista concebeu a mídia como nova ferramenta da democracia moderna e como mecanismo crucial para a regulação da sociedade. Os funcionalistas defendiam uma teoria voltada para a reprodução dos valores do sistema social, do Estado e das coisas existentes. Por outro lado, as escolas do pensamento crítico, em oposição, interrogam-se dos resultados do alargamento dos novos meios de comunicação e produção cultural, recusando-se a encará-los como fator de fortalecimento para a democracia.
Os meios de comunicação passam a ser, dessa forma, suspeitos de violência simbólica, encarados como meios de poder e dominação. Surge a Escola de Frankfurt e os Cultural Studies. Herbert Marcuse (1968), um dos representantes mais conhecidos da “Escola de Frankfurt” e com destino estreitamente marcado por sua ligação à contestação estudantil dos anos sessenta, desenvolveu, em “O Homem Unidimensional” (1968), importantes teorias sobre o efeito da comunicação “técnica“ sobre o homem. O caráter radical Freudo-marxista, marcante na obra de Marcuse caracteriza-se por uma tentativa de resposta a angustiante questão da submissão do indivíduo sob o impacto do meio técnico (inclusive sob o impacto dos veículos de comunicação) e da predominância do pensamento positivo.
Marcuse, em seus trabalhos, tenta responder a duas questões fundamentais: Quais são os mecanismos de integração na ordem estabelecida e por que as massas, apesar da consciência de sua submissão, aderem ao sistema autoritário? Para isso sua relação com Freud torna-se essencial. A civilização é repressiva por que ela domina constantemente suas pulsões instintivas (princípio de prazer). Ele afirma que o indivíduo por não se revoltar contra este poder despersonificado assume interiormente os valores da classe dominante e passa a desejar assim um sistema social autoritário. Considera que a libertação instintiva, que tem como objetivo reafirmar o princípio de prazer é fator essencial para transformar as relações sociais.
A outra questão considerada pelo filósofo como essencial foram as relações ambíguas entre o homem e a técnica. Adotando, aqui, idéias de Marx, ele afirmou, que a técnica é instrumento da dominação exercida pelas classes dominantes. A abolição desta dominação, segundo ele, exige um questionamento radical da tecnologia industrial, inclusive comunicacional.
Essa busca pela abolição de toda relação de dominação leva-o a colocar em questionamento a noção de necessidades. A questão então que ele coloca é: como o indivíduo pode satisfazer suas necessidades sem se enganar? Neste momento, ele percebe que a produção de bens, industriais e culturais, a lógica econômica e a “tecnização” do mundo, leva o homem à servidão. Esta submissão é exercida pelas coisas e pelos produtos do trabalho humano. Satisfazer suas necessidades é aceitar e confirmar sua dependência em relação a uma economia que para funcionar deve produzir utensílios e máquinas, exercendo assim uma dominação sobre a terra e sobre o homem.
O fato é que a Escola de Frankfurt inaugurou um pensamento crítico em relação à comunicação e seus estudos consideraram que os produtos culturais, as revistas, filmes, programas radiofônicos ilustravam a mesma racionalidade técnica e o mesmo esquema organizacional que a fabricação de automóveis. Tudo é, segundo MarcusE (1968) e Adorno (1985), uniformizado.
Nossa forma de entender a comunicação é extremamente marcada pela visão frankfurtiana. No entanto, apesar da consciência que, nessa perspectiva, a comunicação representa uma categoria comprometida com o projeto de dominação, contido nas estruturas da racionalidade moderna, buscamos, em Jürgen Habermas, referencial para o desenvolvimento de uma utopia de “outra comunicação”. Mesmo assim ainda estamos convictos que, como diz Francisco Rüdiguer (1998, p. 77), “a comunicação representa uma categoria ideológica, cujo questionamento deveria [deve] necessariamente ser crítico, ou seja, vinculado a sua própria desconstrução”. Acreditamos, por outro lado, baseado em Habermas (1987), ao tentar superar o pessimismo da primeira geração frankfurtiana, que a comunicação pode servir de base para a reconstrução racional dos fundamentos da vida social. Como afirma Rüdiguer, comentando as teorias de HABERMAS.
“A modernidade, enquanto projeto de emancipação da vida humana das várias formas de alienação, ainda não esgotou suas potencialidades, apesar das trágicas experiências históricas vividas pela humanidade em nosso século. Ela contém um potencial prático e cognitivo que não foi explorado pelos homens, mas foi, ao contrário pervertido pelo capitalismo” (RÜDIGUER, 1998, p. 78).
O que Habermas defende e o que buscamos como referencial, talvez seja, uma utopia da comunicação que, se realizada, poderia libertar o homem das relações de poder criadas pela chamada “razão instrumental”, já anteriormente indicada pelos velhos frankfurtianos. Ele acrescenta-nos, que o homem vive em um mundo estruturado materialmente pelo trabalho e simbolicamente pela linguagem, mas onde a comunicabilidade determina o desenvolvimento do seu modo de vida.
Sendo Assim, buscamos acreditar na possibilidade do que Habermas chama de “ação comunicativa – a ação voltada para o entendimento: [que] baseia-se num processo cooperativo de interpretação, no qual os participantes se referem simultaneamente a ações no mundo objetivo, no mundo social e no mundo subjetivo” (HABERMAS in RÜDIGUER 1998, p. 80).
Desse modo, acreditamos, seguindo a teoria de Habermas, que as condições ideais (ou utópicas) de comunicação a serem buscadas devem observar dois postulados:
“‘Postulado da igualdade comunicativa’: parte-se do suposto que os participantes devem falar de igual para igual, sem nenhum tipo de restrição, por maior que seja sua desigualdade social, de modo livre de coerções, por piores que sejam as relações de dominação vigentes na sociedade” (RÜDIGUER 1998, p. 85).
“‘Postulado da igualdade da fala’: parte-se do suposto de que os participantes devem poder empregar todo tipo de fala, conhecendo e podendo fazer uso de todo tipo de expressão, explicação, recomendação e juízo para problematizar as pretensões de validade do fragmento do mundo da vida em discussão” (RÜDIGUER 1998, p. 85).
Baseamo-nos no argumento de HABERMAS (1981) quando diz que os homens se esclarecem pelo fato de disporem de uma capacidade para discutirem seu modo de vida e a capacidade que possuírem de racionalizar o mundo da vida por meio da comunicação. Desse modo, a comunicação é a chave que serve para aumentar o conhecimento prático, transformar criticamente as velhas legitimações e gerar novas formas de vida. A discussão, portanto, consiste na passagem da “ação comunicativa” no mundo da vida, para a superação dos “mecanismos de controle” e poder entre os homens para uma forma de vida mais livre e igualitária, a chamada “comunidade ideal de comunicação”. Nessa comunidade, ninguém que venha participar da “conversação” deve ter o poder de impor aos outros sua própria visão de mundo.
Partindo portanto destas análises e reflexões, buscamos desenvolver um modelo de comunicação crítico, educativo e principalmente participativo. Um jornalismo atento a todas as formas de convulsão e mobilização sociais.
De acordo com Tereza L. Halliday (1994, pg.96-97) em Retórica e Política, o conceito de “ação comunicativa”, desenvolvido por Habermas, implica que as ações dos agentes envolvidos são coordenadas não por meio de cálculos egocêntricos de sucesso, mas mediante atos de alcançar entendimento.
“Na ação comunicativa, os participantes não são orientados principalmente para seus sucessos: eles perseguem seus objetivos individuais sob condição de poder harmonizar seus planos de ação com base em definições em comum da situação. Nesse sentido, a negociação de definições da situação é um elemento essencial das realizações interpretativas requeridas pela ação comunicativa” (HABERMAS, citado por Tereza L. HALLIDAY, in org. MATOS, 1994 p. 285 e 286).
Em outras palavras, o objetivo da comunicação seria produzir entendimento e compreensão, porém desde que os participantes não estejam orientados para seus objetivos.
6.2 Jornalismo socialmente engajado
Partimos do principio geral de que existem dois tipos de jornalistas. Como define Michael Kunczik (1997) em seu livro Conceitos de Jornalismo existem no mundo formulações “idealistas” de dois tipos contraditórios de jornalistas. Um deles é o jornalista objetivo e neutro, distanciado dos eventos de que trata. O seu oposto é o jornalista ativamente comprometido, participativo e socialmente engajado, que promove causas. Conceitualmente não acreditamos em ”objetividade” e “neutralidade” absoluta, julgamos que tais conceitos defendidos por alguns teóricos são ideologicamente formas de hipocrisia ou dominação. Como Antonio Gramsci em seu texto “Odeio os Indiferentes”, acreditamos que “viver é tomar partido”.
“Não podem existir apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. (...) O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se deve tanto à iniciativa dos poucos que atuam, quanto à indiferença de muitos. O que acontece não acontece tanto porque alguns o queiram, mas porque a massa de homens abdica de sua vontade, deixa de fazer, deixa enrolarem os nós que, depois, só a espada poderá cortar; deixa promulgar leis que, depois, só a revolta fará anular; deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar” (http://www.paramasmaquinas.com.br, acessado em 21/04/02).
Não acreditamos, portanto, no chamado “gatekeeper” ou seletor de notícias, uma vez que temos a convicção de que objetividade absoluta não existe. Esses “seletores de notícias” consideram sempre as classes dominantes como porta voz da sociedade e o que buscamos é um sentido ideal de que todos sejam porta vozes de sua própria voz na “comunicação ideal”. Michael Kunczik, chama o jornalista socialmente engajado de “defensor” e o define.
“O ‘defensor’, (...), é conceituado como paladino de certos grupos socialmente abandonados e que, por si mesmos, não podem representar seus interesses como o Quarto Poder, impedindo o abuso de poder. Isso pode implicar, pelo menos um esforço para mudar a estrutura social. O defensor não se sente comprometido com o princípio da neutralidade de valores; identificando-se com os valores do público ou de partes do público, fazendo uma campanha vigorosa pela difusão de certas idéias ou fatos, sem reivindicar a posse da verdade fundamental sobre o assunto tratado” (KUNCIK,1997, pg.98).
De acordo com Kunczik, os jornalistas defensores mais conhecidos foram provavelmente Joseph Pulitzer, Lincon Steffens, Ida Tarbell e Ray Stannard Baker que seguiam a tradição dos “denunciantes de corrupção”. É também desta tradição que devemos beber. Como afirma Alberto Dines em seu artigo “Por um Jornalismo Humanista”, acreditamos que.
“O modelo de jornalismo praticado no Brasil está esgotado. Auto-infectou-se, carece de antídotos autógenos. É um gigantesco faz-de-conta, armação joco-séria (como as tragicomédias de Antônio José da Silva no século 18). Profissionais imaginam-se livres, empresas jornalísticas fingem imparcialidade. Arrogância, onipotência e, às vezes, perversidade escondem-se atrás de um pretenso senso de justiça que não resiste a qualquer avaliação mais profunda. Com as honrosas e raras exceções. A isenção é uma farsa, mera distribuição de barbaridades em todas as direções. O linchamento dá-se com uma foto inocente e uma legenda pretensamente objetiva. A goela escancarada de um âncora ou o falsete de outro são as provas irrefutáveis de uma infração sequer investigada. "Comunicadores" nas rádios pinçam duas linhas nos jornais da manhã e, com elas, montam catilinárias para alimentar o dia inteiro. As redações são "bunkers", escreve-se para aqueles que escrevem. O leitor que se dane. O sistema mediático, viga mestra do processo democrático, converteu-se num pêndulo de clonagem e canibalismo, no qual todos se copiam e todos se digladiam. A concorrência não busca a pluralidade, a diversidade ou a qualidade, mas a anulação desta pela reiteração. Com as honrosas e raras exceções” (http://www.paramasmaquinas.com.br, acessado em 21/04/02).
Neste contexto vamos mais longe ainda, ao reivindicamos quatro princípios da imprensa que segundo Kunczik se atribui a Lênin:
1) parcialidade;
2) veracidade;
3) compromisso com o povo; e
4) caráter de massa.
Acrescentamos ainda como princípios:
5) comunicação independente e autônoma que busque oferecer ao público informação alternativa e crítica de qualidade que contribua para uma sociedade livre, igualitária e que respeite a diversidade e dê voz aos que não a tem.
6.3 Por uma ética profissional
Consideramos o respeito pelos direitos humanos, civis e sociais base primordial da ética jornalística. No entanto, assumimos também o compromisso em seguir outros princípios, sugeridos por de Noelle-neumann e Schulz (in KUNCIK, 1997, p. 67) que:
1. consciência do jornalista no cumprimento de sua tarefa a serviço do público;
2. preservação da independência interna e externa;
3. adoção dos direitos humanos, especialmente o direito básico da liberdade de palavra, de imprensa e de radiodifusão;
4. tolerância para com as outras nacionalidades, raças e religiões; adoção da paz e da compreensão entre os povos;
5. respeito pela verdade; informação confiável ao público mediante verificação das fontes de notícias; retificação das notícias erronias;
6. preservação da confidencialidade profissional, na qual repousa a confiança no jornalista;
7. respeito pela vida privada e pela intimidade pessoal;
8. nenhuma crítica difamatória, a menos que o interesse público a justifique;
9. nenhuma exaltação à violência, à brutalidade; [suprimimos por entendermos que se trata de uma colocação moralista e ultrapassada: “e a imoralidade; consideração da situação especial dos jovens]
10. nível de educação proporcional à alta responsabilidade do jornalista
7.0 ELABORAÇÃO E ESTRUTURAÇÃO DOS PROJETOS
Quanto a parte impressa, trata-se de um boletim, tamanha A4 dobrado, (duas dobras), frente e verso, contendo seis páginas, intitulado Livre Expressão. O boletim será utilizado como uma mala direta, enviado quinzenalmente, destinado a jornalistas, ONG’s e atores sociais.
O boletim terá reportagens mais duradouras, agenda de eventos (Prioridade Absoluta), utilidades públicas e conscientização geral. O veículo ao contrário do site, irá ao encontro das pessoas.
Quanto ao projeto eletrônico, será um site com o mesmo nome direcionado ao mesmo público, além da Comunidade GLS, atualizado semanalmente que terá reportagens, artigos e análise crítica de conteúdos na mídia. O site tem como mote: Informação, cultura e cidadania. Os dois veículos são de cunho social e não possuem nenhum fim lucrativo.
7.1 Projeto eletrônico/ Site na Internet
O site Livre Expressão se baseia em um conteúdo jornalístico socialmente engajado, primando pela ética e promovendo a liberdade de expressão das formas de sexualidade. O site pode ser acessado no endereço: http://www.redemarket.com.br/livreexpressao/
7.2 Público Alvo
Jornalistas, atores sociais, comunidade GLS e público em geral.
7.3 Perfil do público
O perfil de jornalistas e atores sociais é em sua maioria jovem: 62% dos entrevistados tem de 23 a 39 anos. A maioria tem alto grau de escolaridade: 52% com instrução superior e 36% com mestrado. Destes, 76% acessa diariamente a Internet e apenas 4% raramente. Indagados sobre o interesse em um veículo de análise crítica, 62,5% respondeu que tem interesse regular, 13,3% muito interesse e apenas 11,11% nenhum interesse. O assunto, por sua vez, de mais interesse desse público foi cidadania, com 47,7%.
Na pesquisa, a maioria do público GLS está também na faixa etária entre 23 e 39 anos. O grau de escolaridade dos pesquisados também é alto, sendo 22% grau superior completo, 32% incompleto e 30% mestrado. 87% trabalha no setor terciário e apenas 13% no secundário. 65% acessa internet diariamente. 69% tem muito interesse em acessar um site que trate de modo sério a comunidade GLS.
7.4 Linguagem e características
Todos os teóricos são unânimes em afirmar que não existe definitivamente um manual de estilo para a web, pois tudo é muito novo. Segundo José Fernando SIMONE e Mariana MONTEIRO (2001), autores do livro Jornalismo Online – O Futuro da Informação, o que se observa são algumas orientações que já foram testadas por profissionais do meio ou mesmo padrões de estilos adotados por determinados veículos online, ou seja, diferentes públicos, diferentes fórmulas.
SIMONE e MONTEIRO define o futuro do jornalismo como “a convergência que não apenas a fusão dos meios de comunicação (radio, tv e jornal) na web e o desaparecimento do computador. Comunicação e informática estarão cada vez mais próximas e mais interelacionados. A convergência da mídia é um movimento complexo e transformador” (SIMONE e MONTEIRO, 2001 p.20 e 21). Ricardo P. CEZAR, editor do Web World, em depoimento ao livro diz que: “Conteúdos sobre esportes e sexo são geralmente muito visitados, mas acho que há leitores suficientes em todas as áreas. O que vale, portanto é fazer conteúdo de qualidade. Em qualquer área, o leitor sempre saberá reconhecer conteúdo bom e vai passar a lê-lo” (SIMONE e MONTEIRO, 2001, p. 44).
DIZARD (1994) define a nova mídia como crescentemente interativa, permitindo aos consumidores escolher quais recursos de informação e entretenimento desejam quando os querem em qual forma.
Existem grandes diferenças entre o jornal online e outros veículos: a primeira é a velocidade de informações. Pode-se colocar a notícia na rede algumas horas depois da ocorrência do fato e ela saíra bem antes que nas outras mídias. A segunda é de criar links sobre o assunto, o que permite que o jornalista se aprofunde no tema. Muitos jornais impressos já estão adotando o sistema de colocar a entrevista na íntegra na internet, já que estas notícias sofrem influência do espaço do jornal. Em uma crônica publicada no Jornal de Bairro, Fala São João, no dia 03 de abril/02, o jornalista José Alexandro Oliveira faz uma análise da questão do tempo na Internet e faz uma analogia, dizendo que Freud também explica a Internet. Denis Moraes comenta que.
“O indivíduo consome e escolhe o que quiser nos horários, nas freqüências e nos ângulos de abordagem de sua preferência. Enquanto a televisão, o rádio e o jornal ordenam o noticiário em função de suas diretrizes editoriais e ideológicas, as redes computadorizadas impele-nos a busca e seleciona dados ambiciosos. A navegação geralmente norteia-se por motores de buscas que localizam na diversidade da rede, conteúdo afins com as palavras chaves indicadas. Cabe aos internautas a postura ativa e crítica de peneira. A web inverte a lei das mídias convencionais: o valor de uso é obtido na relevância de cada ligação, e não pelo consumo de denominadores comuns, indispensáveis a coesão da audiência de massa” (MORAES, 2001, p.71).
Mas mesmo assim, MORAES ressalta que seria um equivoco encarar a internet como um mercado paralelo e estanque, dissociado das demais mídias e das conjunturas sociais. Não interliga-las àquelas instâncias equivaleria entende-la como fim, e não como um meio para se atingir metas maiores.
As noticias podem ser atualizadas várias vezes por dia e acessadas instantaneamente por leitores em qualquer lugar do mundo. Outra diferença é que a Internet é interatividade, que permite relacionamentos imediatos entre várias pessoas, entre leitor e jornalista. Com a Internet, a pesquisa ficou mais fácil, o jornalista tem acesso a incalculável quantidade de informações vindas de diversas fontes, ajudando na confecção e apuração de pautas. Devido a sua interatividade, ela também permite o contato de fontes distantes geograficamente e difíceis de serem localizadas. Também há possibilidade de se implantar outros serviços como consulta a banco de dados com arquivos das edições passadas, classificados online, programa de busca, fóruns de discussão abertos ao público, canais de bate-papo em tempo real e muitos outros. Outra diferença básica é que a maioria dos jornais impressos chegam aos leitores mediante pagamento de exemplar, enquanto a Internet, na maioria dos casos, oferece os mesmos conjuntos de notícias e estrutura de cadernos e editorias, gratuitamente.
A tecnologia da informática permite a utilização do hipertexto, que se caracteriza por uma sessão não seqüencial ao texto de um documento. O suporte eletrônico dá ao leitor liberdade para percorrer caminhos associativos ao longo do documento, seguindo relações que seu próprio leitor criou.
O jornal eletrônico difere, de um jornal impresso, por que oferece aos leitores recursos para construir novas relações entre os trechos que compõem o documento. Com o hipertexto, pode se destacar palavras, saltar para outros documentos relacionados, ao clicar o link sublinhado, cruzar referências, enfim, fazer uso de possibilidades de edição e de interação inexistentes no jornal impresso. José Fernando Simone e Mariana Monteiro classificam que o modelo de jornais impressos na rede de transposição da mídia impressa, que vinha sendo utilizado já não satisfaz mais os internautas. Veículos como o JB Online começam a arquitetar novas estruturas, muito mais dinâmicas e de fácil navegação.
Denis Moraes (2001) comenta que o hipertexto: propõe uma reserva, uma matriz dinâmica a partir do qual um navegador-leitor-usuário pode criar um texto em função das necessidades do momento.
Não existe diferença significativa entre o papel do jornalista online e o do jornal tradicional. Ambos devem ser profissionais com capacidade crítica, bom conhecimento e domínio do idioma, além de estarem comprometidos com a veracidade dos fatos. A principal diferença está no uso da linguagem adequada a cada veículo pelo jornalista.
Em pesquisa com profissionais da comunicação, no livro Jornalismo Online, SIMONE e MONTEIRO revelam um quadro que está em constante transformação, se adaptando aos novos tempos, às exigências do próprio meio. Seria um equívoco traçar um caminho ideal para alcançar a forma perfeita para se trabalhar com a informação na grande rede. Na sua pesquisa levantou que:
“Hoje praticamente todos os sites jornalísticos (incluindo os de revistas) trabalham combinando as notícias de minuto com as de analise, acrescentando áudio e vídeo quando disponíveis, mas ainda de forma pouco harmônica, com pouco ou nenhum interelacionamento das informações. O hipertexto vem sendo muito pouco usado, se considerarmos a sua potencialidade” (SIMONE e MONTEIRO, 2001, pg.22).
7.5 Proposta editorial do site
A proposta editorial do site é dividida para jornalistas e atores sociais, e comunidade GLS.
Na Home Page estão dispostos os seguintes ícones e links:
a) Quem Somos – Fala sobre os objetivos do projeto e expediente
b) Contato: link direcionando para o e-mail
c) LE Comunidade GLS
Cultura: matérias e críticas sobre livros, filmes, espetáculos, discos.
Militância: Mailing dos movimentos, com telefone e endereço de todo o Brasil.
Espaço Aberto: Um espaço aberto para artigos de opinião, de pessoas que lutam pela cidadania, artigos de militantes.
Crônicas: Crônicas sobre assuntos variados.
Comportamento: matérias sobre comportamento e formas de expressão humana.
Oriente-se: Orientação psicológica.
Política: Artigos formas de atuação políticas, que lutem pela livre expressão humana.
Fórum: Vamos mediar debates sobre temas que abordem a questão da livre sexualidade.
d) LE Imprensa
Clipping: Será clipado matérias que falem sobre formas variadas de sexualidade.
Análise de Mídia: Vamos analisar as matérias do clipping em forma de artigo. Isso pode e deve servir como referência para jornalistas.
Prioridade: O Prioridade é uma proposta diferente de agenda sobre eventos, e também sugestões de pauta e abordagens.
Leis: Leis que protegem os direitos dos homossexuais, garantias institucionais
Seja Voluntário: Esse espaço foi criado para pessoas que queiram participar do projeto como colaboradores.
Notícias: Notícias sobre a comunidade GLS.
Entrevista: Entrevistas com autores, militantes e pessoas que lutem de alguma forma pela liberdade sexual.
Segundo COLLARO, “não existe norma para determinar a utilização da cor, porém os conceitos sensitivos transmitidos em relação à alegria, tristeza, seriedade, agitação, movimento, etc. Produzem uma reação que deve ser perseguida quando elaboramos um projeto qualquer”. (1996, pg.65).
Utilizamos o azul, como cor predominante do site, por que segundo Collaro: “é a cor preferida pelos adultos, por transmitir calma e por que esta tonalidade é dinâmica e traduz viagens imaginárias. Em segundo usaremos o branco”, pois de acordo com o autor, sugere pureza e está sempre condicionado ao sentimento de paz. (COLLARO, 1996, p.67).
7.6 PROJETO GRÁFICO/ FOLHETO
7.6.1 Formato
Formato A4, dobrado, com seis páginas.
7.6.2 Planejamento Gráfico
A preocupação deste projeto com a forma se justifica porque, segundo Clóvis BARROS FILHO, “se durante muito tempo só o conteúdo das mensagens mediáticas interessava aos pesquisadores, é forçoso admitir que nas últimas três décadas, as formas dos meios de comunicação, suas características técnicas e seus efeitos específicos foram alvo de abundante doutrina” (BARROS FILHO, 1995, pg.65).
A diagramação do boletim informativo será feita em papel couche 150 gramas, colorido, pois segundo Collaro é ideal para publicação editorial “a seleção do papel é de suma importância para a execução de trabalhos impressos, pelas propriedades de suas diferentes classes, que influem decisivamente no custo e apresentação da obra” (COLLARO, 1996, pg.79). O corpo da letra será 12, também indicada a partir dos 12 anos por Collaro. O texto será diagramado em uma coluna. A fonte a ser utilizada será a Times New Roman. Para a leitura textos maiores que dez linhas, a fonte citada, por ser serifada, facilita a leitura. Além disso: “Para a leitura, os caracteres contrastados e serifados são os mais legíveis, mas a moderna tipografia permite usar caracteres transacionais com bons resultados de legibilidade, quando o volume de texto não é muito grande” (COLLARO, 1996, pg.122).
7.6.3 Periodicidade
Quinzenal.
7.6.4 Tiragem, distribuição e abrangência
Serão tirados quinzenalmente 1000 boletins (quantidade mínima exigida por gráficas) que serão distribuídos para jornalistas, ONG’s e atores sociais. Inicialmente vamos distribuir somente no Paraná.
7.6.5 Linguagem
A linguagem a ser utilizada neste folheto deve ser simples, acessível e coloquial. O manual de redação e estilo do jornal O Estado de São Paulo recomenda que o jornalista use frases curtas e na ordem direta; escolha palavras acessíveis a qualquer tipo de leitor e opte pelo vocabulário mais simples que defina uma coisa ou situação.
7.6.6 Conteúdo
Página 1 – A capa tem a logomarca do jornal Livre Expressão, no meio da página para identificar o produto com o projeto e também alguns símbolos de cidadania.
Página 2, 3 e 4 – Reportagem longa – Cada um na Sua
Página 5– Prioridade Absoluta - Agenda
Página 6 – Quem Somos
7.6.7 Público Alvo
Jornalistas, ONG’s e atores sociais.
7.7 PLANO DE MÍDIA DOS PROJETOS GRÁFICO E ELETRÔNICO/
Exeqüibilidade de uma edição mensal de ambos os produtos
Despesas
Valor Bruto
Gráfico
Eletrônico
Honorários dos dois jornalistas + INSS
R$. 2.207.66
R$ 1.103.83
R$ 1.103.83
Honorário do Diagramador
R$ 400.00
R$ 400.00
Correio (Distribuição de 1000 folheto)
R$ 550.00
R$ 550.00
Confecção do site (Bruto dividido em 04 parcelas)
R$ 1.200,00
R$ 300,00
Material de escritório
R$ 240.00
R$ 120.00
R$ 120.00
Aluguel/ água/ luz
R$ 370.00
R$ 185.00
R$ 185.00
Custos gráficos de impressão
R$ 630.00
R$ 630.00
Telefone/ Internet
R$ 300.00
R$ 150.00
R$ 150.00
Manutenção do site
R$ 150.00
R$ 150.00
Dois Micro computadores Pentium III (bruto dividido por 12 meses)
R$ 3.600,00
R$ 150.00
R$ 150.00
Aparelho fone/fax (bruto dividido por 12 meses)
R$ 300.00
R$ 12.50
R$ 12.50
Movéis usados
R$ 800.00
R$ 400.00
R$ 400.00
Scanner (bruto dividido por 12 meses)
R$ 200.00
R$ 8.33
R$ 8.33
Camera fotográfica( Bruto div. Por 12 meses)
R$ 1.200,00
R$ 50.00
R$ 50.00
02 gravadores (bruto dividido por 12 meses)
R$ 1.200,00
R$ 50.00
R$ 50.00
TOTAL DE DESPESAS R$ 13.350,66
3.179.66
3.312.66
Patrocínio
03 Cotas R$ 2.300,00 no total de R$ 6.900,00
Despesas Projeto Impresso R$ 3.179.66
Despesas Projeto Eletrônico R$ 3.292,66
Total de Despesas R$ 6.472,32
7.8 Viabilidade
7.8.1 Justificativa da viabilização dos projetos – marketing social
As empresas estão percebendo cada vez mais que não basta apenas materiais publicitários de propaganda, e, sim ações integradas de marketing e comunicação. Sendo assim, elas estão se pautando também pelas atividades sociais, envolvendo a instituição e os funcionários em ações que “soam” positivo e ajudam amenizar os problemas sociais na sociedade. A preocupação com o homem, o meio ambiente e a cultura estão se tornando constantes nas empresas.
De acordo com o professor Enéas Melo, mestre em Marketing Social, esses elementos são fatores determinantes do sucesso mercadológico. As empresas buscam vincular sua imagem à noção de responsabilidade social:
“A nova postura da empresa cidadã baseada no resgate de princípios éticos e morais passou a ter natureza estratégica”. Pode-se dizer que a eficiência não é só “fazer as coisas bem”, mas “fazer as coisas boas”, segundo princípios éticos. Uma empresa socialmente responsável é aquela que , além de ser ética nos seus negócios, preocupa-se com questões tais como: a não utilização de mão de obra infantil, saúde de seus funcionários, não utilização de trabalhos forçados, segurança no trabalho, liberdade de associação e negociação coletiva, não discrimina seus funcionários nem a sociedade em geral, respeita o horário de trabalho para os trabalhadores, preocupação com questões ambientais e possuem um sistema de gestão coerente” (http://www.msocial.hpg.ig.com.br, acessado em 18/04/2002).
O mercado e a sociedade estão fazendo parcerias e contribuições em conjunto. Clientes, fornecedores e comunidade estão buscando excelência através da qualidade nas relações e a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Melo, manifesta também a grande preocupação social por vários temas que vem abalando o bem estar social:
“A fome, a violência, as desigualdades, enfim, todos esses problemas vem fazendo com que a sociedade se reuna em torno de alternativas para que esses sejam solucionados. Já está bem claro para a sociedade que, para que esses problemas sejam resolvidos, não basta apenas investimentos estatais, pois o mesmo, trabalhando sozinho, não é suficiente para que contenha todas as mazelas sociais. Assim, muitas pessoas vem assumindo sua responsabilidade para com a sociedade. Cada dia existem mais pessoas assumindo um papel de voluntariado ou, até mesmo, ajudando uma causa. Ultimamente, também, vem observando o grande número de empresas que vem assumindo o seu papel de responsabilidade para com a sociedade.(...) Os investimentos na própria empresa também são de suma importância para a sobrevivência no mundo atual. A empresa deve investir na educação e no progresso de seus funcionários, na saúde, na alimentação, enfim, através desses trabalhos, a empresa tende a colher mais em produtividade, compromisso motivação e dedicação. A empresa que cumpre seu papel social, atrai mais consumidores e está investindo na sociedade e no próprio futuro” (http://www.msocial.hpg.ig.com.br, 18/04/2002)
Pesquisas realizadas recentemente (IPEA, SEBRAE, UFPE E ETHOS), trazem dados cada vez mais otimistas da atuação das empresas em obras assistenciais, filantrópicas ou, inclusive, no desenvolvimento de projetos sociais. Muito se fala em responsabilidade social e marketing social. Todavia, muitas empresas ainda não sabem como fazer essa diferenciação temática, e mais, não sabem como a responsabilidade social poderá representar uma oportunidade de negócio para sua empresa.
Na definição do professor Melo, “a responsabilidade social é uma maneira pela qual a sociedade, empresas, ONG’s, Instituições e Governo, têm de desenvolver atitudes perante a comunidade a qual está inserida, afim de que seja visado e alcançado um bem estar social”. Ser socialmente responsável é exercer essa responsabilidade externamente e internamente.
Várias campanhas sociais estão sendo promovidas em nossa sociedade. Isso levou o desenvolvimento do marketing social como área específica do marketing. Considera-se que as estratégias e estudos de marketing devam ser desenvolvidas numa campanha ou planejamento para que seja um guia de orientação para empresas ou entidades.
Uma vez demonstrado essa diferenciação, é pertinente esclarecer a seguinte pergunta: por que as empresas devem exercer a responsabilidade social? MELO responde a essa indagação ressaltando que a sociedade está exausta de tantos problemas e cansada da deficiência estatal. Segundo ele, é fácil notar que a sociedade está em constante transformação. “A competição está cada vez mais acirrada, tornando difícil que uma empresa se destaque nesse cenário econômico, pois a tecnologia está acessível para toda concorrência”. Sendo assim a atualidade se apresenta como momento oportuno para as empresas investirem em responsabilidade social.
Segundo dados de uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Ethos, 50% dos consumidores brasileiros declararam-se adeptos da prática de prestigiar ou punir as empresas com base em sua participação social; 24% dos consumidores procurariam comprar produtos de empresas que se destaquem pela responsabilidade social. Nota-se que a responsabilidade social passa a ser uma oportunidade de mercado. As empresas devem aspirar aos valores dos clientes e não o contrário. Compartilhar valores está se tornando uma necessidade para as empresas que queiram continuar sendo bem aceitas pelos clientes.
É importante observar que o instrumento utilizado para essa necessidade do por quê e como fazê-lo é definido pelas estratégias do marketing social. As empresas devem levar em consideração que as ações de responsabilidade social começam por ações de cidadania e que o marketing é apenas sua base de sustentação. O marketing é uma conseqüência da responsabilidade social.
De acordo com Oded GRAJEW, diretor-presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, a responsabilidade social das empresas possui um grande poder de transformação social desde que assumida de forma séria, realista, coerente e consistente. Ao flexibilizar seus valores na primeira dificuldade, ao não estar preparada para tomar decisões que implicam em perdas, a empresa corre enormes riscos de perder sua credibilidade e distorcer o entendimento por parte da sociedade sobre a cultura da responsabilidade social. Apenas decisões pautadas em critérios éticos e não vantagens ou desvantagens de curto prazo por parte de empresas, sindicatos, organizações sociais, organismos internacionais, partidos políticos e governantes, poderão construir um mundo melhor.
8.0 Métodos e Técnicas
Para o desenvolvimento dos projetos, utilizamos três métodos: o bibliográfico, o qualitativo e o quantitativo.
8.1 Método Bibliográfico
No processo de pesquisa bibliográfica, analisamos as informações e dados apresentados por autores e estabelecemos e identificamos as relações entre as informações e os dados apresentados tanto na monografia quanto no suplemento impresso e no programa eletrônico. Baseamos nossa fundamentação teórica na proposta metodológica de teóricos da comunicação como Habermas, Marcuse, Denis de Moraes, Michael Kunczir, Armand e Michelle Matterlat, Rüdiger, Alberto Dines, entre outros autores que contribuíram. Também procuramos artigos e livros de jornalistas que estudam o fenômeno da comunicação de massa, a linguagem dos veículos impresso e de Internet e o desenvolvimento e estabelecimento do jornalismo social no Brasil.
8.2 Método Qualitativo
Esta pesquisa envolveu entrevistas diretas com pessoas que se ocupam do tema: homossexualidade. Tivemos a oportunidade de realizar uma entrevista pessoalmente com o escritor João Silvério Trevisan, autor utilizado para o desenvolvimento teórico do projeto com o livro: Devassos no Paraíso - a homossexualidade no Brasil, - da Colônia à atualidade, editado pela Record em 2000. Outra pessoa relevante entrevistada via e-mail, foi o Ph.d, professor de História da América Latina, James Green e autor do livro, Além do Carnaval – a homossexualidade Masculina no Brasil do Século XX, também utilizado na teoria.
Indagado sobre o tratamento da grande imprensa e imprensa especializada na questão gay, TREVISAN não teve dúvidas em responder que
“A grande imprensa tem o objetivo de vender a noticia, sendo de maneira positiva ou negativa. Ela não tem interesse por estas questões. O interesse é vender maldades para o mercado. Estando inserida num contexto homofóbico é natural que a imprensa seja homofóbica. O jornal da Tarde e o Estadão, até pouco tempo não admitiam em pautas assuntos gays. Esses preconceitos são perpetuados diretos. Os preconceitos melhoram de maneira muito lenta, porque eles são muito mais arraigados. O proprio gueto homossexual é muito cruel, porque ele é oprimido, mas também oprime. A grande imprensa é preguiçosa e trabalha sim com esteriótipos, por que é muito mais fácil colocar esteriótipos. A tendência politicamente correta é oportunista. Eles usam certas expressões não para serem corretos, mas para parecerem ‘bacanas’. A Folha de São Paulo foi o primeiro jornal a usar a Palavra bicha” (Entrevista realizada, 28/03/02 em Curitiba).
Já James Green concorda com o preconceito, mas diz perceber muitas transformações.
“Eu vejo uma mudança impressionante nos últimos 20 anos no tratamento da Grande Imprensa sobre gays e lésbicas. É claro que ainda existe aqueles artigos que somente conta os aspectos folclóricos sobre os travestis e apresenta uma visão unilateral, mas acho que houve transformações impressionantes na cobertura. Acho isso é devido tanto uma abertura dos jornalistas que convivem com amigos gays e lésbicas que estão cada vez mais aberto sobre as suas vidas “privadas” como também o resultado do movimento nacional e internacional que impus um serie de debates sobre temas relacionado à homossexualidade como parceria civil, o direito de adotar crianças, etc. que obrigou uma cobertura mais humana e menos escandalosa. A imprensa gay não ligado diretamente a um ONG reflete uma tendência internacional da comercialização da homossexualidade com homens bonitos, bem vestidos, consumido produtos caros. Em certo sentido é uma obrigação, pois é difícil conseguir vender para um público se não tiver homens pelados. Parece que as pessoas não compram as revistas que um pouco de pele e pau. Várias destas revistas tem dado uma cobertura aos assuntos relacionado aos plenos direitos dos homossexuais e o movimento, combinando este tipo de notícias com outra cobertura mais comercial” (Entrevista realizada via email, 25/05/02).
8.3 Método Quantitativo
O método da pesquisa quantitativa serviu para orientar os caminhos que deviríamos tomar durante a execução do trabalho.
8.3.1 Objetivos da pesquisa
Descobrir os hábitos, necessidades e interesses a respeito do objeto em experimentação – entre outras informações, medir se o nosso público tem interesse sobre o assunto: homossexualidade verificar quais assuntos chamam mais atenção nesse segmento e qual a periodicidade mais indicada para os veículos.
8.3.2 Período de realização
As pesquisas foram realizadas entre os meses de abril e maio de 2002.
8.3.3 Universo, Amostra e Margem de Erro
Sendo uma pesquisa de campo quantitativa, o universo da pesquisa compreendeu pessoas de diversos ramos de atividades socioeconômicas, e de diferentes faixas etárias, que pudessem se encaixar no perfil do público interessado em adquirir informações através do boletim impresso e via Internet.
Ao todo foram preenchidos 200 questionários, fechados, de múltipla escolha com pessoas de 11 anos a mais de 60 anos. A margem de erro desse trabalho, contando que foram 200 entrevistas é de 5%, conforme tabela que determina a margem de erro.
8.3.4 Local onde foi Realizada a Pesquisa de Campo
Os dados foram coletados através de um questionário impresso, distribuído para ONG’s, jornalistas e atores sociais em alguns pontos da cidade de Curitiba e também via Internet através de grupos de e-mail.
8.3.5 Coleta de Dados
Elaboramos um questionário estruturado, contemplando as seguintes variáveis: idade, grau de escolaridade, profissão, hábito em relação a leitura de jornais e freqüência que acessa a Internet, grau de interesse em ler um informativo e consultar um site, assuntos que gostaria de ler, termos usados indevidamente pela imprensa.
8.3.6 Como foram registradas
Após a entrega de questionários, as pesquisas foram decodificadas através de números para cada resposta obtida.
8.3.7 Análise da Pesquisa
A análise está organizada em forma de gráficos e tabelas anexados neste trabalho. A interpretação dos dados mostra a conclusão da pesquisa, fornecendo recursos para afirmar a necessidade do nosso projeto impresso e eletrônico, apontando periodicidade e temas. É com base também nesta pesquisa que podemos reafirmar, agora, empiricamente a relevância do nosso objeto de estudo.
8.3.8 Interpretação da Pesquisa
Resultados:
Número de entrevistados: 200 pessoas, sendo 100 pessoas entrevistas da comunidade GLS e outras 100, jornalistas e atores sociais.
Período: abril e maio de 2002.
9.0 Conclusão
Uma questão que permanece fundamental para nós é por que a individualidade no mundo contemporâneo ainda é apenas uma representação especifica de tipos pré-concebidos e estereotipados de seres humanos (independentemente de como sejam classificados)? Na produção industrial, a variedade tende a se resumir à produção de embalagens, cores e sabores. Hoje, as liberdades, gratificações e as relações do indivíduo com o próprio corpo passam a existir vinculadas aos requisitos pré-fixados de dominação e se convertem em instrumentos de dominação.
Essa é uma questão que, ultrapassa em muito a amplitude deste trabalho que está caracterizado apenas como a conclusão de nosso curso de graduação. Talvez a reflexão e o estudo sobre a questão sejam um ótimo tema para futuros trabalhos de mestrado ou doutorado. Pensamos que nossa intenção de planejar um projeto que questione e se proponha a uma “ação comunicativa”, para tentar encontrar uma “brecha” no muro que tentam engessar todos nós seres humanos, já é bastante gratificante. Por uma questão de preferência e afinidade escolhemos lutar contra os estereótipos (homos)sexuais. O fato é de que o Brasil é, segundo estatísticas do GGB, campeão mundial de homicídios contra minorias de orientação sexual. Já é um indicativo da necessidade de se empreender uma ação séria e concreta nesse domínio tão marcado pela negligência e pelo preconceito.
10.0 Bibliografia
Livros
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Artigos
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Sites
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Site http://www.homemgay.hpg.ig.com.br - Ser guei é assim...novo site atualizado http://www.estoufelizassim.hpg.com.br
Site http://www.paremasmaquinas.com.br
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[1] Artigo disponível em htttp://www.pstu.org.br/gaylesb_artigo-01.asp>, Secretaria Nacional de gays, lésbicas e homossexuais do PSTU em 15 de mar 1999.
[2] De acordo com o professor Jean-Claude Bernardet em seu artigo “Ser ou não ser é a questão” os gregos formavam casais constituídos por um homem adulto e um adolescente. Este homem adulto seria o educador e mestre do adolescente, desenvolvendo-se assim, dentro de regras estritas, um relacionamento também sexual e sentimental. Quando o adolescente tornava-se adulto a relação terminava. Outras formas de relação entre pessoas do mesmo sexo eram mal vistas. (BERNARDET in org PINSKY, 12 Faces do Preconceito, 1999)
[3]Essa concepção patológica predominou em muitos países até a década passada, quando a OMS (Organização Mundial da saúde), retirou o homossexualismo da lista das fatalidades patológicas em 1985.
[4] Porém, em 22 estados americanos ainda consideram a homossexualidade ilegal.
[5] No dicionário Luft a palavra sodomia significa “relação sexual, fora dos padrões tidos como normais, entre indivíduos do mesmo sexo ou de sexos diferentes, ou ainda entre pessoas e animais”.
[6] SILVA afirma que: “Desde seu surgimento o movimento homossexual já enfrentava a repressão policial. De abril a julho de 79, a polícia federal fez uma série de investidas contra o jornal Lampião e grupos de todo o país recebiam cartas ameaçadoras de "comandos de caças aos gays". O delegado Richetti, em São Paulo, estava dispostos a "limpar" as ruas. E com este intuito organizou a operação "Rondão" a qual, durante dias, espancou e prendeu dezenas de homossexuais, travestis e prostitutas do centro de São Paulo.
A violência da operação vez com que setores da sociedade se levantassem contra ela e uma passeata convocada pelo movimento homossexual, grupos feministas e o Movimento Negro Unificado, no dia 13 de junho, reuniu aproximadamente 1.000 pessoas, entrando para a história como primeira grande mobilização de homossexuais no país”. (SILVA, 1994)
[7] Ver anexos
[8] Cartas de protesto do GGB não foram respondidas pela direção desta Universidade. [Fonte: arquivo do GGB – denúncia A. A. – Curitiba, 6/8/99]
[9] Ver em anexo trabalho na íntegra
[10] gays, lésbicas, Bissexuais e Trangêneros