Uma das minhas grandes inquietações enquanto historiador e homossexual é refletir sobre a possibilidade de se fazer uma História da homossexualidade. A escrita da História Oficial por muito tempo manteve grupos minoritários relegados ao esquecimento. No entanto, um aspecto da historiografia atual é dar visibilidade a estes grupos provando que a História contada apenas por grandes acontecimentos e personagens ilustres é somente parte de uma realidade e não a sua totalidade. Então, pode um grupo constituir uma história própria? A resposta parece afirmativa para três historiadores: Amilcar Torrão Filho, James Green e Claudio Roberto da Silva que nos seus livros e trabalhos prestaram importantes contribuições para a reflexão do tema.
Tríbades Galantes, Fanchonos Militantes: homossexuais que Fizeram História de Amilcar Torrão Filho traça uma História da homossexualidade desde os tempos dos gregos antigos até o período contemporâneo, mostrando como os homossexuais estão presentes ao longo do tempo contribuindo sobremaneira para o desenvolvimento intelectual, artístico e cultural de nosso mundo. Figuras destacadas da literatura, artes, economia e alguns anônimos marcam presença. Destaco neste livro um capítulo sobre homossexualidade e religião, onde o autor desconstrói algumas passagens da Bíblia que usualmente são utilizadas pela Igreja para condenar os gays.
O livro de James Green, Além do Carnaval: A homossexualidade Masculina no Brasil do Século XX trata exclusivamente da homossexualidade no Brasil desde o início do século XX até os tempos atuais. É interessante observar como na década de 20 já existia uma efervescência do "meio" que Green descreve muito bem. Os capítulos dedicados à maneira como a medicina e polícia tratavam o tema da homossexualidade é interessantíssima. Vale frisar que a homossexualidade no Brasil segundo Peter Fry, de "crime", "sem-vergonhice" e "pecado" – adjetivos provenientes de um discurso religioso – passa a ser considerado no início do século XX como "doença" – proveniente de um discurso médico e psicológico – e daí passível de "cura". Os mecanismos e processos de "cura" são descritos pelo autor em seu livro.
Outra obra interessante é a dissertação de mestrado de Claudio Roberto da Silva, Reinventando o Sonho: História Oral de Vida Política e homossexualidade no Brasil Contemporâneo onde o autor através de uma série de entrevistas com editores e colaboradores do extinto jornal Lampião da Esquina desenvolve seu trabalho enfocando um outro momento histórico dos homossexuais no Brasil. Trata-se da década de 70 e 80 quando os movimentos pelos direitos gays são levantados através de grupos e de um órgão importante de imprensa como o Lampião, onde importantes jornalistas e intelectuais escreviam.
Apesar destas três obras terem um enfoque diferente sobre homossexualidade e História, constituem sem dúvida alguma, importantes contribuições de historiadores para a bibliografia sobre o tema. Cada autor a sua maneira aponta um caminho para a construção de uma História da homossexualidade não deixando de lado a análise das sociedades em que estes sujeitos estavam inseridos. A força maior destes trabalhos consiste em mostrar o quanto as sociedades passadas e presentes são dotadas de uma diversidade e riqueza que insistem em ser ocultadas pela memória e pela História Oficial.
Castúlio do Amaral Neto
Historiador
cacamatal@hotmail.com
Bibliografia
GREEN, James Naylor. Além do Carnaval: A homossexualidade Masculina no Brasil do Século XX. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
SILVA, Claudio Roberto da. Reiventando o Sonho: História Oral de Vida Política e homossexualidade no Brasil Contemporâneo. São Paulo: FFLCH/USP, 1998. Dissertação de Mestrado.
TORRÃO FILHO, Amilcar. Tríbades Galantes, Fanchonos Militantes: homossexuais que fizeram História. São Paulo: GLS, 2000.