Homossexualidade
Homossexualismo & Homossexualidade
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Homossexualidade

Referências

homossexualidade
homossexualismo
saindo do armário
sair do armário
fora do armário
se assumir
cura da homossexualidade

 
 

Estereótipos, preconceitos e homossexualidade

Por João Marinho

homossexualidade MasculinaEstereótipo. Essa palavra tem povoado o movimento gay desde sempre. No caso específico dos LGBT´s, diz respeito às imagens e conceitos uniformes que as pessoas associam erroneamente aos homossexuais e transexuais, o que reflete uma "preguiça" de conhecer melhor a diversidade do nosso, por assim dizer, universo, ou uma formação machista e heterocêntrica que faz uso destas mesmas ferramentas para perpertuar todo um preconceito contra o diferente. Ou ambos os motivos.

Estereótipo e preconceito estabelecem entre si uma dialética "biunívoca". É impossível pensar um estereótipo sem preconceito e é impossível pensar um preconceito sem estereótipo. Um alimenta o outro. De fato, o estereótipo se origina de algum tipo de preconceito, que precisa criar imagens e conceitos – forçosamente errôneos porque carentes de fundamentos justos – que confiram um desvalor ao grupo que dele sofre, para justificar o próprio preconceito e as ações concretas dele decorrentes (ao que chamo discriminação).

Dessa forma, também é fácil concluir que o preconceito somente subsiste mediante o estereótipo, pois, se as imagens e os conceitos errôneos se esvaírem, ele não terá como sobreviver e como se autojustificar e, portanto, não poderá gerar discriminação e nem outros estereótipos. Neste ponto, podemos estender a idéia de estereótipo a todo e qualquer conceito ou imagem que seja erroneamente e injustamente atribuído a um grupo como forma de justificar preconceitos e deles se alimentar.

Pode parecer que falamos a mesma coisa, mas, se analisarmos detalhadamente, a realidade é outra. Como o mundo, em si, é dialético, o estereótipo não atinge somente os grupos minoritários e/ou outsiders (ou seja, os que são vistos à margem do padrão consagrado socialmente), mas os próprios grupos estabelecidos e majoritários. Se um preconceito determina e se alimenta de um estereótipo que atinge um grupo minoritário/outsider, este precisa, por sua vez, travestir-se o mais diferente possível do padrão socialmente consagrado, a fim de ser mais facilmente reconhecido. Dessa forma, as regras sociais atinentes ao padrão se cristalizam e endurecem, para que tudo fique mais claro e os majoritários/estabelecidos identifiquem com nitidez quem pertence a este ou àquele grupo.

Ora, essa cristalização ou endurecimento é, ela mesma, um novo estereótipo. Os grupos majoritários/estabelecidos criam, assim, um contra-preconceito e se tornam vítimas de contra-estereótipos que os aprisionam, impedem de viver outras realidades e estreitam sua visão de mundo. Os minoritários/outsiders, por sua vez, têm a visão de mundo estreitada exatamente pelo preconceito e estereótipo que sofrem, que impedem seu acesso a ferramentas sociaisconcedidas aos demais grupos e, não raramente, os constrangem a levar uma vida subterrânea, como forma de se defender dos ataques discriminatórios (as ações concretas). Eis porque o preconceito não atinge, finalmente, apenas um grupo (o que dele sofre), mas é prejudicial para toda a sociedade – com um agravante: os grupos majoritários ou estabelecidos nem sempre se dão conta disso e sofrem seus efeitos sem identificar a origem.

Um exemplo claro, e aqui remeto novamente à experiência dos homossexuais, é o valor negativo atribuído à efeminação, ou seja, um homem não deve ter comportamentos tipicamente femininos. Ao considerar o ser efeminado alguém inferior, os homens heterossexuais imediatamente atribuem a todos os homens homossexuais essa característica, o que desemboca no que chamo de "efeito Tostines": homossexuais são desvalidos porque são efeminados e são efeminados porque são desvalidos, ou, em outra concepção mais simples, homossexuais são efeminados porque são homossexuais e efeminados são homossexuais porque são efeminados. Ambos os conceitos se tornam indissociáveis.

Entretanto, o que vem a ser uma pessoa efeminada? Primeiramente, há de se determinar o que é um comportamento feminino. Elencam-se, neste ponto, numerosos conceitos e imagens para caracterizá-lo. Uma vez bem determinado, pode-se, afinal, tornar o homem efeminado objeto de ataque do preconceito. Ora, determinar o que é efeminação, porém, pressupõe, forçosamente, determinar o que não é. Dessa forma, elencam-se também conceitos e imagens de "não-efeminação", ao qual os homens heterossexuais deverão corresponder para não serem identificados como pertencentes ao grupo outsider dos efeminados (contra-estereótipo).

homossexualidade FemininaHá ainda uma outra via. Se o conceito de efeminação é, então, tido como negativo, é forçoso reconhecer que o comportamento feminino dele oriundo não é menos desvalido. A diferença é que, às mulheres, é permitido serem "efeminadas", o que, no entanto, necessariamente as coloca numa posição social inferior, e, ao mesmo tempo que determina o que é "não-efeminação" – e, por extensão, "não-feminino" ou masculino –, impede a estas que tenham acesso aos comportamentos então tidos como típicos dos homens heterossexuais, que, uma vez à frente, em questão de gênero, na dinâmica social, teriam maiores possibilidades de crescimento ou ascensão.

Da parte dos homossexuais, por sua vez, a tentativa de defesa contra o estereótipo e do preconceito e de integração ao mainstream faz com que esses se esforcem em seguir o padrão masculino-heterossexual e, portanto, rejeitem os efeminados, que, eles, diferentemente dos heterossexuais (que, à primeira vista, consideram efeminados todos os homossexuais), conseguem reconhecer com maior clareza.

Alguns argumentariam, no entanto, que entre as mulheres heterossexuais é positivo ser "feminina". De fato, mas esse aspecto "positivo" não é, afinal, senão um reflexo do "não-masculino", ou seja, é positivo para a mulher não agir como homem e, portanto, elas são forçadas a seguir seu próprio estereótipo, sem o qual serão consideradas "masculinizadas" ou lésbicas – grupo outsider cujo problema passa a ser exatamente a "masculinização", numa operação inversa que ocorre com relação ao homem efeminado. Logo, é positivo ser feminina/afeminada porque, se ousar seguir um comportamento "masculino", por mais ilógica racionalmente que seja a presunção, a mulher heterossexual corre o risco de ser desprezada pelos homens heterossexuais, quando não se torna o próprio comportamento feminino, ele mesmo, um desvalor em si, ao abarcar em seus conceitos uma série de incapacidades que não se verificam na prática – e contra as quais o feminismo, historicamente, tem se posicionado, entre outras causas.

Claro, aqui todas essas questões são analisadas grosso modo (há bem mais variações e interferências sociais a considerar), mas ilustram bem como funciona a dialética estereótipo/preconceito e como ela é prejudicial a todo o tecido social e aprisiona, no caso dos homossexuais, não somente estes, mas os próprios heterossexuais do padrão social, que são impedidos de terem vivências mais plenas. Assim, por exemplo, o ato de tocar é um pressuposto feminino – as mulheres, lésbicas ou não, se tocam – e também é um comportamento "concedido" aos homens homossexuais dentro dessa esfera feminina. Entretanto, entre os homens heterossexuais, é um desvalor (com raras exceções), e, embora estes não percebam, deixam de viver toda uma experiência corporal que é absolutamente enriquecedora, e que não necessariamente reflete um desejo erótico por alguém do mesmo sexo.

Devido a esse aspecto fluido, o grande problema de combater a dupla estereótipo/preconceito é que eles são, dada uma determinada dinâmica (quer seja, a do gênero e/ou sexualidade, que aqui adotamos), normalmente apreendidos como elementos isolados e distintos, sem considerar a dialética superior. Assim, combate-se um estereótipo e um preconceito, o que, muitas vezes, resulta tão-somente na adoção de um outro estereótipo – o dos grupos estabelecidos. Temos, assim, o erro recorrente entre os homossexuais, que, para combater o estereótipo do "efeminado", mostram-se "masculinos", o que, no final, pode gerar como um subproduto o reforço ao preconceito contra os efeminados, a prisão heterocêntrica dos heterossexuais e o próprio reforço ao preconceito que eles, homossexuais no todo, sofrem. E, pode parecer que não, mas isso está absolutamente enraizado em nós. Aliás, quantos de vocês já não se sentiram bem ao ouvir alguém falar "nossa, mas você nem parece!", ao revelarem sua homossexualidade. Já se perguntaram, afinal, o porquê desse "bem-estar"?

João Marinho
joaomarinho@uol.com.br
Jornalista

 

 
 

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